Além da Vida (Clint Eastwood, 2010)

O novo filme de Clint Eastwood trata sobre um tema pouco comum na carreira do diretor e bastante em voga nos dias atuais: a relação entre a ciência e a vida pós-morte. Tudo bem que poucas pessoas teriam a sensibilidade de, em um faroeste ou em qualquer outro gênero do cinema, resumir de forma tão simples e intensa o que representa um assassinato qualquer: “É tirar tudo o que alguém tem e tudo o que ele alguma vez terá” – palavras do seu personagem William Munny em Os Imperdoáveis [Unforgiven, 1992]. Mas a investigação do que acontece após a morte, pelo menos de forma tão explícita, é algo inédito na carreira do ícone de 80 anos – e isso não é, como imaginamos, por acaso.

É claro que o destino é incerto. Clint pode viver mais vinte anos – e eu, que tenho vinte, posso não estar aqui daqui a uma semana. Mas, considerando o fluxo natural das coisas, é certo que o mundo material do diretor está próximo de seu fim, assim como a resposta definitiva para o que vem depois finalmente chegará – mas ele já não poderá contar a ninguém. É tudo ou nada. E é isso que vem torturando as pessoas há séculos. Mas eu não quero pensar sobre isso. Vamos falar sobre o filme.

Hereafter, em linhas gerais, parte do princípio de que alguma coisa acontece após a morte. Clint Eastwood pessoalmente pode ser um grande ateu, mas neste filme ele não é. E o público também precisa acreditar nele para absorver a história, pelo menos durante a sessão. O motivo para embarcar nessa via é simples: Clint Eastwood. Há credibilidade neste nome. E foi nisso que eu me segurei depois que os créditos iniciais surgiram.

Os três personagens centrais de Hereafter são os seguintes: um médium, interpretado por Matt Dammon, que possui o dom de se comunicar com os mortos; uma jornalista francesa, vivida por Cécile De France, sobrevivente do tsunami de 2004; e um garoto que acabara de perder seu irmão gêmeo, piorando ainda mais a sua vida tão sofrida. O primeiro precisa encontrar um modo de se distanciar da sua sina, para ele mais uma maldição do que um dom; a segunda teve uma experiência de quase-morte, sentiu e viu coisas que fizeram mudar completamente sua visão de mundo e procurar respostas; o último, após a tragédia, incorpora a personalidade do irmão morto e busca de todas as formas falar com ele. As trajetórias dos três irão se cruzar, como manda Hollywood.

Há pessoas que vêem problemas nesse cruzamento do destino entre os personagens do filme. Eu não vejo dessa forma. Tudo é uma questão de narrar a história de uma maneira lúcida e verossímil, sem apelar para a pieguice que filmes desse tipo geralmente trazem. E Hereafter realmente não sucumbe porque por trás do projeto há um grande nome – ainda que o filme tenha uma ou outra cena cafona, uma ou outra hollywoodiana demais (no sentido negativo do termo) e escorregue no didatismo quando Matt Dammon tem suas visões – eu quero dizer, por que mostrar tantas vezes os mortos naquele túnel escuro? Tudo bem, muitas das pessoas que passaram por experiências de quase-morte convergem nesse ambiente espiritual, mas insistir nos flashes dessas viagens mediúnicas só deixa tudo enlatado demais, não?

Mas o filme, no final das contas, é bom. A curiosidade humana sobre sua existência é um tema que rende bastante – e a morte sempre será um enorme mistério. A grande vantagem de Hereafter é justamente aproximar essa questão com a ciência. Clint Eastwood quer dizer que, se há respostas a serem encontradas, só a ciência pode se encarregar de tal tarefa com credibilidade, investigando o cérebro humano e as pessoas que passaram por experiências incomuns mas que apresentam uma certa conformidade – que pode, sim, significar algo. Quando o garotinho decide procurar videntes para se comunicar com seu irmão, joga fora seu escasso dinheiro com charlatanismo, e só por sorte que se encontra com uma pessoa realmente especial – uma única entre várias. Muitos charlatães lucraram e continuam lucrando com isso, mas é possível que realmente existam pessoas diferenciadas que devem ser investigadas pela sociedade.

Já no final do filme, quando a personagem de Cécile De France conclui o seu livro após investigações sérias, ela termina a apresentação para a platéia dizendo que ainda há muito a se fazer e que, após centenas de páginas, pouca coisa mudou. Mas uma cientista no filme, em rápida aparição, afirma que a sociedade ainda não atentou para os indícios, além de levantar a questão da existência de interesses que uma busca desse tipo poderia atingir. Ou seja, pelo menos um passo foi sugerido por este filme.

Mas Hereafter não tem mesmo a intenção de mudar o curso da humanidade ou levantar polêmicas. Ele trata sobre questões espirituais, porém insiste no fato de que, alheio a tudo, é esta vida que temos, e que as relações com as pessoas e as nossas experiências devem ser encaradas como uma forma de crescermos individualmente através de um ângulo positivo. Sempre à procura de um futuro melhor, mesmo que ele seja, no final das contas, incerto.

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2 comentários sobre “Além da Vida (Clint Eastwood, 2010)

  1. Ainda não vi o novo do Clint, mas não perco por nada. Só não fui no último fim-de-semana porque queria ver O Concerto (e desde já recomendo. filmaço!). Ver o Eastwood se reinventando na carreira é sempre bom!

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