Jacques Tourneur, um contrabandista

Martin Scorsese: Uma viagem pessoal pelo cinema americano.

SCORSESE| O que se infiltrava pelas brechas do sistema de Hollywood é algo que sempre me fascinou. Havia oportunidades, havia projetos que permitiam a expressão de sensibilidades diferentes, temas originais ou até mesmo concepções políticas radicais – particularmente quando os investimentos financeiros eram mínimos. Quanto menos dinheiro, mais liberdade! O mundo dos filmes B era freqüentemente mais livre e propício à experimentação e à inovação. Nos anos 1940, os diretores perceberam que podiam exercer mais controle sobre uma produção de baixo orçamento do que sobre um prestigioso filme classe A. Tinham, além do mais, menos executivos espiando por cima de seus ombros. Podiam introduzir toques incomuns, tramar enredos inesperados e às vezes transformar um material rotineiro numa expressão muito mais pessoal. Em certo sentido eles se tornaram contrabandistas. Trapaceavam e, de algum modo, escapavam impunes.

O estilo era crucial. O primeiro mestre do mistério foi Jacques Tourneur, que começou a deixar sua marca em thrillers sobrenaturais de baixo orçamento. Em Sangue de pantera, ele tinha uma boa razão para não mostrar a criatura. “Quanto menos você vê, mais acredita”, dizia. “Você não deve jamais tentar impor suas visões ao espectador, mas sim tentar instigá-las gota a gota”. Essa abordagem oblíqua define perfeitamente a estratégia do contrabandista.

Filho do cineasta pioneiro Maurice Tourneur, Jacques Tourneur teve a sorte de encontrar um extraordinário oásis de subversão criativa no departamento do produtor Val Lewton na RKO. Lewton, um ex-editor de roteiros de Selznick, foi descrito certa vez como “um David Selznick benevolente”. Ele trabalhava intensamente em todos os roteiros que produzia, mas nunca pisava no set de filmagem, deixando os diretores agirem por conta própria.

CENA QUE NÃO SE VÊ:

Caminhando por um parque tarde da noite, Alice (Jane Randolph) parece estar sendo espreitada por uma presença invisível. Ela se vira e olha pra trás, mas a rua está deserta. Ela aperta o passo. Um forte assobio causa-lhe um sobressalto. É apenas um ônibus parando no ponto. No entanto, acima dela, alguns galhos se mexem de modo sinistro.

Motorista de ônibus: Vamos, moça. Vai tomar o ônibus ou não vai? (Depois que ela entra) Parece que você viu um fantasma.

Alice (lívida): O senhor viu?

(O motorista faz que não com a cabeça. Ela paga a passagem. O ônibus parte. No parque, os mesmos galhos parecem mover-se levemente.)

SCORSESE| Um filme B como Sangue de Pantera custou apenas US$ 134.000, mas causou impacto na América ao aventurar-se por um território inexplorado até então: o medo de uma jovem recém-casada diante de sua própria sexualidade. Quando seus sentimentos mais profundos por seu marido são despertados, a heroína é dominada pela vergonha e pela culpa. Ela parece consumida por um espírito malévolo, ou, se preferirem, por seus demônios interiores.

“MOIRA SESTRA”:

A sérvia Irena (Simone Simon) está celebrando seu casamento com Oliver (Kent Smith) num restaurante, quando é saudada por uma estranha mulher de aspecto felino (Elizabeth Russell).

Mulher: Moira sestra.

(Irena é abalada profundamente pelas palavras.)

Mulher (encarando-a): Moira sestra?

Oliver (percebendo o assombro de Irena): Ah, espera lá. Não pode ser tão sério. É só uma palavra.

Irena (muito pálida): Ela me saudou! Ela me chamou de irmã!

SCORSESE| Os filmes de Tourneur solapavam um princípio básico da ficção clássica, a noção de que as pessoas estão no controle de si mesmas. Os personagens de Tourneur eram movidos por forças que eles não compreendiam. Sua desgraça não era o destino, no sentido grego: não era uma força externa; ela vivia no interior de sua própria psique. À sua própria maneira despretensiosa, Sangue de pantera foi talvez tão importante quando Cidadão Kane para o desenvolvimento de um cinema americano mais maduro.

