O quimono escarlate

Ainda que seja um grande filme policial, com todas aquelas cenas sensacionais de investigação embaladas quase sempre por um cool jazz – o que de melhor pode ser utilizado em filmes desse gênero – o verdadeiro tema central de The crimson kimono é a posição do estrangeiro em uma sociedade de origem bastante diferente. Aqui, um japonês, que havia lutado com americanos na Guerra da Coréia, é o protagonista que irá desvendar com seu companheiro de profissão (e de quarto) o assassinato de uma stripper, muito mais intrincado do que parecia à primeira vista. Apesar de estar praticamente ajustado na sociedade estadunidense, o herói imperfeito da trama tem ainda os chamados ‘complexos’: há a sensação de que as pessoas no fundo sintam alguma aversão pela sua cultura e o que ela representa. Hoje o mundo está cada vez mais globalizado, ainda mais em uma grande cidade como Los Angeles, mas na década de 50 não era bem assim – o pôster do filme traz a seguinte provocação: “Yes, this is a beautiful American girl in the arms of a Japanese boy!”, o que evidencia que o choque de culturas ainda era repleto de preconceito, e na verdade até hoje é, mas em um nível muito menor.

A tentativa de desvendar o crime é o que há de mais divertido e ainda moderno em The crimson kimono: o tratamento dado por Samuel Fuller à câmera, neste trabalho, é atemporal. Apesar de tomar a maior parte da narrativa, como já havia ressaltado antes, não é o principal argumento do filme: por trás deste, surgirá um triângulo amoroso entre os dois amigos detetives e uma pintora – a americana já havia engatado um romance com o americano, mas depois percebeu que amava mesmo o japonês, que corresponde igualmente: há um tom meio cafona nisso, e é assim mesmo que ocorre no filme – talvez o maior problema de Samuel Fuller seja realmente não dosar bem as questões melodramáticas com a eficiência e talento que exerce quando trata do submundo, da análise da violência do ser humano. Por sorte a novelinha do triângulo amoroso tomou pouco do filme e, em todo esse processo, são os olhos dos envolvidos que carregam a intensidade que Samuel Fuller buscava: o olhar ciumento do americano é interpretado pelo japonês como um olhar de desprezo, mais ou menos desta forma: “como é que ela pôde preferir um japonês a mim?!”, e a partir daí as dúvidas do protagonista começam a surgir e ele questiona se deve mesmo continuar sendo parte integrante dessa sociedade. Mas, como bem ensinou Machado de Assis, os olhares dependem do ponto de vista e é aí que concentra o principal estudo de The crimson kimono, que irá atingir na última cena a intensidade pertencente apenas às grandes obras.

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