Investigação sobre um cidadão acima de qualquer suspeita (Elio Petri, 1970)

Gian Maria Volontè é um chefe de departamento de homicídios italiano que, com uma lâmina, assassina sua amante e deixa, deliberadamente, provas criminais que apontam diretamente para a sua autoria no delito: de sua gravata, retira um fio e prende em uma das unhas do cadáver, com sangue suja a sola de seu sapato para criar rastros, impressões digitais são deixadas em locais definidos – em outras palavras, praticamente assina sua responsabilidade no crime e, então, parte para seu local de trabalho: irá conduzir as investigações.

No gabinete de polícia, é bajulado, afinal de contas, fora promovido para manter, ainda com mais firmeza, a ordem máxima: combater os subversivos, prendê-los, retirar-lhes informações sigilosas, com, é claro, todo o aparato concedido pelo Estado. Grampos telefônicos, informantes e torturas são os instrumentos mais eficientes – e a modernização deixa tudo ainda mais simples e automatizado. O crime da tarde, exótico, chama a atenção da imprensa, mas a resolução não parece ser complicada, afinal de contas, são dois os principais suspeitos: o ex-marido da moça ou algum comunista. E dentro desta última espécie, o chefe de polícia já escolheu um: vizinho e também amante da mulher – incriminá-lo não exige muito esforço; provar sua culpa é uma questão de ordinária estratégia.

Mas o que o personagem de Gian Maria Volontè pretende, principalmente, é provar que é, ou deve ser sempre, um “cidadão acima de qualquer suspeita”. Este homem considera-se uma instituição, acima de tudo e de todos, lado a lado com o Estado na posição de mantedor das rédeas sociais – ofendê-lo significa ofender a instituição e, portanto, todos que dela fazem parte. Não há como deixar de fazer uma associação com outro personagem semelhante, o detetive Hank Quinlan de Orson Welles, que planta provas para incriminar mesmo os inocentes, que se associa até com a ilegalidade para abusar do seu poder – nas palavras de Welles, “… Eu sou especialmente contra a plutocracia: é a plutocracia americana que tenho criticado de diversas maneiras, em The Magnificent Ambersons, The lady from Shanghai e Citizen Kane. […] Mas agora interesso-me mais pelos abusos da polícia e do Estado do que pelos do dinheiro, porque hoje o Estado é mais poderoso do que o dinheiro. Procuro, assim todos os meios de dizer isso”.

E o Estado, na Itália dos anos 60 e 70 (e não só lá, como bem sabemos) era incomparavelmente mais poderoso que o Estado de Touch of Evil – e os seus inimigos, em número muito maior, não precisam sequer infrigir a Lei: basta ter, ou aparentar ter, uma ideologia política contrária à dominante. O combate deles, amparado e justificado constitucionalmente, através de abusos dos mais diversos, quase não se difere do controle nos países socialistas, sendo os dois, no final das contas, Estados criminosos.

Investigação sobre um cidadão acima de qualquer suspeita pode não ter, o que é natural, o impacto visual de um Touch of Evil – a comparação pode até ser descabida, mas continuemos – mas é um retrato contundente de um período nefasto e, mais do que isso, um grande thriller, com um personagem central repugnante (mais ainda que o Quinlan de Welles) e por vezes patético – a psicologia também explica a sua maneira de usar a força para manter o status quo, contrastando com sua impotência pessoal quase infantil -, sendo ele, no final das contas, mais uma peça de um sistema maior de autoridade, uma instituição da força que pretende ser inabalável, mesmo que, na sua pretensão de perdurar para sempre, oculte até mesmo os crimes confessados e indiscutíveis. Nesse sentido, a última cena, surreal e reveladora, de uma sátira mordaz, mostra o pessimismo contundente de Elio Petri, o diretor, e conclui, exibindo a imagem dos mais importantes “combatentes do crime” na narrativa reunidos, com uma citação de Kafka: “Não importa a impressão que nos dê, ele é um servidor da Lei, portanto pertence à Lei e escapa ao juízo humano”.

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3 comentários sobre “Investigação sobre um cidadão acima de qualquer suspeita (Elio Petri, 1970)

  1. Assisti quando ainda muito jovem–mais por causa da Florinda, que era brasileira (nordestina). Tenho vagas lembranças, nada muito especial.

  2. Nunca houve na história da humanidade um país não socialista cujo aparato estatal fosse mais poderoso do que o de uma nação comunista.

    Cinema comunista é isso daí. É uma verdadeira aula de como mentir e distorcer a realidade.

    Os filmes de Elio Petri são profundamente influenciados pelo pensamento da chamada Escola de Frankfurt, grande responsável por esse epidêmico pensamento de ver opressão em tudo, contudo, deixar de observar a opressão tirânica que já matou mais de 120 milhões de pessoas nas fadadas nações socialistas.

    É isso. O filme é moralmente desonesto e influenciado pela Escola de Frankfurt. A atuação de Volonté, que apesar de eu discordar profundamente de suas idéias e achar ridícula sua militância no cinema, é um grande ator.

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