O Enigma de Kaspar Hauser (Werner Herzog, 1975)

O enigma de Kaspar Hauser é um filme que, se não surpreende como produto cinematográfico, ao menos potencializa uma série de discussões (sociológicas, históricas, psicológicas, antropológicas, lingüísticas) – ou seja, funciona mais como um, digamos assim, ensaio, sem se duvidar, claro, da capacidade de Werner Herzog como diretor. Sendo assim, o foco deste texto – ou melhor, rascunho – está mais no conteúdo, na história, do que propriamente na sua condição de filme – aliás, não teria sido justamente essa a intenção dos realizadores?

Trata-se da história real de um jovem encontrado no ano de 1828 em uma pequena praça de Nuremberg, mal vestido e apenas com um objeto em sua mão: uma carta que revelava as circunstâncias de sua vida. Havia sido criado, durante quinze anos, em completo isolamento da sociedade de sua época. Apenas um senhor – não se sabe exatamente de sua procedência e por que havia criado Hauser naquelas condições – lhe dava pão e água para sobreviver e lhe ensinava, de forma bastante rudimentar, a escrever seu nome. O filme, então, tem a intenção de tentar compreender o comportamento de Kaspar Hauser diante das peculiaridades de sua vida, em paralelo com o contexto do período histórico em que viveu.

Kaspar Hauser, figura que exerce enorme curiosidade até os dias atuais, não teve contato algum com a sociedade durante anos. O período fundamental de sua educação, que deveria começar na infância, em contato com as outras pessoas, não existiu. Sendo assim, não houve um relacionamento, uma aprendizagem no mundo dos fatos, que propiciasse uma dimensão psíquica própria da construção história e social que os seres humanos, via de regra, têm. A linguagem de Kaspar Hauser, seu raciocínio lógico, suas reações dentro dos padrões culturais existentes, enfim, sua consciência social corresponderam a uma realidade completamente estranha e deslocada.

A atividade de Kaspar Hauser, durante todos os anos em que esteve sob condições animalizadas, era extremamente reduzida, para não dizer inexistente – apenas um cavalo de pau lhe fazia companhia; nos parcos momentos de aprendizagem, se é que podemos chamar de aprendizagem, apenas a insistência de seu carrasco em fazer com que escrevesse seu próprio nome. Até o momento em que Kaspar chega à cidade, desenvolve precariamente suas potencialidades, pouco avança cognitivamente, não tem sequer a consciência de sua condição humana. É o contato com a sociedade que propicia, aos poucos, o desenvolvimento de sua personalidade, ainda que essa mesma sociedade, diante dos paradigmas de sua época, exerça também uma repressão à criatividade do jovem rapaz.

Kaspar Hauser depara-se com esse mundo positivista, racionalizador. Passa a compreender a realidade através dos signos que lhes são ensinados. Signos esses de forte cunho cientificista, desenvolvimentista, que tentavam compreender o mundo extraindo sua essência imutável, racional, única. Quando, em determinado momento do filme, um professor de matemática propõe a Kaspar Hauser a resolução de um problema de lógica, este não permite uma resposta diferente da que estava consolidada na época (crendo que esta seria a única correta, desde e para sempre) – a verdade é que Hauser demonstra sua enorme criatividade diante da questão, com uma resposta até mesmo mais simples e eficiente, porém logo rejeitada pelo “mestre”.

É claro que, devido às circunstâncias peculiares de sua vida, Kaspar Hauser sempre esteve em um caminho diferente do considerado normal na época. Não conseguia se encaixar na sociedade, percebia que era considerado uma “criatura”, não via espaço para externar sua personalidade sem coações externas. Sendo assim, passava quase todo o tempo sozinho, na tentativa de compreender o mundo à sua própria maneira. A linguagem, que só aprendera na adolescência, não exercia nele a função que exercia aos outros, pois não tivera durantes anos contato algum com a realidade do mundo de sua época. No entanto, em determinado momento do filme, já mais maduro, Hauser tem uma das suas primeiras reflexões críticas: “o mundo é todo mau”. Aliás, eis o título original do filme: Cada um por si e Deus contra todos.

Diante da rejeição que seu comportamento representava na sociedade, ou na maior parte dela, Hauser isola-se cada vez mais, até o momento em que é assassinado (de acordo com o filme, pelo mesmo homem que o manteve em cativeiro, ainda que o caso não tenha sido solucionado). Seu corpo, porém, continua a ser de enorme interesse para aquela sociedade: em sua necropsia, os cientistas da época, “descobrem” o porquê de Kaspar Hauser ser tão “estranho” – é constatada uma anomalia no seu cérebro. É justamente este o posicionamento positivista vigente até então: ao invés de se buscar uma explicação sócio-cultural, analisando com mais profundidade as circunstâncias pessoais da vida de Hauser, procurou-se uma causa científica, “lógica”, de seu “desvio”. Não espanta, portanto, que ele não tenha se adequado àquela sociedade tão excludente e conservadora, despreparada para lidar com uma pessoa tão peculiar.

Kaspar Hauser ou A Fabricação da Realidade.

O Enigma de Kaspar Hauser (1812? – 1833): Uma abordagem psicossocial.

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