Quando Explode a Vingança (Sergio Leone, 1971)

Há uma cena em Giù la testa (nos Estados Unidos, A fistiful of dynamite ou, como queria Sergio Leone, Duck you, sucker) que deixa clara a relação causa/conseqüência das revoluções populares. Um camponês mexicano, interpretado por Rod Steiger, é levado, como objeto exótico, para uma carruagem que transporta alguns representantes da elite local – lá é humilhado, tratado como um animal selvagem que “pode ser domesticado”. Os focos nos olhares de desprezo, raiva, esnobismo, no mastigar arrogante dos transportados servem para mostrar a agressividade dos reacionários e causar repulsa, não apenas no camponês mas também no público – Leone, assim, já escolheu seu lado no conflito.

A carruagem sofre uma emboscada por camponeses que, tempos atrás, subordinavam-se e ajudavam a empurrar o transporte – desta vez, as coisas mudaram radicalmente: os oprimidos quebram a frágil barreira que os separavam da minoria, rendem os burgueses e matam os que tentam reagir, tomam os seus pertences (deixando todos nus) e, por fim, tratam também de humilhá-los. Nessa seqüência, a lição já foi dada: as revoltas não são gratuitas, todas provêm da opressão covarde, do poder na mão de pouquíssimos, na representatividade nula da maioria da população nas esferas financeira e política – se, após a tomada do poder, a opressão se manterá ou intensificará, isso é outra história que não cabe no projeto do filme.

O camponês humilhado depois se revelará o chefe do bando que, a princípio, não possui a consciência revolucionária – está apenas interessado em saquear – mas que já não aceita ficar à margem, na miséria. É o surgimento de um irlandês obcecado por dinamite (James Coburn), que integrara o IRA há pouco tempo e que carrega um trauma deste período, que levará este bando (e muitos outros) a combater as milícias locais subalternas aos interesses dos Estados Unidos e de uma extrema minoria latifundiária local. Sergio Leone nos transporta para os desertos tomados pela tensão e mostra as atrocidades que os governos antidemocráticos causam, até como forma de sustentação de poder (não esqueçamos que em território mexicano, sob influência capitalista, aqueles que eram pelo menos suspeitos de conspiração eram levados ao paredão).

É uma trama um pouco longa demais, mas com grandes momentos de êxtase que fazem com que tudo valha a pena – as cenas de ação, com grandes explosões e, mais especificamente, com um choque sensacional de um trem com outro vagão são impressionantes e grandiosas, lembrando que na época os efeitos especiais ainda não eram artifícios (muitas vezes artificiais) de filmagem, tudo era muito mais “brutalizado”. Lançado em 1972, com outra trilha sonora histórica de Ennio Morricone, não é nenhuma surpresa que Giù la testa tenha sido mais uma obra-prima de Sergio Leone, o diretor que havia revolucionado o faroeste por duas vezes até então.

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Um comentário sobre “Quando Explode a Vingança (Sergio Leone, 1971)

  1. Análise absolutamente tendenciosa. O filme é uma grande crítica à revolução, basta ouvir os diálogos entre os protagonistas. O personagem de Rod Steiger afirma que a revolução é idealizada e encorajada por pessoas que lêem livros (justamente os esnobes que você critica), mas quem se mata é o povo e no fim das contas nada muda. Leone nunca foi um anticapitalista. Vai sonhando.

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