Idílio Perigoso (Jacques Tourneur, 1944)

Experiment Perilous começa com uma combinação que eu considero irresistível: um trem vaga para o leste em uma noite terrível de trovoada; ouvimos a voz do protagonista relembrando como começou “a história mais impressionante de sua vida”. É o encontro dele com uma simpática senhora que irá tirá-lo do seu caminho natural – o exercício da medicina – para uma investigação sobre uma família aristocrática tradicional. Estamos bem no começo do século 20 e a senhora, logo irá revelar, pertence a essa família – os Bederaux. Seu irmão é famoso, chama-se Nicholas, casado com uma das mulheres mais belas da sociedade nova-iorquina de então, Allida – sobre ele, para quem havia dedicado toda a sua vida, a senhora está prestes a publicar uma biografia absolutamente reveladora. Não conseguirá, pois, no dia seguinte, a notícia de sua morte chegará ao herói da trama.

George Brent faz o tipo médico que nós geralmente consideramos bom: sereno, um pouco passivo, desinteressante. Mas após a morte da senhora em circunstâncias – sabe ele – duvidosas, resolve investigar sobre sua família. É bem verdade que a beleza estonteante e fatídica de Hedy Lamarr tenha sido o principal motivo para seu desconcerto: antes de encontrá-la pessoalmente, vira sua pintura em um museu numa cena que lembra bastante todo aquele clima de Vertigo. As aparências tornam-se ainda mais fortes, mas logo se encerram, quando Nick Bederaux pede para o médico investigar o possível desequilíbrio emocional de sua esposa que, segundo ele, tem provocado pesadelos e visões terríveis no filho e único herdeiro do casal.

Experiment Perilous é um tipo de noir mais refinado e sóbrio. Sua estória de mistério, com flashbacks que servem para juntar as peças de uma investigação que gira em torno da figura feminina, de beleza estonteante porém não fatal, é bem envolvente e com momentos que impressionam, tanto no aspecto estético quanto no comportamento dos personagens. Hedy Lamarr interpreta uma moça perturbada e praticamente aprisionada pelas vontades do marido – uma rápida pesquisa mostra que algo semelhante aconteceu com a própria atriz no seu primeiro casamento: Friedrich Mandl, um fabricante de armas com inclinações nazistas, tendia a controlar sua vida e a deixava presa em sua própria mansão. Aqui, Paul Lukas vive o marido ególatra e sádico, na melhor interpretação do filme.

Jacques Tourneur foi um mestre – o primeiro mestre do mistério sobrenatural, nas palavras de Martin Scorsese – e um dos que mais souberam trabalhar com baixos orçamentos apostando na imaginação do público: “Quanto menos você vê, mais acredita. Você não deve jamais tentar impor suas visões ao espectador, mas sim tentá-las instigá-las gota a gota”, dizia. Experiment Perilous não envolve temas sobrenaturais ou sinistros, ao modo de I walked with a zombie ou Cat people, mas como consegue instigar nossa imaginação! Especialmente com relação ao filho do casal: nós sabemos que há algo errado com ele e nos perguntamos como ele será; até mesmo fisicamente estamos preparados para qualquer coisa: Jacques Tourneur habilmente brinca com nossas expectativas e mantém o suspense até o momento certo.

Experiment Perilous pode não estar no nível das melhores obras do diretor, mas é um bom filme, com roteiro rebuscado, fotografia expressionista elegante, melancólico e certamente um dos seus filmes de maior orçamento, vide uma grandiosa cena de explosão, que inclui vários aquários sendo quebrados em uma mansão tomada pelas chamas.

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3 comentários sobre “Idílio Perigoso (Jacques Tourneur, 1944)

  1. Touneur, hein?! Não dou nem meio-dia pro Cain chegar aqui e falar que é obra-prima.

    Mas nunca vi nada desse maluco aí. Apesar da curiosidade ser monstra.

    Gostei muito da screen que você colocou. Há uma simetria meio desequilibrada, quase hipnótica.

    1. Hahaha, depois peça pro Caio te contar a história do dia em que ele viu Cat People. O Tourneur é foda, para mim o melhor filme dele é Expresso para Berlim, absolutamente uma obra-prima!

  2. Tourneur é muito bom, mas esse filme é uma de suas obras menores, embora seja bonito visualmente e tenha um elenco atraente. A Hedy Lamarr, bela como nunca, prova mais uma vez que não sabia representar, mas nem precisa, é uma estrela, como Dietrich ou Hayworth.
    Abração

    http://www.ofalcaomaltes.blogspot.com

    – Se possível, deixe os seus favoritos ao Oscar deste ano lá no blog. Só cite os que desejar, não precisa ser a lista toda…rs

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