2001 – Uma odisséia no espaço, por Antonio Moniz Vianna

Crítica publicada no jornal Correio da Manhã, 1969.

Mais uma do Moniz Vianna para se ler e admirar de joelhos.

Não há registro de obra tão marcante em toda a cinetrajetória da ficção científica – mas esse título é insuficiente para categorizar 2001: A space odyssey. O impacto é muito maior: total na técnica prodigiosa que sustenta a imaginação de Stanley Kubrick em sua disparada cósmica. O cineasta atinge um plano de expressão alucinadamente lúcido ao acrescentar à obra uma reflexão filosófica. Uma das leis mais conhecidas de Arthur C. Clarke diz: “O único meio de definir os limites do possível é tentar ultrapassá-los a caminho do impossível”. Ao requerer a colaboração do escritor-cientista, Kubrick talvez não soubesse com precisão até onde sua câmera iria, mas certamente já estava decidido a explorar a fronteira do infinito.

2001: A space odyssey propõe, acima de tudo, um desafio – a inteligência animada por uma curiosidade tenaz, pela determinação que persiste mesmo quando o autor (ou, num sentido mais amplo, o homem), tendo chegado ao limite máximo da previsão que o estado atual da ciência permite, expande a visão planetária de seu tempo, enfrenta o mistério do universo e não retrocede diante de qualquer enigma. Por tudo, especialmente pelas ambigüidades da última sequência – esta, não um fim, mas um recomeço -, o desafio de Kubrick tem encontrado resistência em muitos críticos, invadindo-os de perplexidades, principalmente se eles têm o vício do anticinema (Godard & Cia.) e/ou não têm a necessária cultura, tendendo a superar essa falha com uma certa pose ou um certo esnobismo. Seria demais pensar que esses críticos pudessem seguir a expedição pioneira em todos os saltos, curvas e riscos próprios das grandes aventuras. Pois, como toda odisséia, a de Kubrick primeiro é uma aventura – no fim, além de uma nova Odisséia, já é também uma experiência metafísica.

AURORA

“Para encontrar qualquer coisa que seja comparável a nossas futuras aventuras espaciais, é necessário remontar a muito antes de Colombo, muito antes da Odisséia e muito antes, em verdade, do primeiro homem-macaco.” A observação de Arthur C. Clarke, em artigo publicado em 1963 – antes da preparação de 2001: A space odyssey -, preside a concepção da seqüência inicial, intitulada “The dawn of man”. A grande aventura começa antes do primeiro homem, na véspera de um salto maior na evolução. Em pré-histórica manhã, uma tribo de macacos descobre uma pedra misteriosa, retângulas, negra, um deles toca-a com a mão – e, pouco depois, ocorre-lhe apanhar um osso e, em decisiva inspiração, aprender a utilizá-lo para a caça e para a guerra. Foi também uma arma a primeira ferramenta – e se é certo que “as descobertas transformam a condição humana”, o primeiro macaco nu, ou homem, já nasceu de arma na mão. Num gesto de triunfo, o último macaco atira o osso para cima – a trajetória é fixada em câmera semilenta e, inopinadamente, a imagem de uma astronave substitui a do osso, num corte direto que promove um salto de 4 milhões de anos.

2001. A astronave da Pan-American segue na direção da Space Station V, a meio caminho entre a Terra e a Lua. Um vôo rotineiro. Lá no céu a própria Lua não é mais secreta – apenas a vida, como já se admitia em 1968, tem de ser subterrânea. O homem volta às cavernas, equipado tecnologicamente. Na base lunar, um cientista americano se vê diante da misteriosa pedra, negra e retangular – e, repetindo o gesto do macaco, milhões de anos antes, toca-a também com a mão. Estranhos sinais audiovisuais começam a ser emitidos pelo monólito negro – são esses sinais que induzem o homem a atravessar o espaço na direção de Júpiter. Como diria Clarke, a “civilização não pode existir sem novas fronteiras a transpor”.

HAL 9000

O veículo chama-se justamente Discovery I. A viagem será longa, cientificamente aberta a qualquer surpresa, mesmo uma tão inconcebível – e até hitchcockiana – como a que vem a ser promovida por HAL 9000, que vai enlouquecendo aceleradamente, à medida que a câmera-imaginação de Kubrick marcha, inexorável, para explorar o quinto planeta e decifrar – quem sabe? – o mistério do monólito negro.

