O Homem do Braço de Ouro (Otto Preminger, 1955)

Um dos itens do Código de Produção dizia: “Tanto o tráfico ilegal de entorpecentes como o seu vício jamais deverão ser apresentados”. Basta ler a sinopse de O Homem do Braço de Ouro para perceber que o filme é, em primeiro lugar, um confronto perante as restrições temáticas do Código, já em decadência. Mas não é esse o principal motivo para que The man with the golden arm tenha seu lugar consolidado na história do cinema americano: se não for uma obra-prima, aproxima-se muito disso, porque consegue unir com perfeição o poder das imagens com a música. No caso, o jazz é a gasolina da locomotiva guiada por Otto Preminger, um grande diretor que tinha certa atração pela imoralidade, pelo submundo, e estava disposto a romper com padrões morais da sociedade.

A polêmica é importante em O Homem do Braço de Ouro: ter o ídolo Frank Sinatra como um viciado em heroína, convivendo com gente da pior espécie, jogando cartas até o dia amanhecer, muitos vezes até trapaceando, deve ter chocado muita gente – e não há eufemismos: quando Sinatra está em delírio frenético pra “mais uma picada” toda a situação é mostrada com realismo surpreendente para a época. Mas, repito, o maior mérito do filme concentra-se na capacidade de lidar com as imagens e torná-las íntimas ao espectador, como se fossem um organismo vivo. Sim, como toda grande obra, há vida em The man with the golden arm, e isso é o mais importante. Sem esquecer, claro, da trilha sonora: Otto Preminger era mais um amante do jazz, e aqui o filme e a música se confundem.

Aliás, como não ignorar o fato de que gênios do jazz, como Charlie Parker, Miles Davis, John Coltrane, Dexter Gordon, Billie Holiday, dentre outros, terem sido viciados em drogas, inclusive tendo Davis dito certa vez que “o jazz é como o blues, mas com um pouco de heroína”? O personagem de Frank Sinatra também pode ser encarado como uma representação dos ídolos de Preminger: ele sonhava em ser um drummer, mas antes de tudo precisava recuperar e manter sua dignidade como um ser humano – e, mesmo diante de toda a sordidez, é nesse ambiente que consegue ajuda para se livrar da dependência: no momento mais intenso, a personagem de Kim Novak, também uma mulher perdida e já adaptada à imoralidade, tranca Sinatra em um quarto para que seu delírio tenha fim.

Otto Preminger soube encarar o conservadorismo de parte dos empresários do cinema, do Código e da sociedade sem parecer vulgar, muito pelo contrário, sabia exatamente o que estava fazendo: com uma qualidade técnica e dramática muitíssimo acima da média, O Homem do Braço de Ouro teve uma das maiores bilheterias em 1955 – a prova de que o público naquele momento não estava mais satisfeito com o moralismo barato e fútil – e até hoje é considerado um dos filmes pioneiros a lidar com temas pesados sem perder a essência cinematográfica que diferencia os  medíocres e passageiros das obras realmente marcantes, eternas.

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