As Três Noites de Eva (Preston Sturges, 1941)

The Lady Eve é um dos filmes mais engraçados que já se teve notícia. É uma obra-prima das comédias românticas. Excêntrica, sexy, dissimulada, divertida e refinada. Ela é tudo isso e um pouco mais. Os diálogos são rápidos, nos atingem como uma lança, e as situações são quase sempre divertidas ou guardam algo de inesperado. É impressionante como Preston Sturges realizou duas obras-primas em apenas um ano – além deste The Lady Eve, dirigiu Contrastes Humanos [The Sullivan´s Travels], que é ainda superior: é um dos meus filmes preferidos de sempre e que parece ser inexplicavelmente esquecido atualmente.

É claro que The Lady Eve não seria metade do que é não fossem as atuações de dois dos maiores do cinema americano: Barbara Stanwyck, interpretando uma amalucada e sexy trapaceira, e Henry Fonda, interpretando um herdeiro de uma grande cervejaria e herpetólogo – a química entre os dois é perfeita e rende alguns dos momentos mais sensacionais de todas as screwball comedies. Roger Ebert em sua crítica começa com a seguinte declaração: “Se me pedissem para nomear uma única cena entre todas as comédias românticas, que fosse a mais sexy e engraçada ao mesmo tempo, eu recomendaria começar aos seis segundos antes da marca dos vinte minutos do filme de Preston Sturges, The Lady Eve, e observar como Barbara Stanwyck brinca com o cabelo de Henry Fonda em uma sequência que dura três minutos e cinqüenta e um segundos. O braço direito dela ceifa a cabeça dele e, enquanto fala, Stanwyck brinca com o lóbulo da orelha e corre seus dedos através do cabelo dele. Ela provoca, brinca e flerta com ele, que permanece quase paralisado com sua timidez e autoconsciência.”

Concordo com ele e acrescentaria outra: a cena em que os dois passam sua segunda noite juntos, quando Barbara Stanwyck, na sua segunda persona, na noite de núpcias do seu casamento com Henry Fonda, enumera alguns dos seus vários (mas nem todos fictícios, é claro) amantes do passado, justamente para atingir e se vingar do rapaz – vejam o filme e entenderão -, enquanto o trem em que estão viaja furioso, apitando e esfumaçando, a atravessar túneis numa versão diametralmente oposta e ao mesmo tempo tão safada quanto a cena final de North by Northwest, do velho Hitch.

Além dos protagonistas, não poderia esquecer as atuações de Charles Coburn, Eugene Pallette, Eric Blore e William Demarest – não há, em verdade, uma única peça fora do lugar em todo o elenco. O título em português foi muito bem escolhido e diz mais do que aparenta: são três noites completamente diferentes, todas sob a direção de Eva, a fêmea, e todas com uma serpente por perto, capturada pelo personagem de Fonda e sob seus cuidados, presa em uma gaiola mas que, vejam bem, está sempre fugindo por aí…

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