A Dama de Shanghai (Orson Welles, 1947)

Este deve ser um dos mais estranhos filmes do gênero noir já produzidos. Em um momento, estamos no meio de uma ilha tão exótica quanto os personagens da história, e não dá para deixar passar um trecho de Na baixa do sapateiro evocando as lembranças de Welles do Brasil; em uma cena de perseguição, a trilha sonora vem de tambores tocados por nativos com crescente excitação à medida que o clímax se aproxima; em outra, Orson Welles dirige freneticamente rumo a uma armadilha, que vai se tornando cada vez mais intricada de uma forma que o seu personagem, assim como o espectador, não sabe mesmo o que esperar tamanha a loucura da situação, sendo praticamente passivo diante dos acontecimentos bizarros e inesperados que surgem em um espiral de insanidade e cobiça; há também uma cena de tribunal, cômica e inteligentíssima, quando o advogado de defesa é ao mesmo tempo réu cujas declarações serão usadas pelo promotor contra aquele que defende.

De todas as sequências, a última, a da galeria dos espelhos, não é apenas a melhor deste filme, como é também uma das mais geniais já filmadas em todos os tempos. Ela, assim como outros momentos de brilhantismo, prova que não há diretor como Orson Welles. É provável que nenhum outro use sua câmera tão bem e de uma forma tão viva quando está inspirado. Welles nasceu para o cinema, disso não há dúvida alguma. Em The Lady from Shanghai, mesmo que o filme seja acusado de ser lacunoso ou irregular, em parte porque os produtores encurtaram praticamente uma hora de película, os grandes momentos, e eles não são poucos, são suficientemente poderosos para o filme se sobressair como um triunfo cinematográfico ou pelo menos como uma obra de refinada peculiaridade, que apresenta, antes de tudo, vida própria.

E, claro, não poderia deixar de esquecer: Rita Hayworth, musa e esposa de Welles durante cinco anos, ainda que nas filmagens os dois já estivessem em processo de separação, uma das atrizes mais perfeitas que já se teve notícia, tem aqui uma interpretação magnífica, compondo uma personagem dúbia, ora sufocada pelos infortúnios da vida, lutando contra sua prisão conjugal, ora seduzindo os personagens com um veneno suave e inevitavelmente mortal.

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