Alfred Hitchcock: trinta anos depois

Que o cinema é a forma de arte mais popular do mundo, todo mundo sabe. Assim como também foi a mais rica expressão cultural do século 20 – por coincidência, estava lendo o blog de André Setaro, em que ele cita uma entrevista de Orson Welles para Peter Bogdanovich: Welles afirma que o cinema morreu em 1962 com “O homem que matou o facínora”, após 50 anos de apogeu (1912-1962), e acrescenta, com seu cinismo habitual, “um apogeu maior que o da Renascença, que teve 38 anos”. Desde a declaração até o presente momento, muitos anos se passaram. Muitos anos de perigeu. Então, a conclusão que se tem é que presenciamos a completa decadência da sétima arte – se bem que é até complicado chamá-la de arte. Hoje se faz cinema como se vende shampoo ou sabão: apenas com o objetivo de arrecadar. Claro que existem escassas exceções – como diria Pauline Kael, as generalizações são usadas mais para sugerir do que definir – mas a situação geral é extremamente desanimadora.

A sensação que tenho é de estar perdendo algo – em todos os sentidos – nos dias atuais: da mesma forma que poucos artistas na música me interessam, ir aos cinemas não faz parte da minha vida como com certeza fez para gerações anteriores. Não acompanho os lançamentos (que são puramente eventos): não há o instinto. O cinema não faz parte da nossa geração como fez para pessoas que nasceram até a década de 50: as crianças fugiam das escolas para os cinemas; hoje fica-se em casa vendo televisão ou acessando a internet – o que não é exatamente ruim, já que através desses veículos, principalmente a internet, pode-se ter acesso a muita coisa boa e construir um conhecimento enriquecedor sobre o cinema. Mas é claro que o encanto das salas com suas telas gigantescas e caixas de som potentes não é alcançado, nem de longe, pela televisão e computador.

Não adianta investir milhões para produzir filmes e criar campanhas publicitárias se as idéias, o amor e dedicação são negligenciados. Eu até imagino quantos bons diretores e roteiros são desprezados na indústria e logo tratados como fracassos porque potencialmente nunca darão lucros. O lucro parece nunca ter tido tanta força como se tem atualmente. E os filmes diferentes, alternativos, cults são na verdade frutos para pseudo-intelectuais que se dedicam muito mais à aparência do que em construir uma relação cultural profunda. Aquele cinema clássico americano – que pelo menos para mim, é o que mais interessa – simplesmente desapareceu.

Bom, acabei me excedendo na minha divagação sobre os tempos atuais e esqueci-me do protagonista do dia: Alfred Hitchcock, um dos responsáveis em popularizar o cinema, aquele cinema clássico americano, para diversas gerações – apesar de sua fase inglesa ser também bastante interessante. Popularizar, acima de tudo, com genialidade, exercendo sua condição de legítimo autor. Um mestre. Desde seu ingresso ao mundo do entretenimento, em 1919, até realizar Trama Macabra, em 1976, foram quase seis décadas dedicadas ao cinema. Praticamente uma vida. E resta a nós agradecermos por termos a oportunidade de presenciar o legado, um dos mais ricos de todos os tempos, daquele que se apoderou de diversas influências para criar uma legitimamente sua. O cinema de Hitchcock é apenas dele – os discípulos, e imitadores, estão aí para provar. Em resumo, podemos roubar o título de um dos seus filmes mais famosos para definir Alfred Hitchcock em poucas palavras: o homem que sabia demais.

Anúncios

2 comentários sobre “Alfred Hitchcock: trinta anos depois

  1. Que texto lindo Alexandre!
    Esse é o tipo de divagação que o cinema de Hitchcock realmente evoca nos dias atuais.
    É bom demais ver que alguns de nós permanecem no espírito que Hitchcock deixou em seus filmes. Vê-lo sorrir é restaurador…

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s