No segundo filme de Tourneur com o produtor Val Lewton. A morta-viva, a heroína é uma enfermeira que cuida de uma mulher catatônica nas Índias Ocidentais; ela é arrastada para um mundo paralelo ao procurar a ajuda de feiticeiros para curar sua paciente.

“SÓ MORTE E DECOMPOSIÇÃO”:

Enquanto navega rumo a St. Sebastian com seu novo patrão, Paul Holland (Tom Conway), Betsy (Frances Dee) contempla o oceano que cintila sob as estrelas. Durante toda a cena, pode-se ouvir a tripulação nativa entoando cânticos em segundo plano.

Voz interior de Betsy: Parecia que só há alguns poucos dias eu encontrara o st. Holland em Antígua. Subimos a bordo do barco para St. Sebastian. Tudo era como eu havia imaginado. Eu olhava para aquelas grandes estrelas incandescentes. Sentia o vento morto em meu rosto. Respirei fundo e cada partícula minha disse para mim mesma: “Que lindo!”

(Seu devaneio é interrompido subitamente.)

Paul Holland (fora do quadro): Não é lindo!

Betsy (virando para encará-lo): Leu meus pensamentos, sr. Holland.

Paul Holland: É bastante fácil ler os pensamentos de uma recém-chegada. Tudo parece lindo porque você não compreende. Aquelas peixes-voadores… eles não estão pulando de alegria, estão  saltando de pavor. Peixes maiores querem comê-los. Essa água luminescente extrai seu brilho de milhões de minúsculos corpos mortos. É o esplendor da putrefação. Não há beleza nenhuma aqui, só morte e decomposição.

Betsy: O senhor não pode acreditar nisso de verdade.

(Uma estrela cadente risca o céu.)

Paul Holland (fora do quadro): Tudo o que é bom morre aqui… (Dentro do quadro) Até as estrelas.

SCORSESE| Jacques Tourneur era um artesão modesto; comparava seu trabalho a de um carpinteiro que simplesmente entalha a cadeira ou a mesa que foi contratado para construir. Mas, anos depois, no final de sua carreira, Tourneur confessou que sempre tivera um interessado apaixonado pelo sobrenatural. Um pouco médium ele próprio, fez filmes acerca do sobrenatural porque acredita nele e chegara a experimentá-lo diretamente.

Como fazia para passar esse contrabando? Tourneur contava com a imaginação do público. “Quando os espectadores estão sentados numa sala escura e reconhecem sua própria insegurança na dos protagonistas da tela”, dizia ele, “então aceitam as situações mais inacreditáveis e seguem o diretor até onde ele quiser levá-los”.

O território crepuscular de Tourneur era um hábito. Suas jornadas eram perigosas incursões no desconhecido e às vezes no oculto. A realidade permanecia opaca e raramente as pessoas eram o que pareciam ser; elas ficavam na fronteira de um mundo escondido – um quadro tremeluzente de murmúrios distantes e sombras profundas. Havia um desencanto silencioso nos filmes de Tourneur, uma estranha melancolia, a lúgubre sensação de haver embarcado numa aventura da qual não existia volta.

Depois que Tourneur abriu a caixa de Pandora, as coisas nunca mais foram as mesmas. Pode ter passado despercebido de início, mas uma estranha obscuridade penetrou sorrateiramente nos filmes americanos. Uma sensação de insegurança, desorientação e pressentimento, como se o chão pudesse de repente ceder sob os nossos pés.

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4 comentários sobre “Jacques Tourneur, um contrabandista

  1. Adorei ler novamente isto, embora já conhecesse estes textos do Scorsese. Gosto especialmente disto: “Jacques Tourneur era um artesão modesto; comparava seu trabalho a de um carpinteiro que simplesmente entalha a cadeira ou a mesa que foi contratado para construir.”

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