Bande à part

Bande à part é um dos bons filmes de Jean-Luc Godard – havia escrito no comentário de Passion: não é um diretor a qual tenho muito apreço, assim como também não o detesto com a mesma intensidade de alguns que o chamam de “praga” – e, diria até, é um dos filmes mais divertidos da década de 60, com passagens bastante criativas e cativantes, apesar dos típicos diálogos que tentam passar algo de relevante (quando na verdade não há o que levar a sério) e aquela sensação de falta de solidez nas cenas, algo proposital e que funciona algumas vezes na mesma proporção em que irrita – neste filme, nem tanto. Como todos devem saber, Bande à part é uma pequena homenagem ao cinema noir/policial americano: dois malandros e uma moça desiludida com a vida – aspirante a mudanças e fuga de uma vida excessivamente formal – bolam (não chega a tanto) um plano para roubar um tal de sr. Stolz, inquilino da jovem que, por sua vez, vive com a tia. A história pouco importa – aliás, se o roteiro em Bande à part é praticamente nulo, o que torna o filme tão vivo e simpático são as improvisações, as brincadeiras despretensiosas, a intenção real de entreter o público. Como na sequência em que os jovens dançam em um café e o narrador nos informa qual o verdadeiro pensamento de cada um (Odile, a garota, “quer saber se os rapazes percebem seus seios movendo-se por baixo do suéter”) – aquela cena de Annie Hall surge automaticamente na memória – ou na cena, no mesmo local, em que, nas palavras de Anna Karina, “como não nada a se dizer, vamos fazer um minuto de silêncio”: corta-se todos os sons, apenas os jovens entediados olhando uns aos outros; um deles havia dito “um minuto de silêncio pode durar uma eternidade” – eis a brincadeira de Godard, experimentar o incomum para confundir/entreter a platéia, que já estava acostumada com o barulho das automóveis e da música na cafeteria. Em outra sequência, os três correm pelo Louvre com o objetivo singelo, bobo, daqueles que não têm mesmo o que fazer: quebrar o recorde de tempo de visitação ao museu, que pertencia a um americano – vencem, sob os olhares espantados dos outros presentes, por alguns segundos e depois nada disso simplesmente terá importância. Repito: não terá importância. Isso é bonito. E é justamente essa leveza na fase inicial da carreira de Jean-Luc Godard que reside o espírito de boa parte do lado bom de seu cinema. Depois que a coisa começa a desandar, e eu já nem tenho vontade de ver mais nada pós-anos 70 – verei, porém, uma coisa ou outra qualquer dia, e passo aqui pra descer a lenha.

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4 comentários sobre “Bande à part

  1. Isso de Godard é mais preconceito que outra coisa.

    Devia dar uma oportunidade ao Godard pós-70.

    Experimente Notre Musique. Se gostar, passe para Éloge de l’amour.
    Ou o mais polémico Je Vous Salue Marie…

  2. Não gostou de Passion, corra de Je Vous Salue Marie então…

    E esse ae é dos mais fracos do homem, ainda assim, maior que Truffaut. :B

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