El Dorado (Howard Hawks, 1966)

Howard Hawks, um dos grandes mestres do cinema americano, e o faroeste, considerado, por sua vez, o “cinema americano por excelência”, nasceram praticamente no mesmo período – lá no final do século 19 – e atravessaram, juntos, os ricos e diversificados caminhos que a indústria e a arte cinematográficas traçaram, desde as evoluções da técnica até os aprofundamentos temáticos. Portanto, cresceram e envelheceram juntos – porque, se há um gênero que apresentou um ciclo de vida no cinema, este gênero chama-se western. Vez ou outra dois ou três representantes são lançados por aí, quase sempre em refilmagens, mas o gênero, essencialmente falando, considerando sua importância e seu apelo no cinema atual, ou morreu ou está hibernando até que dias melhores se aproximem.

Estudar as trajetórias dos grandes diretores implica, desta forma, comparar seus filmes com o passar dos anos e observar as mudanças, os novos elementos adicionados, os focos apresentados, as escolhas nos temas e também perceber as releituras – estas podem ser as que mais resumem a subjetividade do realizador, são as que melhor conectam determinados valores ao seu modo de se fazer cinema. E na relação Hawks/Western podemos perceber nitidamente a diferença entre um Red River [Rio Vermelho, 1948] e um Rio Bravo [Onde começa o inferno, 1959]. O primeiro trazia a figura quase mitológica do cowboy sob a grandeza das paisagens do Velho Oeste, fazendo o contraponto entre o agente da ação (o desbravador, que ampliava as fronteiras do território americano para, assim, encontrar o seu lugar) e os monumentos áridos dos caminhos a serem percorridos, indicando que as tarefas deveriam ser árduas, solitárias e regidas pela força bruta – a bondade humana, porém, representava o equilíbrio entre a brutalidade e a ambição, como no momento em que o personagem de John Wayne, tomado de ódio pela desobediência de seu filho (interpretado por Montgomery Clift) na direção a ser tomada pelo rebanho de gado até o destino final, reconhece o seu erro e pede perdão. Rio Bravo, no entanto, privilegia a relação mais íntima entre os personagens, estes muito mais imperfeitos e cômicos, nos momentos de tensão – ou mais do que isso, nos momentos que podem separar a vida da morte: sob um inimigo aparentemente mais poderoso, os personagens principais de Rio Bravo (o xerife e três ajudantes: um bêbado, um velho manco e um jovem pistoleiro) estão unidos, e com isso se fortalecem, através da coragem e da amizade, esta sim a principal virtude exaltada na película.

Entre esses dois filmes, El Dorado se aproxima muito mais do segundo – mais do que isso, é uma releitura, um aprofundamento, de tudo aquilo levado às telas pelo faroeste antecessor. Sete anos separam um do outro, mas não é possível notar um envelhecimento, um desgaste capaz de desviar a magia do cinema hawksiano, especialmente do seu tipo de faroeste. Assim, El Dorado pode ser visto como o próprio Rio Bravo que retorna para ampliar e para repetir as mesmas fórmulas que deram tão certo anos atrás, para aprofundar os valores que lhe são caros, como a amizade e a determinação para fazer valer a Justiça contra todas as adversidades. Os personagens são também praticamente os mesmos, só que são ainda mais imperfeitos ou, por assim dizendo, muito mais reais: John Wayne é um pistoleiro envelhecido que, apesar de manter a excelente pontaria dos velhos tempos, sofre com paralisias devido a uma bala alojada próximo à sua coluna; Robert Mitchum é o xerife, também envelhecido e fora de forma, que sofre com as bebedeiras após uma desilusão amorosa; Arthur Hunnicutt é o velho zelador da delegacia; James Caan é, por sua vez, o jovem, inexperiente mas corajoso justiceiro que não sabe atirar – estarão todos unidos contra o estigma do perigo representado por um violento latifundiário e sua gangue.

A repetição – e aqui essa palavra está completamente isenta de qualquer demérito – não é, portanto, por acaso. Como disse o próprio Hawks, “Decido realizar um filme quando o assunto me interessa: pode ser sobre corridas de automóveis ou sobre aviação, um western ou uma comédia – mas o melhor drama é aquele do homem em perigo. Não há ação a menos que haja perigo; e se se chega à ação real, da mesma forma há perigo: ficar vivo ou morrer, este é o maior drama que nós temos”. E o confronto entre vida e morte não poderia fazer mais sentido: do realizador até os personagens principais da narrativa (o xerife e seu ajudante), a velhice estava sendo mais do que nunca encarada – a percepção, quase cômica, dessa realidade e de suas conseqüentes situações não poderia ser mais interessante e sensível; é como se as coisas que realmente importam fossem abraçadas e carregadas até o fim inevitável, como se essa desconstrução dos mitos apresentasse o faroeste como ele realmente é no final das contas: simples e grandioso.

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