Matei Jesse James (Samuel Fuller, 1949)

I shot Jesse James, primeiro filme dirigido por Samuel Fuller, baseia-se nas circunstâncias que levaram o anti-herói Bob Ford (John Ireland) a assassinar o lendário e popular Jesse James (Reed Hadley) pelas costas, este que o havia aceitado no grupo, salvado sua vida, lhe dado confiança e moradia.

Bob Ford pretendia se casar com Cynthy Water (Barbara Britton) e recomeçar sua vida sendo um típico fazendeiro. Mas para isso precisava estar com o nome limpo na praça. E como a Justiça oferecia perdão irrestrito a quem capturasse o líder do grupo vivo ou morto e uma bela recompensa em dinheiro, Bob Ford toma a decisão que mudará de vez a sua vida. O ato é consumado, mas o anti-herói não recebe a recompensa. O pior, porém, ainda viria: além da rejeição da sociedade, a sua amada perde a admiração que tinha pelo rapaz e passa a vê-lo como um covarde.

A partir de então, o filme focaliza as conseqüências do ato repudiado até pelos inimigos de Jesse James. Porque assassinar pelas costas é, antes de tudo, um ato indigno e sujo. A culpa toma conta do personagem, que entra num verdadeiro espiral de solidão e arrependimento. E isso fica claro na cena em que o Bob Ford, em um espetáculo em que pretendia reconstituir a cena do crime para o curioso público com ele representando si mesmo, não consegue atirar na personagem de Jesse James mesmo sendo tudo uma encenação.

Apesar de ser um pouco apressado, I shot Jesse James apresenta um estudo louvável da personalidade humana – uma decisão sábia de Samuel Fuller, neste sentido, é explorar com certa freqüência focos nas reações dos personagens, nas suas fisionomias frente as atitudes que carregam a narrativa. Há algumas passagens geniais, como a cena que um violeiro entra em um bar onde estava Bob Ford. Este lhe dá umas moedas e pede para cantar alguma canção. Então o músico, sem saber que estava à frente do algoz do popular herói, passa a cantar “uma que todo mundo gosta”: “… O jovem Jesse James tinha uma mulher que chorou a sua morte. As crianças, elas foram corajosas. Mas o covarde e traidor que matou o Sr. Howard colocou Jesse morto no seu túmulo. Foi Robert Ford, aquele covarde!”. Bob Ford, então, revela sua identidade e pede para que o cantor, já constrangido, continue a cantar como uma espécie de automutilação a encarar a verdade frente a frente.

A narrativa é absolutamente fatalista. Mesmo que tentasse tirar o peso pelo ato das costas – e de fato, o protagonista arranja emprego como minerador e passa até a ter uma vida suntuosa – o fato desencadeador da sua destruição já havia sido consumado e, cedo ou tarde, voltaria à tona para atormentá-lo. E Samuel Fuller, com brilhantismo, oferece uma cena final irônica, reveladora e aparentemente contraditória: aquilo que havia manchado a reputação de um homem e sua imagem perante a sociedade adquiriu um caráter transformador impressionante através da reconstrução cruel de um traidor à procura de perdão.

Anúncios

3 comentários sobre “Matei Jesse James (Samuel Fuller, 1949)

  1. Eu não assisti essa versão. Só vi essa nova do Andrew Dominik, com o Brad Pitt e o Casey Affleck (que, inclusive, me surpreendeu, pois esperava uma baboseira). Nunca consegui achar essa versão do Fuller (que é um diretor fantástico!).

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s