A palavra de Hitchcock (Parte 2)

O PROGRESSO:

– Em tempos passados, um homem poderia fazer um discurso público sem realmente arriscar a vida. A verdade é que a audiência, normalmente, sofria mais que o orador. Agora, que vivemos numa época em que cada coisa está sendo aperfeiçoada, um mau governador, fazendo um mau discurso, agiria melhor tendo uma boa guarda pessoal.

POKER:

– Aquele que somente deseja provar que vence, perde ou empata. O principal requisito na mesa de poker é a coragem arrogante.

TELEVISÃO:

– Nada há que possamos chamar “arte da televisão”: ela é apenas um veículo de comunicação. Arte é a exposição de uma idéia de tal forma que provoque emoção. Eu, sem o saber, inventei o “estilo televisão” com Rope. Mas ninguém o utilizou realmente. Minhas atividades na televisão nada têm a ver com o cinema.

– Meu trabalho não consiste em fabricar novas estrelas. Se algumas atrizes que se iniciam em meus filmes atingem rapidamente a notoriedade, isso é uma coisa acidental. Gosto de trabalhar com rostos novos, porque é mais interessante para um realizador dirigir uma iniciante do que uma estrela caprichosa. Além disso, na TV, os orçamentos são limitados e é conveniente utilizar desconhecidas. Aliás, num bom filme, o talento do diretor vale 95% e o restante fica para os intérpretes. Há um outro problema na TV: o público, que vê a cada semana o mesmo ator, se cansa. No cinema, a atriz popular não aparece senão duas ou três vezes por ano.

COR:

– Claro que o cinema é um meio de expressão mecânica. Mas deve ter por objetivo provocar emoções. A montagem, é verdade, desempenha grande papel nisso. Mas a cor também, e ela me interessa cada vez mais. Assim, em North by Northwest, quando marcamos um encontro de Cary Grant numa planície desolada, com o sol a pino, e um avião surge, tentando matá-lo, utilizei um filtro amarelo para dar um sentido de loucura, de pavor avassalante.

NOVO CINEMA:

– Hoje o novo cinema não é nada: apenas fotografa pessoas falando. E isso não é nem teatro, nem televisão.

ATORES:

– Repito o que já disse um dia: os atores são gado. Apesar de tudo, é a verdade, mesmo se um pouco exagerada. Digamos que são crianças e, como todas as crianças, têm mau caráter. É por isso que é preciso domá-los. Mas, se não fossem assim, não seriam atores.

– Autoridade é a primeira coisa que devem aprender. A emoção vem mais tarde, e a disciplina da voz também mais tarde, mas a primeira coisa é a autoridade, porque ela dá o sentido de timing. Quando percebemos um orador precipitar suas idéias, acelerar suas palavras, é evidente que não controla a atenção do público.

CAROLE LOMBARD:

– Há alguns anos, por amizade a Carole Lombard, fui dirigir uma comédia (Mr. and Mrs. Smith, 1941), onde ela era estrela, com Robert Montgomery. No primeiro dia de filmagem encontrei num canto do estúdio algumas vacas e cada uma delas trazia, no cinto que portavam, o nome de um dos principais atores. Carole Lombard tinha, realmente, muito humor. Foi uma grande perda.

KIM NOVAK:

– Kim Novak, para não esquecê-la, atrapalhou-me muito em Vertigo. Ela estava sempre irrequieta porque eu lhe pedia para nada exprimir. Portanto, o que seria bem fácil pra ela…

FILMES DOS QUAIS NÃO GOSTO:

– Filmes que eu não gosto? Sim, existem. Primeiro, Jamaica Inn. Tudo fiz para romper o contrato. Mas não pude sair. E também outro filme de época: Under Capricorn, do qual me dizem que os franceses apreciam. Depois desses, não fiz mais nenhum filme de época. Quando rodo um filme de época, não posso sequer pensar que as personagens vão ao banheiro, como todo mundo. Mas ainda há outro: State Fright. Este, porém, porque o rodei na Inglaterra: na ocasião estava muito infeliz.

