Depois do vendaval, por Antonio Moniz Vianna

Crítica publicada no jornal Correio da Manhã, 1953.

Foi a série de westerns da Argosy* que possibilitou a John Ford a realização de um dos seus sonhos –  um dos mais caros, também: o de “rever” a Irlanda, fixando na tela os seus costumes e o seu pitoresco tradicionalismo, numa evocação nostálgica da verdejante paisagem de seus ancestrais. Em substancioso artigo sobre a personalidade do grande cineasta (“Ford, o Rebelde”), publicado há sete anos, já se referia Frank. S. Nugent à iminente filmagem de The quiet man, um romance irlandês de Maurice Walsh.

Tanto quanto seu amor pela Irlanda ,a paixão com que defende os seus pontos de vista tem dado a Ford triunfos memoráveis. Quando o seu prestígio não era metade do que hoje desfruta, embora já fosse obrigatória a sua inclusão entre os maiores diretores de Hollywood, Ford se muniu de toda a sua tenacidade para vencer a relutância dos produtores em face de The informer [O delator] – o filme com que obteve o primeiro de seus quatro Oscars. Tão pouco era a confiança da mesma RKO em The lost patrol [A patrulha perdida] que Ford se viu impelido a bater um recorde de filmagem (três semanas) a fim de não estourar a diminuta verba (igual à de uma produção B) com que a fita foi orçada. Enfim, se não houvesse encontrado o apoio de Walter Wanger (na época, um produtor audacioso) ver-se-ia obrigado a adiar Stagecoach [No tempo das diligências] e só ao se tornar independente teria feito The long voyage home [A longa viagem de volta]. “A função do produtor sempre me pareceu simplesmente acidental” – disse Ford, em certa ocasião. Foi para fugir a essa estranha e imprevisível influência que fundou, com seu amigo Merian C. Cooper, a Argosy.

The quiet man é a oitava produção da nova companhia – e uma das cento e tantas de Ford. A sua filmografia não é somente extensa, é também uma das mais importantes: Ford tem um lugar perfeitamente (e comodamente) garantido entre os cinco maiores diretores de todas as etapas do cinema. Um grande estilista, mas de um estilo cuja essência mesma é a simplicidade, ele se adapta a qualquer gênero – e, em quase todos, já obteve os mais expressivos resultados. Não é, como os menos atentos teimam em afirmar, apenas o cantor inexcedível das epopéias do velho e selvagem Oeste. As provas de seu ecletismo são inúmeras – e se encontram em Grapes of wrath [Vinhas da ira] ou em Young mr. Lincoln [A mocidade de Lincoln], assim como em The hurricane [O furacão], Tobacco road [Caminho áspero], The were expendable [Fomos os sacrificados]. A prova de que sua força criadora não está em declínio, como alguns observadores de apresseram a “descobrir”, é dada por The quiet man, em que Ford, aos 58 anos de idade e quase quarenta de atividade em Hollywood, atinge um dos “momentos supremos” de sua carreira.

Outras vezes, em The informer e em The plough and the stars [Jornadas amargas], ele se voltou para as questões da Irlanda – ou incluiu personagens irlandeses em seus filmes desenrolados nos mais variados ambientes. A Irlanda de The quiet man, porém, não é a Irlanda sombria, sacudida pela conspiração e pela revolta, de Liam O´Flaherty e Sean O´Casey. Ford concebeu, como acentua J. D. Valcroze (Cahiers Du Cinéma, nº 17), “uma espécie de elegia semivirgiliana, semi-épica”, na qual ascende ao primeiro plano uma saborosa comédia de costumes. Nesse ponto reaparece o que na obra de John Ford não é tão infreqüente como se imagina e que teve sua primeira manifestação válida em The whole town´s talking [O homem que nunca pecou], podendo ser encontrada em Willie comes marching home [O azar de um valente], e na recente versão de What price glory [Sangue por glória], assim como em alguns westerns (Wagonmaster [Caravana de bravos], por exemplo): um humor peculiar, arejado e barulhento, que se integra admiravelmente na própria arquitetura da fita, sem esconder o aspecto dramático que porventura ela possua. Um humor que, neste esplêndido The quiet man, nasce da tradição fielmente respeitada – inclusive por meio de brigas “homéricas” (para usar a expressão favorita desse “filósofo” Michaeleen estupendamente criado por Barry Fitzgerald) que levam os reverendos à aposta e à conseqüente “torcida”, provocam o fechamento da taberna e o atraso do trem, e levantam do leito os moribundos – dos costumes arraigados no coração do Eire e do delicioso sotaque dos bravos irlandeses de John Ford.

A história de The quiet man, adaptada por Frank S. Nugent (o substituto de Dudley Nichols na equipe de Ford, que o encarregou do cenário de todos os westerns da Argosy), é tão simples que pode ser resumida em poucas linhas. Um boxeur, que mata acidentalmente um adversário, jura nunca mais fazer uso de seus punhos e regressa à aldeia irlandesa de onde emigrou ainda menina. Volta fatigado do ringue, em busca de tranqüilidade que todavia não conquistará sem antes ter de bater-se uma vez mais: a indomável Mary Kate, com quem se casa pouco após a sua chegada, exige que ele obtenha pela força o dote que lhe recusa o irmão, o tonitroante squire Danaher, e sem o qual se acredita desonrada. Nada adianta ao herói a indiferença ingênua e feroz; para conseguir a paz no lar e reaver o respeito dos amigos, terá de enfrentar o cunhado em memorável luta, que sacode de entusiasmo toda a população de Innisfree. Terminada a briga, porém, os dois contendores esquecem o rancor, confraternizando, meio embriagados, diante do jantar que lhes serve a já serena e orgulhosa Mary Kate.

