Super 8 (Idem, 2011)
Se Super 8 desse certo mesmo, seria um dos melhores filmes de 2011. Não é. Mas é uma diversão agradável, especialmente nos primeiros trinta minutos. A longa sequência fundamental – a da filmagem amadora com o acidente envolvendo o trem logo depois – é extremamente empolgante e deliciosa de se ver. Acho que tudo ali ficou no lugar certo. É o melhor momento do filme.
Super 8 é nostálgico. E nostalgia está na moda. Especialmente os anos 80. A história se passa em 1979, mas 1979 já é anos 80. Também é verdade que, de todas as décadas do século passado, essa é a que mais repercute hoje e os produtores souberem aproveitar bem isso. O clima que J. J. Abrams imprime ao seu filme é bastante competente e bonito na maioria das vezes. Os personagens também são carismáticos – não são estúpidos. O pecado aqui é o seu roteiro.
É interessante e inspirador que toda a história comece a partir do testemunho de crianças que estavam no lugar errado e na hora errada – ou seria no lugar certo e na hora certa? – fazendo um filme de terror amador. Só não são tão bacanas os contornos posteriores: a homenagem se torna lugar comum. A ação passa a ser previsível, culminando com um desfecho melodramático demais para um filme que deveria ser descompromissado.
As crianças fazem de tudo para concluir a filmagem delas. Mas estão presas ao espírito de Abrams (e Spielberg). Isso quer dizer que Super 8 está longe de ser amador. Precisa lucrar e ser grande. Por isso, podemos esperar demasiadas explosões e tiroteios. E hoje em dia qualquer vidro quebrado é um estrondo. Aliás, é impressão minha ou os filmes estão cada vez mais escuros e barulhentos? Às vezes é impossível enxergar o que diabos está acontecendo – e se essa é uma estratégia de suspense, creio ser equivocada. Sugestão e escuridão não se confundem.
Mesmo com seus problemas, Super 8 é entretenimento raro para as crianças, jovens e adultos. Aqui ainda há uma inocência perdida. Há uma atmosfera diferente. É um filme que pode ser sentido – ele interage com os espectadores. Enfim, não é pura masturbação cinematográfica. Tem um certo espírito que cresce nos momentos preliminares da ação propriamente dita e, infelizmente, vai murchando. Como resultado, no final temos a impressão de estarmos vendo um filme qualquer. No entanto, seria injusto enquadrá-lo nessa categoria. Super 8 não é super, mas quase chegou lá.
Nota: 7
Olhos de serpente (Snake eyes, 1998)
A partir de hoje com notinha pessoal após o texto.
Alguns filmes começam bem e terminam mal. Em outros, ocorre o contrário. Estes têm a vantagem, afinal de contas, a última impressão é a que se conserva melhor. Mas ambos podem enganar e provocar injustiças: os primeiros, por terminarem mal, acabam se tornando piores do que de fato são; os outros, que terminam bem, escondem os erros da parte ruim e se tornam melhores. Não são esses, como sabemos, os grandes filmes.
Olhos de serpente é um exemplo do primeiro grupo: a metade inicial é uma beleza; a segunda um desperdício. Na primeira parte está o que há de bom no filme: a estética genial de Brian De Palma, cenas montadas com um rigor técnico impecável, a apresentação crua e ao mesmo tempo fascinante dos personagens, duas grandes sequências (uma de assassinato e outra de perseguição).
Já a metade final, infelizmente, é quase desastrosa. O filme se perde. Transforma-se em um produto comum de ação/suspense. Deixa de lembrar O grande golpe e Rashomon, como acontecia, e começa a parecer um daqueles filmes que passam sábado à noite na tv aberta, com um desfecho absurdo e pouco convincente. É uma pena, pois tinha tudo para ser outra bela obra de De Palma.