HAL 9000 é um computador –  é um personagem ativo e ditatorial, que governa a astronave e está apto a responder a qualquer pergunta com uma voz imperturbável e quase humana. Além de invencível jogador de xadrez, é capaz de analisar o estado emocional dos dois tripulantes em vigília – e de executar sumariamente os três cientistas que viajam hibernados. Pois, em certa altura, o computador passa a agir como um legítimo vilão, utilizando métodos do tradicional mad doctor – como se, não o cientista individualmente, mas a própria ciência também fosse capaz de perde a razão. A ciência, no caso, confunde-se com a tecnologia – e, se há um certo parentesco entre o mágico e o louco, outras das leis de Clarke estaria comprovada, a que reza: “Uma tecnologia suficientemente avançada é indistinguível da magia”.

Louco, ou então eletronicamente revoltado, HAL é quase o vilão invencível, porque onipresente. Com seu olho único, sinistramente vermelho, segue todos os passos dos dois astronautas, vigiando-lhes a apreensão – e, quando eles conseguem escapar ao seu campo de audição, nem assim estão fora do alcance daquele olho vermelho – e tudo o que eles dizem é lido, em seus movimentos labiais, pelo computador. Esse vilão cibernético está na linha homérica do gigante Polifemo, também de um só olho. Não é mera coincidência que a palavra odisséia complete o título da obra de Kubrick, como se este quisesse sugerir que “certas imagens do futuro já iniciado contêm uma evocação dinâmica de épocas antigas e heróicas”. Ao mesmo tempo, quando o computador assume a ameaçadora estatura de Polifemo, o astronauta sobrevivente torna-se um Ulisses 2001 – e novamente se trava o duelo ancestral, que o homem tem de travar, em determinados momentos de sua raça, com os deuses ou gigantes ou as máquinas que ele criou com sua imaginação e seu engenho.

A luta é de uma silenciosa ferocidade, impessoal em todos os seus lances – e, outra vez, sai vencedora a imaginação do homem. A vitória é, praticamente, um ato de misericórdia: o astronauta removendo as “células da memória” do computador é o neurocirurgião que recorre à lobotomia como único e último recurso de tratamento. HAL implora, monotonamente, sem êxito. O astronauta fica só no espaço cósmico – mas não na condição de único sobrevivente. Não, nunca. Também Kubrick sabe que é o indivíduo – jamais a coletividade – que amplia as fronteiras da civilização.

INFINITO

Ainda Clarke, antes de 2001 ser feito, acentuou que seria “muita ingenuidade pensar que a astronáutica venha a restabelecer a epopéia e a saga em suas formas originais”. Era a explicação antecipada da forma que torna 2001: A space odyssey ainda mais surpreendente. Também é essa forma – sem precedentes no cinema – um dos fatores do estarrecimento mal disfarçado de vários críticos e confessado apenas pelos leigos. Não importa. Se essa não é a principal virtude do filme, nem por isso deixa de ter enorme significação – a da descoberta de imagens e ritmos capazes de exprimir tantas aventuras que ainda virão como reflexões que desde já podem ser feitas.

E a caminho de Júpiter, o astronauta solitário – ultralindberghiano pioneiro – continua no rastro do monólito negro, que a câmera volta a focalizar, entre as doze luas jupterianas. De  repente, sem explicação, a viagem se torna uma vertigem – e as imagens se sucedem, em formas e brilhos indescritíveis, como se estivéssemos chegando ao limiar do infinito, talvez alcançando uma dimensão nova. A sequência é prodigiosa, desconcertante – e, num salto derradeiro, o astronauta volta ao solo, em outro tempo (aparenta ter envelhecido uns quarenta anos) e em outro espaço (o quarto é decorado à Luís XVI). E, ao deitar-se, mais velho ainda, ressurge à frente de seu leito o monólito negro – pedra filosofal? ou pedra do conhecimento, da evolução, da inteligência, essa inteligência que, outra vez citando Clarke, “só as criaturas que enfrentaram um meio hostil, estranho, são capazes de desenvolver”.

Nesse instante final, aquele ancião saturado de sabedoria renasce como um feto que, contemplando a Terra ao longe, simboliza o início de uma nova raça, de um homem novo.

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