A palavra de Hitchcock (Parte 1)

HITCH, COMO ELE PENSA QUE É:

– Não sou realista, de modo algum. Sou atraído pelo fantástico. Vejo as coisas mais amplamente do que a vida. É porque aprecio o melodrama (que não é exatamente o melodrama com o sentido pejorativo que lhe dão, mas, sobretudo, o drama com peripécias). O realismo mostra as pessoas numa certa altura uniforme. O melodrama as rebaixa ao máximo e eu procuro, então, fazê-las ascender ao mais alto possível.

O HOMEM E O SEU DUPLO:

– O diabo está em cada um de nós.

“HOMO SAPIENS”:

– A total compreensão de um criminoso retornando à cena do crime desafia análises. Em nossa história, é evidente que o retorno à cena foi feito com aquele espírito de arrogância que verdadeiramente distingue o homem das inferiores formas de vida.

O OBJETIVO (DO HOMEM):

– Procurar algo inutilmente tem sido o sonho do homem desde que ele antes viu as vantagens de ser intoleravelmente ambicioso. Tem sido tais sonhos que tornaram o homem no que ele é. Gênio imperfeito, o homem está no cimo.

MEDO:

– Ele influenciou minha vida e minha carreira. Tinha cinco ou seis anos. Era domingo, único dia em que meus pais não trabalhavam. Eles me deitaram e foram passear no Hyde Park, respirar um pouco de ar puro. Estavam certos de que eu dormiria até retornarem. Ora, por infelicidade, despertei e os chamei, e ninguém respondeu-me. Ao meu redor, tudo estava escuro. Tateando, levantei-me e, errando pela casa vazia e mergulhada nas trevas, cheguei à cozinha, onde encontrei um pedaço de carne fria que comi, molhando-o com as minhas lágrimas. Isso me deixou um definitivo horror de carne fria, da obscuridade e das noites de domingo.

SUSPENSE E SEXO:

– Num filme de suspense é necessário que o sexo seja também um elemento de mistério. É preciso que a heroína se pareça com a maioria das mulheres que deparamos na rua – mas que aja de maneira mais extraordinária. Os americanos pensam sexy, comem sexy, vestem-se sexy, mas não agem sexy. Entretanto, tomemos uma inglesa como exemplo. Ela talvez tenha o ar de uma professora, mas se cometermos a imprudência de pegarmos um táxi com ela, nos arrancará até as calças.

SUSPENSE:

– A detective story se distingue de todos os outros gêneros da ficção criminal pela sua insistência sobre o anormal. O acontecimento anormal, o roubo, o incêndio provocado, o assassinato, são explicados em termos puramente materiais, naturais e lógicos. O crime é a peça jogada na peça estagnada. É o fio estranhamente colorido, tecido sobre um motivo terno. O detetive faz o diagnóstico. Seu trabalho é arrancar o fio imperceptível que destoa na tapeçaria.

… E O DETETIVE:

Os grandes detetives possuem todos uma individualidade, uma forte personalidade. Alguns são excêntricos, outros agradáveis; uns ingênuos, outros insensíveis. Há os profissionais e os amadores; ricos diletantes e os obscuros inspetores de polícia. Mas todos têm uma qualidade comum – a qualidade essencial -, uma percepção cinematográfica.

E O POLICIAL, TAMBÉM:

– Não gosto muito de policiais. Quando tinha cinco anos, meu pai, por brincadeira, prendeu-me algumas horas num comissariado conhecido. Ele explicou-me, depois, que era uma brincadeira, mas guardei desse episódio um medo intenso dos policiais. Sente-se isso nos meus filmes, não?

CHICAGO, CHICAGO:

– Chicago sempre pareceu-me local perfeito para cometer um crime. O vento frio vindo do lago Michigan, compridos carros negros correndo pelas ruas principais, e o repentino e fatal som de uma metralhadora. O local perfeito, sem dúvida.

A VÍTIMA PERFEITA:

– Em acréscimo ao que estão vendendo, os vendedores, como vocês sabem, devem vender-se a si mesmos. Seu sorriso deve ser largo. E os brilhos de seus sapatos altamente cegante. Tais indivíduos perfeitos, naturalmente, são a vítima perfeita.

O MORDOMO:

– Para ser mordomo – é preciso mais do que habilidade de permanecer rigidamente ereto. É também necessário ser capaz de olhar com certo desprezo, enquanto tem os ouvidos atentos e a boca fechada. Incompreensivelmente, mordomos são uma raça em desaparecimento.

OS “GENTLEMEN”:

– Os gentlemen, certamente, têm um lugar nas histórias de mistério. Por qualquer coisa, o seu correto comportamento pode ser algo irritante. E algumas vezes – sempre atentos para fazerem o correto – tornam-se assassinos.

Publicado também no Hitchcockiando.

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