60 anos de Crepúsculo dos Deuses

A apresentação impecável do ambiente coadjuva com eficiência o estudo da personalidade de Norma Desmond: a mansão desolada, verdadeiro mausoléu de recordações; a exposição de fotografias da estrela, que se espalham por várias salas e por cima de todos os móveis. Claustrofóbica e narcísica, Norma tem ainda um salão de projeção, onde faz passar somente seus velhos filmes, e assiste ao seu próprio desempenho com incontida emoção: vendo sua face jovem em Queen Kelly [Minha Rainha] (inacabada realização de Erich von Stroheim), levanta-se e, colocando-se de perfil no jato luminoso do projetor, grita exaltada: “Nunca mais farão rostos como este”. A sua revolta ante o cinema sonoro que pôs fim à sua carreira (“Enforcam uma arte com uma corda de palavras”) é passionalmente sincera – e esse desajuste é magistralmente exposto na cena em que ela visita os estúdios da Paramount: no set de Samson and Delilah [Sansão e Dalila], sentada na cadeira de DeMille, ela empurra, com desprezo que esconde certo temor, o microfone monstruoso que se aproxima de seu rosto. Ainda nessa visita aos estúdios, há outra excelente cena, na qual Norma é reconhecida pelos seus velhos companheiros, agora reduzidos à condição de “extras” ou simples auxiliares de filmagens, e, cercada por eles, mais uma vez se ilude com a imortalidade de sua glória. Todas essas cenas não têm, evidentemente, a impiedade do convite que levou Norma a procurar DeMille, na ilusão de que este aprovara seu script, quando o estúdio apenas queria alugar a sua Isotta-Fraschini; mas nenhuma é tão grande quanto a cena final, na qual, inteiramente fora de si após ter assassinado o amante, Norma confunde as câmeras dos new-reels que vêm documentar o crime com as de Cecil B. DeMille e, dirigida pelo devotado Max, executa, grotesca e tragicamente, a dança de Salomé. Um momento antológico.

Por Antonio Moniz Vianna.

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2 comentários sobre “60 anos de Crepúsculo dos Deuses

  1. Vou copiar o que escrevi lá:

    Rockenbach, ainda não li o dossiê do Hitch porque não sabia de sua existência. Verei urgentemente, assim como os outros vários especiais de valor inestimável – tem um dossiê sobre o cinema novo, por exemplo, muito interessante e que deve servir de base para qualquer um que queira conhecer o cinema brasileiro. Como você mesmo escreveu, o único problema dentre todos os méritos da digitalização é não ter, junto às edições, o prazer de folhear em mãos, mesmo com cheiro de roupas velhas da avó; mas a possibilidade de entrar em contato com acervo tão rico sem ter que fazer pesquisas “nos subterrâneos mais profundos de bibliotecas” é muito animador (apesar de elas, as pesquisas, serem também emocionantes quando se descobre algo tão bom). É uma pena que os exemplares mais novos cheguem apenas em poucos estados brasileiros, espero que isso mude com o tempo – e que, como antigamente, façam especiais mais rebuscados sobre um ou outro diretor, não apenas para resgatar os clássicos mas para também fazer um paralelo entre o passado/presente/futuro, mesmo que o cinema atual não seja tão empolgante assim.

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