Olhos de serpente foi produzido no final da década de 90 e é hoje pouco lembrado. A crítica, em geral, detestou o filme e, neste caso, não houve injustiça. Até mesmo os atores estão bem na primeira parte e tornam-se caricatos na segunda – pouco privilegiados com a falta de cenas empolgantes. Mas o maior culpado é mesmo o roteiro de David Koepp e De Palma, que deixa de ser intrigante e cínico para ser bobo e pouco marcante. Olhos de serpente não é um bom filme e nem um mau filme, exatamente aquele tipo de qualidade que pouco interessa ao cinema.
Nota: 6.5
Top 5: Musas de 2011
Considerando, em ordem de importância: relevância dos filmes, atuação, beleza, gostosura.
01. Jessica Chastain. Atuou em O Abrigo (Take Shelter), A Árvore da Vida (The Three of Life), Histórias Cruzadas (The Help), Wilde Salome, Coriolanus e Em Busca de um Assassino (Texas Killing Fields).
02. Bryce Dallas Howard. Atuou em 50% (50/50) e Histórias Cruzadas (The Help).
03. Evan Rachel Wood. Atuou em Tudo Pelo Poder (The Ides of March) e Mildred Pierce (é minissérie, mas é foda).
04. Marion Cotillard. Atuou em Meia-Noite em Paris (Midnight em Paris) e Contágio (Contagion).
05. Kirsten Dunst. Atuou em Melancolia (Melancholia).
Vidas amargas (East of Eden, 1955)
Com Vidas amargas, James Dean já nasceu grande. Não apenas porque esta é uma das obras-primas de Elia Kazan, mas também por deixar claro, pela primeira vez, que em cena poucos de seu tempo podiam rivalizar com o ator em termos de magnetismo – e nos seus três filmes, Dean roubou a atenção quase que exclusivamente para ele, até mesmo quando contracenou com Rock Hudson e Elizabeth Taylor.
Em sua curta carreira, James Dean trabalhou apenas com alguns dos melhores diretores (Elia Kazan, Nicholas Ray e George Stevens) e, sem dúvida, essas oportunidades foram fundamentais para transformar o ator em um ícone instantâneo e uma lenda logo após seu trágico falecimento. Hoje, mais de cinqüenta anos após sua morte, os filmes em que atuou, principalmente os dois primeiros (que o transformaram em herói de todos os jovens), continuam impactantes.
Vidas amargas é o melhor deles, embora não seja o mais emblemático. A tragédia, baseada no conto bíblico de Caim e Abel e atualizada para o começo do século 20, pouco antes do início da participação americana na primeira guerra mundial, funde o drama familiar ao espírito de rebeldia juvenil sob os contornos do “sonho americano”. James Dean, mais do que um rebelde, é um filho mal amado que deseja por tudo neste mundo conquistar o carinho do pai. Está longe de ser um exemplo de bom caráter, mas nós nos identificamos com seu dilema que vai tomando contornos trágicos até culminar com um desfecho amargo e extremamente belo.
Rivaliza com o brilho de James Dean o trabalho de câmera de Elia Kazan. Especialmente nos momentos em que provoca no espectador uma sensação de mal estar, de tontura, de instabilidade (a câmera ora está levemente inclinada, ora acompanha os movimentos de um balanço, ora filma de cima para baixo ou de baixo para cima). O diretor é extremamente eficiente nas suas intenções, mas, ao contrário do que se vê hoje em dia, não tenta se aparecer, roubar a atenção para si – faz o máximo possível para que o espectador se concentre no que está acontecendo na tela, como se aquilo fosse real.
Também o formato CinemaScope, com a extensão dos planos de fundo acompanhando a dimensão das paixões explosivas vistas em cena, assim como a expressão através das cores (e poucas vezes as cores foram tantas e tão bem escolhidas), são suficientes para transformar Vidas amargas em uma obra-prima. James Dean, ao lado de um casting competente (Julie Harris, Raymond Massey, Burt Ives, Richard Davalos, Jo Van Fleet, Albert Dekker), trouxe ao filme ainda outros contornos pela sua imagem icônica e deliciosamente anos cinqüenta. São todos esses fatores que dão ao filme de Elia Kazan aquilo que não pode ser racionalmente medido, mas que existe, disso não há dúvida, apenas nas melhores obras: chama-se alma.
