Um lugar qualquer (Somewhere, 2010)

“Tudo bem, já entendi, vamos logo com isso.” Primeira cena de Somewhere e esse pensamento passando pela minha cabeça. O carro deu uma, duas, três voltas em uma pista no meio do deserto – e aí eu já estava cansado. Foram mais duas ou três voltas: o carro aparecia em um plano mais próximo, sumia e ouvíamos apenas o barulho do seu potente motor, aparecia de novo em um plano mais distante, sumia e depois reaparecia mais próximo. Nenhuma trilha sonora, apenas isso, cinco vezes – ou uma vez mais, talvez duas. “Certamente”, logo pensei, “não é dessa forma que eu devo ver o filme.” Respirei fundo, me ajeitei melhor na poltrona, e comecei a contemplar a obra.

Contemplar a obra. A certa altura do campeonato o amigo que estava do meu lado disse, notando meu desconforto: “Calma, isso tudo tem um motivo.” Mais ou menos assim. Está sofrendo? É assim mesmo, tem um motivo. Entediado? Há, no fundo, um motivo. Quer sair do cinema correndo? Bobagem, espere até ver a essência do filme. Aposto que todo mundo no cinema não estava exatamente gostando daquilo, mas acreditando que deveria ser assim mesmo – e a obra, sendo superior, não deveria ser vista, mas contemplada, em absoluto silêncio, plenamente. Os planos mais longos não são um desperdício, pois dizem algo. Tudo quer dizer algo, até mesmo o microfone aparecendo amadoramente em duas cenas do filme. Depende apenas do público perceber a grandeza dos detalhes – porque a autora deixou tudo lá, ora bolas.

O leitor deve estar imaginando que eu detestei o filme. Mas não, em verdade não é um filme detestável. Mesmo sendo pretensiosa demais, Sofia Coppola sabe amenizar a situação com seus personagens bonitinhos, com seu universo de música pop bacana e tal. É claro que a garotinha do filme (Elle Fanning, irmã da Dakota) é adorável, sendo a melhor personagem – graças a ela, começamos a nos interessar pelo seu relacionamento com o pai (Stephen Dorff), um ator de cinema mundialmente conhecido, um talento comparável a Al Pacino, que tem o nome artístico de Johnny Marco e uma vida entediada. Vazia. Improdutiva. Tem dinheiro, carros e mulheres – mas lhe falta algo.

O mesmo pode se dizer em relação ao filme: falta-lhe algo. O que, exatamente? Pois bem… Que tal um enredo? Não é coisa básica em uma história? É o tipo de coisa que eu não consigo entender: um filme que trata do vazio existencial, do tédio, tem o direito de ser vazio e tedioso? Que eu lembre não me sinto dessa forma quando vejo os filmes de Antonioni. Ou Bergman. Então, o problema é com o filme. Ou comigo. Talvez ele não queira ser profundo. Talvez seja apenas um relato de um mundo que a diretora conhece bem. Seu La dolce vita não é escandaloso, não é surpreendente e não salta aos olhos porque ela sempre fez parte daquilo: ao contrário, sua atitude é muito mais de compreensão.

O que me incomoda são os pequenos truques. Aqueles longos planos em que nada, ou pouca coisa, acontece – e que querem mostrar “como é vazia a vida de um ator de cinema ou de um milionário”. Quando o protagonista, que no dia-a-dia fica dando uma de Bogart, senta no sofá de sua casa e fica olhando para o nada: um homem solitário. Ou quando vaga de carro pela cidade sem destino definido: um homem solitário e perdido. Ou quando observa suas garotas fazendo strip-tease, chegando até a dormir no final da “sessão”: um homem solitário, perdido e que não agüenta mais as voltas e voltas de sua vida. Ou, pior cena do filme, quando fica um tempão sentado em uma cadeira esperando a maquiagem (de envelhecimento do rosto) fazer efeito. Diabos, quem disse que mostrar a mesma imagem durante minutos intermináveis faz dela algo mais intenso? Para mim, só a torna mais insuportável.

