A Rosa Púrpura do Cairo (Woody Allen, 1985)

The purple rose of Cairo é a grande homenagem de Woody Allen ao cinema – mesmo que, verdade seja dita, nenhuma cena deste filme supere aquele final de Hannah and her sisters, praticamente uma refilmagem, sob uma ótica mais otimista, da cena também derradeira de The purple rose of Cairo: a questão do cinema como válvula de escape aos infortúnios da vida, repleta de adversidades mas com momentos que valem a pena ser vividos, mesmo que ilusoriamente – porém, há mesmo um limite que devemos compreender entre a dura realidade e a criação pré-concebida, mais ou menos como o limite entre o que imaginamos do céu e da vida após a morte e nossa existência real, passageira e que não pode, absolutamente, ser roteirizada.

Mia Farrow vive uma apaixonada pelo cinema a ponto de ele se confundir com sua própria existência – sua rotina simplesmente não funciona sem ele, ainda mais nos tempos difíceis da depressão econômica e com seu casamento fracassado. Aliás, criar uma personagem frágil e trabalhadora (é ela quem leva dinheiro para casa) cheia de vida interior apesar de sua vidinha triste e repetitiva, sem fazer dela uma solteirona amargurada, foi mesmo o caminho certo a ser seguido – e, na década de 80, Woody Allen sabia como poucos escolher os melhores caminhos. Não há como não gostar de personagem tão adorável, que de tanto ir ao cinema faz com que um dos personagens (em atuação igualmente carismática de Jeff Daniels) não consiga mais se concentrar no seu papel e, como por milagre, saia da tela rumo à liberdade que não encontrava preso a um script, deixando o restante do elenco desnorteado e o público perplexo, sem acreditar no que está a ver. Ou seja, se por um lado, a personagem de Mia Farrow vaga rumo ao irreal, o personagem-personagem de Daniels quer ser humano, verdadeiro – e até custa a aprender os nossos defeitos.

Uma sucessão de absurdos ocorre em The purple rose of Cairo, mas em verdade não importa como essas coisas acontecem – elas simplesmente acontecem, naquela proposta de o filme se assumir mesmo como homenagem ao poder do cinema. É um surrealismo despretensioso, mais concreto e acessível – nós simplesmente não nos importamos com o que ele pode significar, apenas acompanhamos a inventividade da história e adentramos na jornada pessoal da pequena heroína naquele universo felliniano e tão cheio de otimismo dos filmes americanos antigos frente à crise. Mia Farrow faz mesmo uma mulher alienada – mas não tanto no sentido depreciativo da palavra: afinal de contas, não há muito que fazer naquela situação. Ora, o que acontece hoje em dia é ainda pior (nada se compara aos lixos televisionados). Ela simplesmente não deu sorte, ou seja, assim como quase todos do seu período, não conseguiu remar contra a maré – mas pelo menos internamente vive um mundo diferente, só seu, ainda que construído na chamada fábrica dos sonhos.

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