Um Barco e Nove destinos (Lifeboat, 1944)

Talvez nenhum outro diretor tenha o talento de Hitchcock em concentrar narrativas em pequenos espaços. Para se manter firme nessa linha, eis as fórmulas: elenco afinado, diálogos interessantes, trilha sonora cirúrgica e, claro, direção firme. Colocar a mão na massa não é fácil, apenas poucos têm coragem e realmente conseguem criar um produto digno para entreter o público – até porque, com poucos personagens e praticamente o mesmo cenário, a linha que separa a aceitação para o cansaço e aborrecimento é realmente pequena e perigosa.

Em Lifeboat, apesar de a trama se situar em um oceano, com águas que parecem infinitas, as emoções se concentram em um pequeno barco, onde estarão nove sobreviventes de um navio inglês bombardeado pelos nazis em meio à segunda guerra mundial. A missão deles resume-se em sobreviver, ou seja, precisam chegar o mais rápido possível a terra firme ou, se derem sorte, encontrar um navio aliado para resgatá-los. Mas não há necessariamente um capitão no barco para confiar à difícil jornada, já que nenhum dos tripulantes carrega uma bússola para orientação. Há, porém, um alemão, o último a subir no barco, que tem os conhecimentos necessários para se encarregar da jornada. Um inimigo, é verdade – cria-se certa tensão, e até levanta-se a possibilidade de jogá-lo no mar para os tubarões, mas o pacifismo e o respeito às leis internações (tecnicamente, deveria ser tratado como um prisioneiro de guerra, que também tem direitos) prevalecem; e eles também queriam viver, ora bolas. A partir de então, é o nazista que comanda o barco – mas os nazistas, além de não serem bonzinhos, são fanáticos e logo iremos perceber que ele trama contra os tripulantes.

O tema central de Lifeboat é obviamente a busca pela sobrevivência, mas creio que o principal objetivo de Hitchcock era detonar os nazistas – o que inclui, aí, também os ex-nazistas que iriam surgir pelo mundo tempos depois. É claro que muitos estavam apenas cumprindo ordens, mas é bastante provável que todos tivessem consciência dos seus atos e por isso deveriam arcar com as consequências de ter servido a tão terrível regime. No final das contas, a sensação que se tem é a completa falta de compreensão de como os nazis tiveram coragem de fazer o que fizeram: apesar dos motivos sociais e históricos, havia também algo generalizadamente maligno e subjetivo naquela geração, algo que aqueles que não participaram da farsa nunca conseguirão entender completamente.

Então, já próximo do desfecho, um dos tripulantes faz a seguinte divagação, que resume a obra: Até o dia em que eu morrer, jamais entenderei Willi o que ele fez. Primeiro tentou nos matar com seus torpedos. Ainda assim, nós o resgatamos do mar e o trouxemos a bordo. Compartilhamos tudo o que tínhamos. Você imaginaria que ele ficaria grato. E tudo o que ele fez foi planejar contra nós. E depois deixou o pobre Gus morrer de sede. O que se faz com pessoas assim?



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