O Veredicto (Sidney Lumet, 1982)

Observação: O texto a seguir revela aspectos importantes da trama.

Poucas vezes um personagem foi tão duramente apresentado ao público como Paul Newman nos primeiros minutos de The Verdict: ele fuça a seção de enterros do jornal para comparecer aos funerais na cidade e divulgar seu cartão de advogado (“se precisar, estou por aqui…”) aos familiares mais próximos. Não é preciso mais para demonstrar a falta de escrúpulos desse homem, pensa o espectador. Um julgamento feito a partir de indícios que induzem a um todo. Mas apenas uma parte do todo foi nos apresentada e, portanto, não devemos, apenas com ela, chegar a uma conclusão segura. É preciso mais para nos aproximar ao máximo possível da verdade. Ou pelo menos de sua essência, até porque ela é multifacetária. E é exatamente sobre essa busca, a mesma de 12 angry men, que se baseia mais este grande filme de Lumet.

Quando o personagem de Paul Newman recebe a notícia de seu amigo e ex-professor de direito, interpretado por Jack Warden, que seu caso de 18 meses está se aproximando do julgamento, ele vê a chance de seus problemas financeiros terminarem. Principalmente porque as chances de um acordo conciliatório são grandes e generosas: o caso envolve uma paciente de um respeitado hospital católico que, devido a uma negligência médica, vem a óbito durante o trabalho de parto. O processo público não interessa à arquidiocese, que não quer abalar sua reputação e os nomes de dois dos seus mais importantes médicos, e para isso oferece uma boa quantia à família da vítima (apenas uma irmã e cunhado) em troca do silêncio. Momento importante da trama, mostra a hipocrisia envolvendo religião e política.

Antes do acordo, Paul Newman vai até o hospital, no leito onde a vítima está em coma, e tira duas fotos dela apenas para ilustrar a negociação: aguarda a revelação progressiva das imagens que, aos poucos, vai mostrando o que está em jogo – a justiça em relação à perda de uma vida humana. Neste momento, certamente um dos melhores do filme, a consciência do advogado, outrora digno e cheio de princípios, vem à tona e ele relembra quem, no fundo, é. Este é verdadeiramente o momento da revelação e não é exagero afirmar que Newman enxerga, naquela mulher em estado vegetativo, um pouco de si mesmo.

Agora, mais do que salvar sua vida financeira, o caso é a última esperança para sua redenção pessoal – para não mais ser um “sanguessuga” fracassado. Momentos depois sua vida é rapidamente resumida à sua namorada, interpretada por Charlotte Rampling: “advogado brilhante; casa-se com a filha do dono de uma grande firma; tem uma vida confortável; descobre um caso de suborno da firma para um júri; resolve denunciá-la, mas, antes disso, como por mágica, é preso pela mesma denúncia; depois desse episódio, vem a completa decadência até o momento presente.” Agora, sim, as peças começam a se encaixar melhor e o público, de forma mais segura, pode traçar a personalidade daquele homem que até então parecia disposto a se corromper por qualquer coisa.

The Verdict trata dos podres de um caso importante, envolvendo, de um lado, uma instituição de grande poder econômico, com toda uma equipe em sua defesa, tanto de advogados e homens da imprensa, como daquela força que chamamos suborno, e de outro, o cidadão comum, com pouco dinheiro e influência, defendido por Newman. As chances de vitória deste caem consideravelmente quando sua principal testemunha de acusação, um médico “cheio de princípios morais”, é comprada e vai tirar uma semana de férias em uma ilha do Caribe. Além do mais, o advogado do outro lado, vivido pelo grande James Mason, é “o príncipe das trevas”, um dos mais bem-sucedidos do país, capaz de tudo para vencer. Um dos meios de sua firma, neste caso, é ter uma informante – Charlotte Rampling, uma mulher recém-divorciada, também cheia de problemas, que pretende recomeçar sua carreira jurídica. Essa parte de sua vida, porém, apenas o público sabe.

No caso principal, quando as coisas parecem não ter mais solução, a criatividade é a grande força motora. É preciso estar aberto, ou até mesmo desesperado, para fazer associações que antes não se fez e aprimorar a investigação. A retomada do caso se faz a partir de uma luz na mente de Paul Newman quando chega a conta telefônica na sua casa. Conhece então a testemunha-chave que surpreenderá a todos no julgamento. Sendo The Verdict um filme idealista, a justiça é alcançada, mais uma vez pela decisão do júri, protagonista no desfecho – porém, a discussão na sala não nos é mostrada, senão estaríamos diante de outro filme. É bom lembrar que o maior impacto da obra não é, exatamente, a decisão no tribunal – mas a dualidade de justiça nas duas esferas de nossas vidas: de um lado, quando necessário, a realizada sob os contornos jurídicos e, de outro, aquela de nossas relações pessoais. Além, é claro, a valorização da essência do sistema democrático, tendo como seu pilar a aplicação justa do direito.

Quando Paul Newman descobre que Charlotte Rampling se vendeu, ele lhe dá uma bofetada naquele que seria o encontro em que ela contaria a verdade. Não há espaço para esse momento, mas até aqui tal reação se justifica como um reflexo da cólera, ampliada diante de todos os problemas que ele havia passado na vida nos últimos tempos e do desgaste do caso em andamento. Depois, porém, mesmo após a vitória no tribunal, com a cabeça mais fria, ele continua fechado à “investigação da verdade” (não por acaso, bebendo), desta vez no plano pessoal mesmo: até porque, se pararmos pra pensar, a participação efetiva dela na defesa do “outro lado” é praticamente nula, quando poderia ser exatamente o oposto, já que ela sabia da inclusão de uma testemunha surpresa no processo e não revelou à equipe de James Mason.

Na última cena, Charlotte, bêbada e sentindo-se fracassada, exatamente como Paul Newman nos primeiros momentos do filme, insiste em ligar para ele e se explicar. Nós não sabemos se ele irá atender o telefone (a seqüência é encerrada quando a coisa ainda toca), mas o que importa aqui é compreender como nosso senso de justiça está constantemente esfumaçado por aquilo que “achamos ser” – como os indícios podem levar a uma conclusão precipitada, especialmente quando estão envolvidos aspectos mais passionais e como essa esfera pessoal pode repercutir negativamente nos julgamentos mais amplos. Os dois personagens, no final das contas, são os mesmos. O que nós queremos saber é se Paul Newman irá reconhecer esse aspecto e aceitar o perdão. Ou se ele irá, enfim, encarar de frente a verdade em sua vida. É claro que a revelação não acontecerá. Afinal de contas, Sidney Lumet, grande observador da natureza humana, sempre gostou de provocar o público. Devemos, pois, agradecer por isso.

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