Do romance de Maurine Walsh, no qual poucos seriam capazes de pressentir grandes possibilidades cinematográficas, extraiu Ford um dos filmes mais agradáveis – e mais importantes – dos últimos tempos. Uma obra-prima, é fora de dúvida, em que reaparecem as grandes qualidades do cineasta na dosagem precisa. A narrativa é extraordinariamente sóbria, e provida não só de uma espontaneidade rara, como ainda de genuína intensidade criadora. Note-se, por exemplo, a seqüência que “explica” o conflito íntimo do protagonista, conservado em semi-sigilo até o instante em que pudesse ser expresso pela imagem: na festa do casamento, quando Sean é atirado ao chão por formidável soco de Danaher,a câmera evoca o combate pugilístico que dera à sua vida outro rumo. O flashback é antecipado pelo ruído dos aplausos da multidão, e, em angulação e ritmo apropriadamente neo-expressionistas, é descrita a fase final da trágica luta: recuando para as cordas do ringue, Sean encara o corpo do adversário estendido no tablado, ao mesmo tempo em que o reflexo das lâmpadas fotográficas ilumina o seu terror. Por outro lado, a primeira seqüência do filme, quando Sean retorna a Innisfree, está repleto de detalhes humorísticos (as discussões dos funcionários da estrada de ferro, acerca do caminho que seria indicado ao “forasteiro”, a inesperada e lacônica aparição de Michaeleen, que depois revelará saborosa loquacidade) e poéticos, estes decorrentes da sensação de redescoberta que Sean experimenta ao percorrer os caminhos e os verdes campos de sua infância, ao passar pela frente da igreja e da taberna e da velha casa em que nasceu.

É nesse trecho que Sean Thornton (e Sean é o primeiro nome de John Ford, na realidade Sean O´Fienne – o que indica, somado a outros elementos, uma certa projeção da personalidade do diretor no herói de The quiet man) vê pela primeira vez a impetuosa Mary Kate, que logo o impressiona e pela qual é capaz de cometer um pequeno pecado, ao se valer da água benta para lhe segurar as mãos. Daí por diante, The quiet man é uma comédia de costumes sempre surpreendente, jovial e truculenta, em curiosíssima mistura de gags, palmadas e bofetões, e cujos incidentes, mesmo os acessórios, são sublinhados por essa ternura que Ford, americano de origem irlandesa, nunca deixou de sentir pela terra de seus pais.

The quiet man foi rodado na Irlanda (Galway, no condado de Mayo), para onde Ford levou um elenco escolhido com carinho, formado por irlandeses de Hollywood ou do Abbey Irish Theatre. No primeiro grupo, estão os que já foram reunidos no que se denomina Ford´s Stock Company of Actors, tal a regularidade com que são mobilizados pelo realizador: John Wayne é um irrepreensível Sean Thornton, “o homem tranqüilo”; Maureen O´Hara (que supera a sua performance em How Green was my valley [Como era verde meu vale], outra fita de Ford), uma admirável Mary Kate, flor de Eire, ruiva e sensual; Barry Fitzgerald (que Ford “importou”, há muitos anos, do Abbey Theater, para The plough abd the stars), um estupendo Michaeleen, filósofo de taberna, casamenteiro profissioanal e bookmaker quando surge a ocasião propícia: uma corrida de cavalos ou uma briga sadia; Victor McLaglen, um squire gigantesco e fanfarrão; e mais Ward Bond (o padre católico que passa as tardes pescando, diz palavrões em dialeto, “torce” durante a briga, manda os seus fiéis saudarem a passagem do pastor protestante, que só tem três ou quatro, para que este não seja transferido “por negligência”), Arthur Shields (o pastor protestante admirador do esporte), Mildred Natwick (a viúva que o squire corteja ruidosamente) e o velho irmão do diretor, Francis Ford (o moribundo que a briga o levanta da cama).

Com a cooperação de Winton C. Hoch, o fotógrafo de 3 godfathers [O céu mandou alguém] e She wore a yellow ribbon [A legião invencível], Ford empregou com ótimo resultado o technicolor. Algumas cenas reproduzem o estilo de velhas gravuras inglesas, e o uso seletivo das cores (a tonalidade avermelhada do flashback trágico; o predomínio do verde e do rosa nas seqüências do retorno de Sean, para identificar o seu estado de alma) é dos mais sóbrios e inteligentes. Com o que exigiu do compositor Victor Young, completou o clima de sua grande obra, sublinhando os diversos episódios com velhas baladas irlandesas, humorísticas ou sentimentais.

*Após o extraordinário The fugitive [Domínio dos bárbaros] – baseado na livre adaptação que Dudley Nichols fez de The power and the glory, de Graham Greene -, John Ford realizou no Argosy os seguintes westerns, que deram à empresa a ambicionada estabilidade econômica: Fort Apache [Sangue de herói], She wore a yellow ribbon [A legião invencível], Wagonmaster [Caravana de bravos], Rio Grande [Rio Grande]. Dentre todos o melhor é Wagonmaster. No gênero, uma verdadeira obra-prima. Esta série, interpretada pelos atores favoritos do cineasta (Wayne, O´Hara, McLaglen, Bond, seu irmão Francis, Natwick e mais Ben Johnson, Harry Carey Jr., Pedro Armendariz, Henry Fonda, Allan Mowbray), estreita as relações de Ford com o cenarista Frank S. Nugent e os fotógrafos Winton C. Hoch e Archie Stout.

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