O Discurso do Rei (The King´s Speech, 2010)

Tinha uma previsão para The King´s Speech: um filme de interpretações – bom filme, tradicional, sem grandes surpresas, lembrado mais pelo elenco do qualquer outra coisa. Felizmente este trabalho de Tom Hooper (que eu, sinceramente, nunca tinha ouvido falar) está muito além desse patamar. É um grande, grande filme. A comparação com The Queen [A Rainha, 2006] é inevitável: enquanto este segue rigidamente um modelo e afasta o público daquele elitismo monárquico desinteressante, The King´s Speech faz justamente o contrário. Aqui, o pai da rainha Elizabeth II, George VI, precisa superar um enorme abismo: sua fala. Um representante da monarquia a tropeçar em algo assim aparentemente tão banal, apenas isso já é suficiente para nos aproximarmos desse ser humano inseguro e pressionado – que, no fundo, não escolheu fazer parte de uma instituição tão rígida. Mesmo com todas as suas regalias, nós percebemos que há um certo fardo a ser carregado: apenas um filme tão sensível poderia provocar esse ponto de vista no público.

A obstinação de George VI para superar seu problema só começa a dar resultados quando ele, que chegou a ser rei apenas por uma artimanha do destino, conhece um legítimo plebeu de poucas recomendações na fonoaudiologia – o grande personagem de Geoffrey Rush, um homem simples mas cheio de vida interior, tão gentleman quanto o monarca.  Sim, senhores, é esta uma das grandes mensagens do filme. E a amizade entre os dois é uma das coisas mais lindas que passou pelo cinema ultimamente. Juntos, para superar um obstáculo, dentre os vários de seu período histórico – afinal de contas, estamos na véspera da Segunda Grande Guerra –, obstáculo aparentemente simples mas um grande abismo para quem com ele convive. É através de algo assim tão inusitado que The King´s Speech atinge aquilo que chamamos grandiosidade.

Tecnicamente falando, o filme é também um primor só. As atuações – em especial as de Colin Firth, Helena Bonham Carter e Geoffrey Rush – são impecáveis. Se o primeiro não ganhar o Oscar, mudo meu nome – é barbada, como tem que ser. A fotografia elegante, discreta. Há um fluxo na narrativa tão bem feito que nós nunca nos distraímos com alguma inconveniência ou tentativa da câmera em ser protagonista. Se David Fincher, favorito ao Oscar de direção, apostou no conservadorismo em The social network, em parte ele acertou porque evitou afetações típicas, mas por outro lado falhou por uma certa ausência de identidade tão necessária para sua narração (ainda que este seja um ótimo filme). Tom Hopper, por sua vez, é conservador, mas proporcionalmente até menos do que Fincher, se levarmos em conta os limites naturais dos seus projetos. Mas na verdade nada disso importa. É a história, verídica, de amizade e superação, que faz de The King´s Speech inesperadamente poderoso e imponente.

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