80 anos de Clint Eastwood

Por João Pereira Coutinho

Clint Eastwood chega hoje aos 80 anos. E eu tenho pensado em John Wayne. Não se cometem infidelidades dessas sobre um octagenário, eu sei. Mas a culpa não é minha: por um mero acaso, encontrei um texto antigo do historiador Paul Johnson onde ele explica, com pormenores, o segredo físico das representações de Wayne. Uma só palavra resume a naturalidade do porte: “contrapposto”.

Entendidos em História da Arte sabem do que se trata: é uma técnica, aperfeiçoada no Renascimento por Donatello ou Michelangelo, que permite às figuras esculpidas colocar o peso do corpo sobre uma das pernas.

Paul Johnson tem razão: consulto os livros, consulto os filmes. John Wayne apresenta-se perante as câmeras como a estátua de David se apresenta aos turistas em Florença. Todo o peso sobre uma das pernas. Velhos truques não morrem depressa.

Mas se Wayne tem correspondência escultórica nos renascentistas, haverá paralelo para Clint Eastwood?

Donald Sutherland, que trabalhou com ele mais que uma vez, sugere um nome em documentário notável sobre a obra do diretor (“Clint Eastwood: Out of the Shadows”, de Bruce Ricker). Clint é Giacometti, diz Sutherland.

Diz muitíssimo bem. Basta pensar nas figuras esguias do escultor suíço, quase descarnadas, reduzidas ao essencial do essencial do essencial. Lembrar um filme de Clint Eastwood –qualquer um, dos primeiros westerns às últimas obras– é lembrar esse tipo de composição estilizada.

É por isso que não existem dois Clints –física ou dramaticamente. Não existe um primeiro Clint, esculpido por Sergio Leone ou Don Siegel, que a crítica “highbrow” tragou com dificuldade; e não existe um segundo Clint, desligado do primeiro, que emerge como “autor” (no sentido francês do termo) em meados da década de 70. Ambos são o mesmo.

O mesmo ator, para começar: alguém que entendeu, intuitivamente, como é expressivo o estoicismo – ou, como afirma ainda Sutherland no documentário, a “elegância da impassibilidade”. Não a impassibilidade de quem é destituído de vida interior; mas, pelo contrário, a impassibilidade de quem sabe dosear essa vida, fazendo de cada gesto, cada palavra, cada expressão, um manifesto de alma poderoso.

O nosso aniversariante é esse ator; mas é tambem esse tipo de personagem, o que amplifica a dimensão moral dos seus heróis. O século 20 foi inundado por doutrinas diversas que procuraram roubar ao indivíduo a sua margem de liberdade, e de responsabilidade, e também de danação. Somos o que o inconsciente permite; o que as relações de produção permitem; o que as leis inexoráveis da história permitem.

Não somos, não. Clint resgata o ser humano dessas águas turvas e coloca-o em terra seca. Seca mas nem sempre firme: quando aderimos a uma ideologia, a uma causa, a uma teoria explicativa do mundo, ganhamos em segurança o que perdemos em liberdade.

Clint Eastwood seria incapaz de aceitar essa troca: os seus heróis não são apenas fisicamente solitários, como as figuras de Giacometti; eles são moralmente solitários e, talvez por isso, moralmente ambíguos, condenados a escolher entre males inevitáveis. E se tal é explícito nos últimos filmes (“Os Imperdoáveis”, “Menina de Ouro”, “Gran Torino”), também o é no exterminador Callahan, o “Dirty Harry” que aterrorizou as consciências “liberais” da América.

Sem razão, defende Bruce Ricker no documentário citado. Harry Callahan, na sua busca insana de justiça, representa também esse território obscuro onde o justiceiro se confunde com o criminoso. Nos seus métodos, na sua crueldade. Na sua desumanidade.

Não é possível sustentar que, nos últimos anos, encontramos nos personagens de Clint Eastwood a busca de uma redenção final pela denúncia da violência, da guerra e dos pecados históricos da América.

Essa denúncia sempre esteve lá. De forma evidente em “Gran Torino” ou no díptico “Cartas de Iwo Jima/A Conquista da Honra”. Mas também em “Josey Wales – O Fora-da-Lei”, um dos primeiros filmes dirigidos por Clint. Relembro: é a história de um rebelde que vê a família massacrada, procura a vingança e, pelo caminho, encontra uma nova e improvável família nos inimigos clássicos do western: os índios, os “incivilizados” índios, como “incivilizados” eram os vizinhos Hmong em “Gran Torino”. As grandes famílias não são feitas de sangue, mas de escolha.

Clint Eastwood chega hoje aos 80 anos. Brindo a ele e, olhando para trás, encontro alguns dos maiores momentos da história do cinema americano, uma espécie de “best of” estético e espiritual.

É impossível escolher um só. Nem me atrevo, leitor. Mas ainda que viva 80 anos como o mestre, jamais esquecerei William Munny, o pistoleiro envelhecido de “Os Imperdoáveis”, explicando ao rapaz imberbe que o acompanha nas matanças o que significa abater um homem. “É tirar tudo o que ele tem e tudo o que ele alguma vez terá”.

Séculos de reflexão moral não foram mais longe do que isso: a morte é o supremo roubo quando cada indivíduo é irrepetível e singular.

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