Drive (2011): Em todas as ruas de todas as cidades deste país há um ninguém que sonha em ser alguém
Com mais um adiamento estúpido no circuito brasileiro, tive que recorrer a download para conferir o tão falado filme que rendeu a Nicolas Winding Refn o prêmio de melhor direção em Cannes. Trata-se, como todos devem saber, de Drive – um filme que até uma futura revisão (aí, sim, no cinema) não me parece tão surpreendente como alguns anunciavam ser.
Devo confessar, antes de tudo, que desconheço completamente a carreira do diretor dinamarquês. Drive é o seu décimo filme, mas o primeiro a ser realmente comentado mundo afora. Antes dele, porém, o livro que deu origem a tudo, escrito por James Sallis, foi um best-seller bastante elogiado nos Estados Unidos – considerado pelo New York Times Book Review “uma peça perfeita de ficção noir… concentrando-se nos momentos em que a moral de um homem muda repentinamente e ele mergulha na escuridão”.
Sobre o livro não posso comentar – e costumo acreditar que cinema e literatura são dois campos completamente diferentes, cujas comparações são sempre inúteis, quase sempre exibições gratuitas de intelectualidade do tipo “além de ver o filme, li o livro, portanto tenho mais crédito do que você, que não leu”. Já sobre o filme, posso afirmar, sem muitos riscos de me arrepender posteriormente, que Drive não é forte e sólido o suficiente para ficar na minha memória. É, sim, um bom filme, com lapsos de brilhantismo, mas não me parece uma obra completa, por um principal motivo: ainda que algumas cenas (rigidamente calculadas para criar impacto no público), assim como a bela trilha sonora, indiquem certa ferocidade artística, o filme é convencional demais– e daí vem sua fragilidade.
Drive é um reflexo do seu personagem principal, interpretado por Ryan Gosling: frio, calculista, distante. Isso deve ser proposital, mas é justamente o que impede o filme de atingir um nível maior. O que eu quero dizer é: não basta uma ou outra cena com violência estilizada, “de impacto”, para atingir o espectador, quando praticamente toda a narrativa é esquemática, meio televisiva, até previsível. Ainda que os momentos grandiosos existam, não consigo parar de pensar que, por Deus, por trás das câmeras poderia estar o Ben Affleck de Atração perigosa.
Drive é um filme que tem potencial para atingir o espectador na veia. Mas, estranho, o diretor parece optar em anestesiar o público com uma narrativa convencional para, previsivelmente, montar uma explosão de violência – e prossegue assim durante todo o tempo. Lembra, de certa forma, O samurai – tanto o filme como o personagem principal – quando a história se aproxima mais de Taxi driver. Um filme cru, com cores berrantes ou, talvez, menos europeu transformaria completamente o material.
Sim, estou tentando imaginar como ele seria feito nas mãos de outro diretor. Ou com uma montagem mais ágil. Mas este é o filme que existe – e não dá para negar que, apesar de alguma decepção, Drive merece estar entre os melhores do ano. O elenco todo é competente, destacando-se mesmo Ryan Gosling, o grande ator do ano ao lado de Michael Fassbender: apesar de ser considerado um galã, mostra ter versatilidade para interpretar qualquer papel, desde um playboy feliz com a vida até um solitário e soturno jovem, cuja decadência voluntária parece verossímil. Carey Mulligan também é uma atriz a se observar, pela seleção do seu trabalho.
A contenção de Drive talvez signifique uma estratégia para dar ao filme um tom de poesia. Ou talvez seja apenas uma tática para destacar as perseguições e os assassinatos em câmera lenta. Até certo ponto, isso funciona. Mas depois torna-se superficial: não há unidade, parece um conjunto de videoclipes. O que mais importa no cinema é a emoção, o sentimento: no meu caso, o filme simplesmente não me atingiu – mais do que isso, não me pareceu sincero o bastante.





















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