Nascido Para Matar (Stanley Kubrick, 1987)

Full Metal Jacket começa e termina com música: na primeira cena, jovens têm suas cabeleiras raspadas e, ao fundo, escutamos Hello, Vietnam (“Kiss me goodbye and write while I´m gone/ Goodbye, my sweetheart, hello Vietnam”); na última, os rapazes voltam para casa cantarolando a canção do Clube do Mickey Mouse sob uma atmosfera de chamas e destruição. É engraçado como existe aí uma espécie de inocência clamufada, não apenas antes dos combates mas, principalmente, no retorno aos lares dos homens que viram, sofreram e praticaram um horror que eles, em geral, sequer imaginavam. A convocação para “defesa da pátria” já é por si só uma farsa. Mais ainda é o retorno dos “heróis de guerra”, muitos deles destroçados, não apenas fisicamente: voltam diferentes, traumatizados, violentos – diria até que morrem e renascem consecutivas vezes, à medida que presenciam os métodos e os efeitos da guerra.

Nos primeiros minutos de filme, um corte abrupto nos desloca da barbearia para um centro de treinamento na Carolina do Sul, onde os recrutas serão rigorosamente treinados, preparados para exercerem com firmeza uma missão: matar. A questão aqui não se limita a como conquistar territórios e se defender dos inimigos, mas como subjugá-los completamente, destroçá-los para que nada sobre – em outras palavras, fazer realmente uma limpeza étnica. E é o Sargento Hartman que os transformará, das “mais baixas formas de vida na Terra, desorganizados pedaços de merda anfíbia”, para verdadeiras “armas letais, sedentas de guerra” – se, é claro, “as senhoritas sobreviverem ao treinamento”.

Praticamente a primeira metade do filme se passa no centro de treinamento, e é provável que nunca tenha se mostrado um processo de educação militar tão devastador quando este de Stanley Kubrick: é, em primeiro lugar, uma coisa absurdamente hilária – é tudo muito insano, mas é impossível não se divertir com tamanha destruição moral do sargento aos seus pupilos e com uma alienação que inclui a seguinte oração nos dormitórios: “Este é meu fuzil; há muitos como ele, mas este é meu. Meu fuzil é meu melhor amigo. É minha vida. Sem mim, meu fuzil é inútil. Sem meu fuzil, sou inútil. Devo atirar melhor que o inimigo, que quer me matar. Devo atirar nele antes que ele atire em mim. Perante Deus, eu juro que o farei… Amém!”

Este Sargento Hartman, com uma interpretação brilhante de Lee Ermey, que merecia, sem dúvida alguma, um Oscar automático de atuação coadjuvante, é um dos personagens de maior impacto concebidos por Kubrick, e pode ser visto como a figura central deste filme. O seu treinamento fascista se contradiz e se revela não apenas nos métodos, mas também no discurso. Em um deles, cita dois assassinos americanos de “elite”: Lee Harvey Oswald que, a uma distância de 76 metros, acertou com dois tiros certeiros, inclusive um na cabeça, um alvo em movimento, diga-se, o próprio presidente dos Estados Unidos, John F. Kennedy; e o outro, Charles Whitman, o jovem que matou 12 pessoas ao alto de uma torre de 28 andares a uma distância maior do que 400 metros, em Austin, Texas – e que inspirou Peter Bogdanovich a compor o vilão na sua obra-prima Targets [Na mira da morte, 1968]. Os dois assassinos, orgulha-se Hartman, “foram treinados e aprenderam a atirar no Corpo de Fuzileiros Navais!”, e diz aos recrutas que, “após saírem da ilha estarão aptos a realizar o mesmo”.

Em outras palavras, o país poderia estar se armando também contra si próprio? Stankey Kubrick deixa isso claro quando uma das criaturas, após duras sessões de tortura moral, volta-se contra o criador e, com um tiro fulminante, cala para sempre a boca do Sargento Hartman e, então, dá fim à sua própria vida. Termina, então, o primeiro ciclo do filme, o momento em que os soldados renascem para a guerra. Separam-se para compor as diferentes bases no Vietnã, e a maior parte deles nunca mais irá se encontrar outra vez. É através do olhar do recruta Private Joker (Matthew Modine) que seremos guiados, e a sua transformação, desde os momentos iniciais na Carolina do Sul até os meios selvagens vietnamitas, é reveladora.

