A Morte Num Beijo, por Antonio Moniz Vianna

Crítica publicada no jornal Correio da Manhã (1956).

Tão distante de Vera Cruz quanto Vera Cruz de Apache [O último bravo] – em gênero, também no ritmo – Kiss me deadly reafirma a preocupação constante de Robert Aldrich com o lado plástico de seus filmes, refletindo uma imaginação visual que já se inclui, definitivamente, entre os elementos mais característicos e mais expressivos do estilo do realizador. Como disse o crítico Charles Bitsch, da ala jovem que deu novo brilho a Cahiers du Cinéma, para Aldrich “não há leis, não há tabus: os planos podem ser tão vertiginosos como diametralmente opostos” – e o diretor, diz o mesmo crítico, “nos faz assistir à luta implacável do branco sobre o preto; massas de sombra que se entrecruzam ou se chocam, entremeadas de clarões brancos…”. Vale acentuar que Aldrich, a exemplo de Hitchcock e Ford, vem usando, desde Apache, o mesmo cameraman – e este, Ernest Laszlo, nunca se deu tão bem com outros diretores, sob cujas ordens tem trabalhado.

Por outro lado, o ecletismo de Aldrich se evidencia através da simples enunciação de seus filmes. Da poesia de Apache, ele passou à aventura, nos tons mais vivos, de Vera Cruz, e, antes de The big knife [A grande chantagem], baseado na peça de Clifford Odets, realizou Kiss me deadly.

Um thriller, o terceiro da “série Spillane’, Kiss me deadly é muito superior a I, the jury [Eu, o júri], de Harry Essex, e The long wait [Procurado por homicídio], de Victor Saville – porque é mais do que um filme interessante: é a categórica demonstração de que Aldrich nem se satisfaz, nem cessa de aperfeiçoar seu estilo, embora pareça já ter alcançado um ponto além do qual não é fácil prosseguir. Num incontestável tour de force, o diretor obriga o observador a discutir Kiss me deadly no mesmo plano de The Maltese falcon [Relíquia Macabra], The big sleep [À beira do abismo] e Murder, my sweet [Até a vida, querida]. E um fato importante: enquanto Huston, Hawks e Dmytrik foram municiados por Dashiell Hammett e Raymond Chandler, remodeladores e mestres da novela policial, Aldrich recorreu a Mickey Spillane, muito abaixo daqueles na hierarquia do gênero, e cujo estilo tantas vezes tem sido ridicularizado.

Hammett, Chandler e em menor escala James M. Cain foram, de certo modo, os lançadores de muitos elementos de que, entre outros, Mickey Spillane se aproveitou – o detetive particular, entre a lei e o crime, acostumado a agir por conta própria, cínico, áspero, malvisto pela polícia e, não raro, às voltas com ela; a violência seca, a que é dada quase a forma de um ensaio, e com freqüência exercida também contra o herói (o pontapé na cara de Sam Spade, em The Maltese falcon; a surra de Philip Marlowe, em The big sleep e em Murder, my sweet); a introdução do erotismo, nos amores efêmeros do protagonista, que terminam na traição de mulheres tão atraentes quanto calculistas, também toxicômanas ou ninfomaníacas. Exagerando a dose de todos, em tramas indisciplinadas, às vezes curiosas – como a de The long wait, que, uma vez lançada, fica praticamente sem saída -, Spillane vai, à causa de espasmos, a um clima de verdadeiro delírio.

Na versão cinematográfica de Kiss me deadly, Aldrich, mantendo-se dentro do sórdido “mundo” spillaniano, dá à narrativa, todavia, o tratamento exigido pelas novelas de Hammet e Chandler – e, se tivesse posto Humphrey Bogart no papel vivido por Ralph Meeker, teria operado a conversão de Mike Hammer em Sam Spade ou Philip Marlowe. Na apresentação dos letreiros já se nota um sintoma de excelente direção: uma mulher está soluçando. E é abruptamente que a ação tem início, a mulher sozinha, à noite, na estrada, descalça e completamente nua sob a capa de chuva. É a primeira das quatro “Spillane girls” que serão assassinadas, supliciadas ou beijadas durante a narrativa – e, pouco depois, suas pernas nuas estão oscilando ante a câmera, os seus gritos são terríveis e, quando cessam, um dos homens abaixa a mão, que segura um alicate. Mike Hammer, que lhe dera uma carona na estrada e que, meio atordoado, assistira do chão à cena de tortura, é então posto ao volante do seu carro, com o cadáver ao lado, e os assassinos  “sem face” (Aldrich focaliza-os apenas do joelho para baixo) atiram o carro de cima de um barranco.

O herói “ressuscita” e sai do hospital para ser desmoralizado na polícia, numa seqüência muito bem marcada, durante a qual quatro homens definem, cada um com uma frase rápida e incisiva, o seu caráter: Mike Hammer, detetive particular, ou melhor, detetive de boudoir; especialidade: casos de adultério; secretária sedutora, utilizada na obtenção de “provas” contra maridos. Nunca o protagonista de um thriller foi tão duramente qualificado. Mas, decidindo-se a investigar o caso, Mike Hammer caminhará sempre adiante da polícia, cuja função, em Kiss me deadly, é tão nula quanto nos filmes de Hitchcock. Hammer tem, de saída, a vaga indicação de que é um objeto pequeno o que os criminosos procuram – pequeno, mas de extraordinário valor, porque cresce a cada instante o número de vítimas.

A chave do mistério? Uma chave, mesmo – o que Hammer só vem a descobrir depois de cumprir o destino do herói spillaniano, às voltas com mulheres seminuas, se não completamente (como Maxine Cooper sob o lençol), e que só depois do segundo beijo (como Friday, vivida por Marian Carr) perguntam displicentemente o seu nome. Desconcertante, o filme nos mostra uma cena como esta: um homem gordo, em pânico ante a aproximação de Hammer, engole um punhado de comprimidos contra insônia, para não soltar a informação que o detetive vem buscar. Intrigante, não revela à platéia como Hammer põe desacordado, em dois segundos, o capanga (Jack Lambert) que se prepara para agredi-lo, ante o olhar apavorado de outro (Jack Elam). Surpreendente, faz de um médico-legista (Percy Helton) um personagem tão grotesco quanto sinistro, que exige “a metade do que a chave abrirá” e, por isso, tem a mão esmagada dentro de uma gaveta, como esmagado sob um carro já havia morrido um amigo do herói, o mecânico grego (Nick Dennis) – va va voum, va va voum – ao ser retirado o macaco pela mão do chefe “sem rosto” (Albert Dekker).

Robert Aldrich fez de Kiss me deadly o thriller mais estranho desde The lady from Shanghai [A dama de Xangai], de Orson Welles, mantendo, é bom acentuar, toda a lucidez na condução de uma narrativa que, de saída, comporta uma verdadeira ressurreição (“Lázaro volta à vida”), revela uma senha misteriosa (Manhattan Planes, Los Alamos, Trinity) e termina com uma versão atômica da caixa de Pandora.

Anúncios

2 comentários sobre “A Morte Num Beijo, por Antonio Moniz Vianna

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s