A Casa (Hausu, 1977)

Está mais ou menos assim no site da Criterion Collection: “Como descrever House [Hausu], o filme indescritível de Nobuhiko Obayashi? Um conto de fantasma psicodélico? Uma história de ninar stream-of-consciousness? Um episódio de Scooby Doo dirigido por Mario Bava?”. Foi a empresa que lançou o filme, pela primeira vez no mercado americano – e, como uma coisa leva à outra, parece que só por agora ele passa a ficar mais conhecido mundo afora. A remasterização da Janus Films é sensacional, havendo inclusive versão em blu-ray: as cores extravagantes são daquelas coisas que aprisionam nossos olhos desde o primeiro momento, e não é exagero dizer que a grande conquista do filme é a sua fotografia forte, cafona, verdadeiramente original.

Hausu é um filme-pesadelo japonês do final da década de 70. Imaginem, então, este universo onírico, feito com baixo orçamento, se aproximando da breguice dos fabulosos anos 80, mas ainda banhado por ácido lisérgico? Enfim, estamos tratando de uma obra completamente alucinada, assustadora e cômica – um pesadelo mesmo, afinal de contas, quantas vezes sonhamos com coisas horrorosas e ao mesmo tempo engraçadas? A história é a seguinte: uma garota, após descobrir que está prestes a ter uma madrasta, briga com o pai e decide não passar as férias com ele. Ao contrário, por conta própria, envia uma carta a uma tia que não via há anos, avisando que irá levar mais seis amigas para passar as férias com ela. A tia é uma viúva que ainda espera pelo retorno do marido que partiu para a guerra. Vive nessa casa velha e enorme, isolada de tudo, completamente sozinha. As meninas não sabem, mas são as vítimas perfeitas: jovens, virgens, solteiras. Sim, a velha é uma canibal malígna.

Há ainda outro personagem importante no filme: um deslumbrante gato persa branco. Há algo no interior do animal que só será despertado na mansão. Aliás, parece que, de alguma forma, ele que provocou o impulso na jovem em visitar a tia. Um chamado, parece, já que o gato, revela-se depois, sempre foi da tia – tentar entender essas “falhas” do filme é uma tolice, afinal de contas, como já foi dito, estamos dentro de um pesadelo. Ou dentro de uma jornada introspectiva na mente da protagonista, que vive uma crise de adolescência. Ela vive aquela fase indefinida da vida: não é mais uma criança, mas tem medo de ser adulta; está descobrindo a sensualidade e não percebe o mesmo nas amigas, mais infantilizadas. Sim, a garota-central é daquelas prematuras, o que provoca efeitos mais complexos do que o normal, ampliados pela atmosfera da mansão.

Talvez seja este mesmo o tema do filme: a questão da sexualidade. Em uma das melhores cenas, a garota, isolada no quarto, fica se admirando no espelho e começa a passar um batom vermelho forte – lembra aquela cena de Black Narcissus, e não apenas nessa seqüência. Definitivamente, perde a inocência. A figura da tia começa a se confundir com a dela, ambas tornam-se uma só. Neste momento, a mansão já não mais permite que as outras fujam do seu interior. Como irão se salvar ou se irão se salvar, só vendo o filme para saber. Estamos diante de algo trash, sim, mas com admirável consciência estética, sem se esquecer da trilha sonora brilhante. Merece ser visto mais vezes, pela sua história enigmática inspirada pelas idéias da própria filha do diretor, que preservou essa aura infantil acrescentando a análise psicológica mais adulta, maliciosa, trágica. Enfim, Hausu é, definitivamente, um filme para se ver à meia noite.

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