Ora, é coisa das mais fáceis explorar o tédio em nossas vidas. Vamos filmar aquela uma hora perdida no trânsito, seja no carro, ou pior, no ônibus. Ou aquela aula interminável na faculdade. Ou quando estamos no banheiro. O que eu quero dizer é que isso tudo acontece com todo mundo – explorar esses momentos desperdiçados, da forma que Sofia Coppola o faz, me parece uma tática aproveitadora. Aí as pessoas, tipicamente de classe média, ficam imaginando como falta tanta coisa naquela vidinha – como se as deles não fossem assim, só que pior, sem dinheiro!

Então, se a diretora quer dizer que esse tipo de coisa acontece com todo mundo, independentemente de sua classe social, até mesmo quando se é uma celebridade, neste sentido o filme leva alguns pontos. Mas sua melhor “mensagem” é mesmo atribuir aos amigos e, muito mais ainda, à família o centro da vida – é difícil imaginar que uma pessoa completamente sem família seja realmente feliz. Johnny Marco tem somente uma filhinha – apenas no final do filme percebe como o seu distanciamento com ela tem conseqüências também na sua vida. Talvez neste momento ele se torne um pouco menos egoísta. Um homem que cresceu e encontrou um ponto mais concreto, algo a se concentrar dali em diante.

Inaceitável, porém, é aquela última cena, puro clichê, quando sai do seu carro esportivo, deixando-o ligado e com chave dentro, para andar, “com seus próprios pés”, pela longa estrada, apenas ele e o horizonte à frente. A bobagem desse momento se encaixa bem na tal “essência” do filme – cai a máscara. É quando finalmente termina aquela interminável meia hora derradeira, tão sem consistência que qualquer cena poderia ser a última (essa expectativa provavelmente não é proposital). Mesmo assim espanta a escolha da diretora – não poderia ser um pouco mais chic?

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4 comentários sobre “Um lugar qualquer (Somewhere, 2010)

  1. Cara, muito bom seu texto. Até recomendei pra minha namorada (que amou o filme) e uma amiga (que odiou o filme). Vamos ver suas reações…

    De qualquer forma, fico mais com a primeira. Entendo perfeitamente sua posição, mas, como disse, acho que entre sentir tédio “com” o filme e sentir tédio “do” filme, ele me causou mais a primeira sensação. Concordo que esse plano de 5 minutos da maquiagem é exagerado, mas esse da sua primeira screen é inteligentíssimo… e no saldo final, o filme me agradou.

    E mesmo não tendo “enredo”, girando somente em torno do tédio, do vazio, etc… no final do filme estava envolvido com aquilo tudo… e a cena do helicóptero (correspondente ao final de Lost in Translation) mexeu comigo…

    Mas sim, é tudo bem esquemático… e olha que este é só 4º longa da moça… nisso concordo com o Boaventura que disse que o filme parece ter nascido com 10 anos (ou algo parecido, não dá pra conferir agora… :-P)

    Enfim… só vim elogiar o texto e dizer que entendi perfeitamente seu ponto… só não foi (tanto) assim que reagi ao filme…

    Abs,

    1. Bernardo, meu velho, o texto dá a impressão que eu detestei o filme (preferi mesmo ressaltar os pontos negativos), sendo que na verdade eu apenas achei fraquinho. Não dá pra odiá-lo por causa da adorável Elle Fanning, das gostosas e dos belos cenários (tem também umas cenas bonitas, como a da piscina). Respondendo, então, a pergunta abaixo: nota 5.5 (fica quase na média). Minha irritação tem a ver com as cenas pretensiosas (não são poucas) e com os truques que eu citei. É um filme que quer ser europeu demais. A Sofia quis dar uma de Antonioni e fracassou, na minha opinião. É isso. Abraço!

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