Diferentemente do que afirma a maioria das pessoas, a segunda parte não é em absoluto inferior à primeira. São dois momentos diferentes, sendo o primeiro mais homogêneo e, de fato, mais impactante; mas não há dúvidas de que o segundo também reserva grandes cenas, algumas imprevisíveis, como o conflito final com o franco-atirador, outras completamente loucas e brilhantes, como a seqüência em que uma equipe de filmagem registra um dos momentos da guerra para um documentário, com bombardeios ao fundo e a música frenética de Surfin´ Bird – não é em qualquer filme que se vê algo tão diferente e tão provocador, justamente porque não é qualquer realizador que atingiu o nível de excelência desafiadora de Stanley Kubrick, um homem essencialmente polêmico, sempre disposto a atingir aqueles pontos obscuros da personalidade humana.

E é na segunda metade do filme que o talento de Stanley Kubrick na manipulação das imagens se revela mais poderoso. É claro, é aí que só concentra a ação propriamente dita, as situações de perigo e de violência física – esta sempre estilizada, no melhor estilo do mestre Sam Peckinpah, o ”poeta da violência”. Kubrick filma de uma forma bem ampla, dando a sensação mesma de que estamos em um conflito aberto, em que, há qualquer momento, uma bala pode nos atingir vinda de um lugar inesperado. Não há qualquer noção de segurança para os personagens deste filme. Todos são alvos e, ao redor deles, tudo é alvo em potencial.

O espectador acompanha neste momento a ação de um grupo de fuzileiros, em parte isolados das outras forças, lutando pela sobrevivência. E é isso que faz Stanley Kubrick: traça um panorama geral a partir de um caso em particular, um dos milhares de casos que acontecem a todo o momento nas guerras. É claro, as guerras são vencidas ou perdidas senão a partir da ação de grupos separados, e não de um ato heróico geral, como se uma nação vencesse outra de forma ríspida e concreta.  Cada soldado é realmente uma pecinha. E isso fica bem claro quando, na primeira cena, estão todos raspando seus cabelos, transformando-se em mais um número de série, tornando-se realmente homogêneos, robotizados, para cumprirem um objetivo: matar. E a dúvida que mais aflige é: durante a guerra, os instintos assassinos podem se encaixar perfeitamente com a realidade, mas, após o término dela, como estarão esses homens neste “mundo atolado em merda”? A cena final, dos soldados marchando no retorno para seus lares, cantarolando a música do Mickey Mouse, sob uma atmosfera de chamas e destruição, é uma daquelas visões apocalípticas que tardam a sair de nossos pensamentos.

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7 comentários sobre “Nascido Para Matar (Stanley Kubrick, 1987)

  1. Bacana a sua análise, Alexandre.

    Assisti o filme ontem e fiquei pensando na relação entre as duas partes. Eu achava que numa certa altura o soldado Joker ia assumir o comando do grupo e trazer à tona alguma coisa daquilo que tinha passado no treinamento, porque tudo parecia caminhar pra isso. Primeiro, ele saiu da redação pra trabalhar, de fato, na guerra; depois encontrou com um amigo do treinamento; disse ainda que não estava pronto pra encarar aquela realidade ainda… achei que com o tempo ele retomaria a postura tão firme que tinha assumido no início. No entanto, o mais perto disso foi no final, quando ele escolhe entre dar ou não o tiro na vietnamita. Também achei o “segundo ato” fantástico, cheio de cenas ousadas e surpreendentes, mas você não acha que faltou uma “amarração” um pouco mais forte entre as duas partes? Como é Kubrick, se essa falta de amarração não for da minha cabeça, provavelmente foi proposital. Que propósito pode ser esse?

    Abraço

    1. Fala, Luiz. Bom, são duas partes realmente distintas. Nem sei se o Kubrick tinha a intenção de “amarrar” uma à outra. Acho que não. Daria pra fazer dois filmes com o material de Nascido para matar – agora, concordo que, sem a primeira parte, seria um filme muito menos impactante. Temos a primeira parte, que mostra como, de certa forma, os militares treinam para se suicidarem ou como o próprio país pode se voltar contra si mesmo sem ter consciência disso. A segunda é a prática, é o estudo de uma pequena parte inserida num todo muito mais amplo. As duas se complementam, é verdade, mas não de uma forma assim, “orgânica”. Ambas convergem, sem necessariamente estarem “amarradas” entre si. Enfim… Acho que é mais ou menos isso.

      1. O momento em que os dois atos se amarram e na cena da morte da sniper, o clima fica tenso assim como no fim do primeiro ato. É uma sensação de que joker termina perturbado assim como lawrence ficou, e após o momento do tiro o filme leva a crer que joker iria se suicidar como lawrence. A entrada dos créditos com paint it black é sensacional.

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