Delírio de Loucura (Bigger Than Life, 1956)

Em Bigger than life, James Mason – responsável também pela produção do filme – vive um professor tradicional, um homem evidentemente capacitado que, por esses problemas da vida, acabou não tendo o reconhecimento merecido. Vive com dificuldades em um bairro de classe média, com esposa e filho pequeno – sem a família saber, trabalha vespertinamente para uma empresa de táxi. Apesar de frustrado, nota-se sua perseverança em manter a casa feliz – e, aos trancos e barrancos, vai conseguindo. Mas tudo muda quando lhe é diagnosticado uma doença rara nas artérias. Para sobreviver, submete-se a um método pouco testado: o tratamento com cortisona. Tratamento para toda vida e sob controle rígido: uma pílula a cada seis horas.

A situação é mais ou menos esta: se a medicação for interrompida, ele morrerá – e, morrendo, o que será de sua família? Também na circunstância oposta, o uso exagerado poderá acarretar sérios problemas psicológicos. Para se livrar do efeito normal de bipolaridade após o tratamento – um James Mason instável, ao mesmo tempo com excesso de felicidade e sensação de grandeza (financeira e intelectual) e, do lado oposto, com crises de melancolia e ansiedade – ele aumenta as doses da medicação: o resultado, como se previa, é um enorme abalo de personalidade que modificará a vida de toda a sua família.

Aquele professor esforçado e aparentemente liberal se transforma em um educador com tendências conservadoras. Quase um militar. Para esse novo homem, a infância é “uma enfermidade que só pode ser curada através da educação rígida.” Prega isso nas reuniões escolares, causando espanto em alguns e admiração em outros naqueles tempos da bomba atômica e da perseguição aos comunistas. Na sua casa, passa a ser grosso com a esposa e ameaçador com o filho – tudo para fazê-lo ser um homem “de verdade” no futuro, bem-sucedido tanto nos estudos como nos esportes. Até mesmo o seu casamento está, na visão dele, encerrado por “diferenças intelectuais inconciliáveis”. Chega até a questionar as palavras da bíblia, esbravejando em momento crucial do filme as seguintes palavras: “Deus estava errado!”

Não restam dúvidas: este homem está achando que é grande demais. Alguém precisa interromper seu vício e conseqüente loucura antes que seja tarde. Resta à mulher, típica dona de casa, se libertar e tomar algumas atitudes pontuais – a personagem de Barbara Rush, nessa transformação do marido, passa a ser um pouco mais independente porque agora a responsabilidade do bem-estar da família está praticamente em suas mãos. É bem verdade que a ajuda de um amigo próximo, interpretado por Walter Matthau, nesse processo é fundamental, mas a grande força do filme é mesmo a dona de casa.

Nicholas Ray era realmente um mestre no uso do CinemaScope: a amplitude da imagem neste filme se relaciona perfeitamente com as várias possibilidades de alcance da insanidade de James Mason – graças também, é claro, ao enorme talento do ator. A grande cena do filme, de influência hitchcockiana, é o melhor exemplo de sintonia entre os dois gênios. Nela, Mason sobe as escadas em direção ao quarto do seu filho para sacrificá-lo como resposta a uma “visão divina”: está com uma faca em mãos, pronto para o crime, mas logo sua visão é distorcida e completamente tomada pelo vermelho – ele é incapaz de matar: a deturpação de sua personalidade, neste ponto, chega ao limite e sua verdadeira consciência reage com repulsa biológica. Mas nunca ele se livrará das pílulas – e poderá passar por situações semelhantes indefinidamente.

Bigger than life é mais do que um filme de drama familiar. Retrata bem os efeitos da bipolaridade e do vício nessa instituição básica chamada família. É um filme sobre união, mas não teria metade de sua força se Nicholas Ray o tratasse mais como um melodrama do que um thriller de enorme tensão psicológica. O título do filme ainda é uma incógnita para mim – o que é, exatamente, maior que a vida? Seria a complexidade da mente humana? Ou a força do companheirismo? Ainda não sei com segurança. O que parece certo é que, somente a família, com paciência e compreensão, poderá evitar que aquele professor, frustrado mas digno, tenha novas recaídas e se torne em um psicótico ególatra.

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