A Longa Caminhada (Nicolas Roeg, 1971)

Walkabout é um filme sobre o estado de natureza humana e as limitações da linguagem. Não por acaso, é através das imagens que o diretor Nicolas Roeg quer passar suas idéias. Aliás, poucos filmes são visualmente tão arrebatadores quanto este: o deserto australiano, seu solo escasso, as grandes elevações rochosas, os animais exóticos, as cores no céu – não há como negar o impacto causado pela diversidade da natureza, ela existe independentemente de nossa vontade, mas é o trabalho de câmera e fotografia – por esta responsável o mesmo Roeg – que a potencializa para o espectador no cinema. Um John Ford, creio, não poderia fazer melhor. O deserto australiano em Walkabout, assim como o Monument Valley nos faroestes de Ford, é também um personagem, o mais amplo, despersonalizado e ao mesmo tempo cheio de vida, dos quais os personagens tanto contemplam como temem.

São com essas palavras que o filme começa: “Na Austrália, quando um aborígene completa 16 anos, ele é obrigado a vagar pela terra. Durante meses deve viver dela. Dormir sobre ela. Comer de seus frutos e de sua carne. Sobreviver, ainda que para isso tenha que matar outras criaturas. Os aborígenes chamam isso de Walkabout. Esta é a história de um Walkabout.” O trecho deixa claro qual é o personagem central do filme. Mas ele, interpretado por David Gulpilil, só aparece após uns trinta minutos de narrativa: até este momento são dois irmãos brancos que carregam o espectador para dentro de uma jornada estranha e inesperada. De classe média alta, são abandonados pelo pai no deserto – a circunstância é das melhores do filme, abrupta e até mesmo bizarra, quando, sem muitas explicações, viram alvo do próprio procriador: em um piquenique aparentemente inocente, ainda que sob circunstâncias duvidosas, este saca sua arma e atira em direção às crias, que fogem e se escondem, para nunca mais reverem o pai com vida, já que após falhar nos assassinatos, este aperta o gatilho contra si.

Na verdade, a seqüência não é assim tão dúbia. Revendo as primeiras cenas, tem-se a certeza de que algo de errado aconteceu com o emprego do pai (nenhum personagem do filme tem nome próprio): talvez ele tenha sido demitido ou simplesmente tenha irreversivelmente cansado de sua profissão. Decidi aceitar a primeira sugestão: não por acaso, antes de surtar, ele tenha direcionado aquele olhar reflexivo sobre sua casa e estilo de vida confortável – como conseguiria sustentar isso em diante? Seria melhor acabar com tudo de vez. Mas, na verdade, o que importa efetivamente é que a sua reação contra os filhos levará adiante a história: sem ela o encontro entre as crianças e o aborígene não aconteceria – em outras palavras, a barreira cultural entre eles é tão grande que apenas um fato completamente inesperado poderia propiciar esse encontro.

São dois mundos que se cruzam em Walkabout: o civilizado com o estado de natureza – em um ambiente sem dono, com várias espécies de animais a conviverem entre si, na eterna cadeia alimentar que sustenta o planeta: aliás, poucas vezes os animais foram tão bem aprofundados, especialmente em relação aos seus instintos predadores, potencializados por closes claramente influenciados pelo The wild bunch de Sam Peckinpah. Essas duas realidades se encontram, ambas à procura do instinto mais básico da personalidade humana: a sobrevivência. O que somos nós além de aborígenes civilizados? Este parece ser um dos ecos do filme. Quando as convenções são minimizadas para dar lugar à necessidade de sobreviver, os seres humanos se tornam bastante semelhantes – mas, e isso é o mais importante, os preconceitos, enraizados no nosso subconsciente continuam lá à medida que nos adaptamos mais aos parâmetros da vida social. Não por acaso, é o menino pequeno (Luc Roeg, filho do diretor) que mais se aproxima do aborígene: menos influenciado pelos padrões de comportamento e, de certa forma, menos vítima das limitações da língua, ele acaba por se interessar mais pelo outro e os dois chegam até mesmo a se entender, o que não acontece da mesma maneira com a garota – filmada de uma forma ousada, um pouco exagerada e inaceitável nos dias de hoje: a câmera explora o corpo e a sensualidade inata de Jenny Agutter, bela e menor de idade, sugerindo seu lado sexual a ponto de mostrá-la completamente nua em algumas cenas.

Mas, estando na natureza, e já quase adulta, ela é atraída por ele. A tensão sexual entre ambos é latente, porém não chega a se concretizar. Primeiro, porque não conseguem se comunicar. Segundo, porque talvez não se enxerguem como semelhantes. Há uma enorme barreira cultural os separando: suas necessidades nunca ficam claras, pelo contrário, à medida em que afloram, parecem mais estranhas e a relação chega ao ponto de parecer ameaçadora. Em um momento da história, torna-se realmente difícil compreender o comportamento do aborígene quando pinta seu corpo de branco e inicia um ritual. Tudo acontece quando ele presencia a caça devastadora de homens brancos: não para satisfazer as necessidades imediatas, mas para comercializar em grande escala. Isto é, por si só, um exemplo da posição diametralmente oposta das duas figuras.

Quando o jovem negro, mais do que nunca, conscientiza-se dessa realidade, prepara-se para um ritual direcionado à garota. É mesmo difícil saber o que ele significa realmente. Seria uma atitude ameaçadora contra o inimigo, intruso na natureza? Ou uma espécie de dança para o acasalamento? Teria ele, entre esses dois extremos, se apaixonado pela garota branca – e, portanto, pecado irreversivelmente de uma forma que apenas a morte representaria a redenção? Ou, quem sabe, teria cumprido “sua missão” após encontrar, momentos antes, a estrada que levaria os irmãos de volta para casa? O certo é que, qualquer que seja sua intenção, ela não é correspondida.

Essa sensação de dúvida em momentos-chaves como esse não são por acaso: mostram como a língua, ao mesmo tempo em que proporciona a comunicação entre os seres humanos, limita o alcance da denominação para as sensações mais elevadas, como os sentimentos e a contemplação quase mística das coisas. Portanto, é uma verdade absoluta que, muitas vezes, uma imagem diz mais do que várias palavras. E é nisso que Walkabout se sustenta, com um trabalho de montagem além do tradicional que se tornou marca registrada dos filmes de Nicolas Roeg.

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6 comentários sobre “A Longa Caminhada (Nicolas Roeg, 1971)

  1. Olá Alexandre,

    Sou leitor do Análise Indiscreta e sou cinéfilo de carteirinha. Eu estou mandando esse email porque estou trabalhando numa empresa que desenvolveu um portal sobre cinema – o Cinema Total (www.cinematotal.com). Um dos atrativos do site é que você cria uma página dentro do site, podendo escrever textos de blog e críticas de filmes. Então, gostaria de sugerir que você também passasse a publicar seus textos no Cinema Total – assim você também atinge o público que acessa o Cinema Total e não conhece o Análise Indiscreta.

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    Um abraço,

    Marcos
    http://www.cinematotal.com
    marcos@cinematotal.com

  2. Olá. Sua análise está muito boa. O filme é de 1971, e a atriz nasceu em 1952. Portanto, ela tinha 18 ou 19 anos, não era menor de idade quando o filme foi rodado (a personagem, sim, ao que tudo indica, era menor). Acabei de assistir o filme, e a cena da morte do aborígene foi a que mais me intrigou, por isso vim pesquisar sobre o filme.

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