NOTORIOUS:

– Notorious era realmente uma história de amor, tendo sob ela uma história de espionagem. Os produtores cometeram o erro de pensar que era uma história de espionagem e talvez uma história de amor.

THE TROUBLE WITH HARRY:

– O filme, se desenvolvendo em um dia, começa verde e termina vermelho. Trata-se essencialmente de um contraponto. Não era conveniente nada de feio na imagem. As cores do outono são magníficas e devem observar que nunca mostro o cadáver sob um ângulo que possa ser desagradável. Antes de mostrar seu rosto, mostro a tela que o representa. Ao meu ver, os personagens de The Trouble with Harry têm reações absolutamente normais e lógicas. Só seu comportamento, isento de toda afetação, dissimulação, mundanismo e de conveniência, pode fazer crer que se trata de falsos caracteres. Em outras palavras, à lógica do absurdo, preferi a absurdidade da lógica.

THE WRONG MAN:

– Quis fazer o inverso de filmes do gênero Boomerang ou Call Northside 77, nos quais seguimos o investigador que trabalha para libertar um inocente na prisão. Meu filme foi feito do ponto de vista do homem preso. Assim, no início, quando o vêm prender, ele senta-se no carro entre dois inspetores: grande plano de seu rosto: olha para a esquerda e vê, do seu ponto de vista, o perfil grosseiro do primeiro guardião: olha para a direita:o segundo guardião acende um cigarro; olha para a frente e no retrovisor percebe os olhos do chofer que o vigiam. O carro parte e ainda há tempo de lançar um rápido olhar em sua casa: na esquina da rua se localiza o bar onde ia habitualmente e diante do qual brincam as crianças: num carro parado, uma bela jovem liga o rádio. No mundo exterior, a vida continua como se nada estivesse acontecendo, tudo se passa normalmente, mas ele está no carro, prisioneiro.

MARNIE:

– Marnie, é uma história de amor, mas também uma história policial. O homem tenta conhecer a verdadeira face da mulher que esposou, uma ladra, mas com um “toque” estranho. O filme é policial, não porque ela é uma ladra, mas devido às causas que a tornaram ladra. É uma pesquisa sobre a psicologia da jovem. O que se procura saber, e o descobrimos, é porque ela reage quando vê a cor vermelha. Nessas ocasiões, seu rosto, bem como a tela, tornam-se vermelhos.

AOS DISCÍPULOS:

– Deixem a platéia fazer parte do trabalho. Se você explicar cada coisa, uma a uma, não haverá mistério.

AMOR:

– A palavra amor é uma palavra cheia de suspeitas.

OBS.: Pessoal, retirei essas declarações da revista FILME/CULTURA, sétima edição (novembro de 1967), em que há um dossiê da obra do Hitch feito por Antonio Moniz Vianna, o grande.

OBS.2: Para ter acesso à edição, você deve clicar aqui.

Anúncios

2 comentários sobre “A palavra de Hitchcock (Parte 2)

  1. “Notorious era realmente uma história de amor, tendo sob ela uma história de espionagem. Os produtores cometeram o erro de pensar que era uma história de espionagem e talvez uma história de amor.”

    perfeito! …

    e essa história do “atores são gado” é genial tb…

    tem um vídeo no dvd extra de Psicose (e que deve ter no youtube e talz) que mostra o Hitch recebendo o AFI Lifetime Achievmente Award… é muito bonito… o Hitch todo velhinho… com sua esposa ao lado… depoimentos de uns zenínguens como Ingrid Bergman, James Stewart, Henry Fonda, Truffaut, etc…

    as histórias que a Ingrid Bergman e o Jimmy Stewart (ele é quem cita o lance de “os atores são gado”) contam sobre seus relacionamentos com o gordito são sensacionais…

    vale a pena caçar no youtube…

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s