Sessão dupla de John Ford

A Mocidade de Lincoln/ The young Mr. Lincoln (1939)

O ano de 1939 marcou o começo da longa parceira de dois dos maiores nomes do cinema: John Ford e Henry Fonda. A Mocidade de Lincoln é a história, em parte fictícia, dos primeiros momentos de Abraham Lincoln como homem público, desde o momento em que toma a decisão de sair do pequeno condado onde nasceu, em Kentucky, para a cidade de Springfield, capital do estado de Illinois. Não estamos falando do “presidente” Lincoln, e sim do jovem que, por conta própria, começa a estudar as leis e a importância delas na construção da democracia. É o começo da formação de um homem simples e ambicioso, que terá seu primeiro caso no tribunal após um confuso assassinato: à noite, uma briga entre um malandro e dois irmãos culmina com a morte do primeiro; há apenas uma testemunha ocular do assassinato: a mãe dos rapazes, que não dirá de hipótese alguma qual dos dois utilizou uma faca para se defender – revelar seria escolher um para viver e levar o outro para a forca.  O caso é difícil, ainda mais para um iniciante – Lincoln tem a confiança da família acusada e está disposto a defendê-la até o último momento, no complicado e revelador processo tribunal. Assim, o filme funciona de duas formas: a primeira, com a apresentação do caráter de um dos presidentes mais importantes da história dos Estados Unidos; a segunda, com uma excitante trama judicial que prova mais uma vez que John Ford era muito mais que um diretor de faroestes.

O Prisioneiro da Ilha dos Tubarões/ The Prisoner of Shark Island (1936)

Lançado três anos antes, mas com um contexto histórico posterior, O prisioneiro da Ilha dos Tubarões coloca também Abraham Lincoln, agora presidente, como personagem-chave para o desencadeamento da trama. Tudo começa com o seu assassinato durante uma peça de teatro: um ator, John Wilkes Booth, ligado à ideologia sulista mais reacionária, adentra no camarote do presidente e com um revólver em punho dispara mortalmente; depois o assassino pula ao palco e grita, para o público em pânico, a famosa frase “Sic semper tyrannis!” – quebra, porém, uma perna, mas consegue escapar com um cúmplice. Rumo ao sul, não suporta mais as dores e decide parar em um pequeno condado para ser atendido pelo médico local Dr. Samuel Mudd (Warner Baxter). Este o atende, como qualquer médico digno, sem ter idéia de que sua vida, a partir deste pequeno acontecimento, mudará completamente pouco tempo depois. Isso porque Frank Booth deixa a bota da sua perna quebrada na casa do médico, que será encontrada na manhã seguinte – “the Booth´s boot” –  por um soldado que investiga os rastros do criminoso (e do grupo conspirador).

Dr. Samuel Mudd é, então, acusado e levado a um julgamento completamente deturpado, em que a ordem superior é: decidam de acordo com a voz do povo. Culpados e inocentes são, portanto, condenados à forca – Mudd, porém, é enviado para uma ilha isolada, cercada por tubarões famintos, onde uma cadeia das mais hostis é mantida pelo governo americano, “um fim irônico para uma morte lenta”. O inferno do médico inocente se intensificará. Porém, sua esposa, seu sogro e um antigo funcionário e amigo negro irão planejar uma perigosa fuga da ilha – Conseguirá ele escapar? Como estará o caráter de Samuel Mudd após tantas injustiças? Terá a intenção de se vingar daqueles que o trataram de forma subumana na prisão? As respostas surgirão durante uma narrativa triste, dura e de denúncia, em uma feroz trama de sobrevivência e perdão.

Dois grandes filmes, com muitas confluências (temáticas e estéticas) entre si:

A figura de Abraham Lincoln apresenta muitas semelhanças com John Ford, não por acaso três de seus filmes (além dos dois acima, The Iron Horse) têm o presidente como personagem-chave. Ambos eram grandes defensores do republicanismo e da conciliação entre as divergências culturais e políticas: John Ford era uma democrata, mas apresentava muitos traços republicanos, uma espécie de liberal conservador. Era, portanto, um grande conciliador – em parte, pelas suas origens irlandesas, que o colocavam também como um “estrangeiro” que procurava entender melhor a história do país que acolheu sua família.

E é a capacidade de conciliação o principal traço explorado por Ford em A mocidade de Lincoln, com o presidente que respeitou e firmou a importância da Constituição no país, desde seu primeiro caso no tribunal até sua última aparição pública – porém, com O prisioneiro da Ilha dos Tubarões, o diretor deixa claro que muitos dos ideais de Lincoln não estavam ainda devidamente enraizados, não por acaso a trama se inicia em um teatro (seria a democracia ainda tomada de muita farsa?). Com o julgamento irresponsável de inocentes, inclinado para satisfazer a vontade popular, John Ford deixa evidente que a democracia estadunidense ainda era bastante frágil – e que a união entre o sul e norte precisava de muitas negociações para se manter, diferenças estas que, em parte, permanecem até os dias atuais. Além disso, esse “desvio da democracia americana” é ainda bastante efetiva nas questões externas, com as condenações, torturas e assassinatos de inocentes em completo desrespeito às leis e aos direitos humanos. O estudo, portanto, permanece – e pode ser visto em obras recentes, como “Guerra ao Terror” e “O Escritor Fantasma”. Do ponto de vista cinematográfico, os dois filmes, assim como a carreira de John Ford na década de 30, apresentam grande influência expressionista, não apenas como opção estética, mas também como representação dos contextos pessoais e históricos envolvidos. São dois grandes filmes, essenciais para conhecer melhor a carreira de um dos maiores diretores americanos.

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9 comentários sobre “Sessão dupla de John Ford

  1. Nossa tenho de assistir esses filmes. Brilhante comparação. Não conhecia teu blog. O Conde do Cineplayers indicou. Ele disse que complementava o comentário que ele tinha escrito. Aqui é sempre renovado o blog ou você escreve em dias determinados?
    A mocidade de Lincoln tem em DVD?

    1. Bom saber, Maria. O Conde conhece muito o cinema, li o comentário dele antes de fazer o meu, ou seja, serviu de base – e se alguém me pedisse uma indicação de crítica, enviaria a dele. Vou até deixar o link aqui embaixo. Sobre o blog, praticamente todos os dias eu atualizo, mas nem sempre com textos… E A mocidade de Lincoln, acho que nem tem mais em dvd, passei no site da 2001 e está em falta. Até!

      Crítica para O Prisioneiro da Ilha dos Tubarões: http://www.cineplayers.com/comentario.php?id=24335

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