Irma Vep (Olivier Assayas, 1996)

Irma Vep, a despeito de algumas seqüências aparentemente inúteis, é uma experiência interessante – experiência mesmo, porque é um filme que foge do comum: acompanhá-lo é como andar no escuro, sem saber exatamente onde está pisando, tudo assim meio incerto. Por vezes parece que a história vai seguir determinado rumo, mas logo percebemos que não é bem por aí. É, portanto, um filme que brinca com nossas expectativas e não se aprofunda em nada. Mas é justamente nessa (deliberada?) superficialidade que Olivier Assayas consegue tornar o filme próximo, cativante.

De início, parece que estamos diante de um daqueles filmes de metalinguagem cinematográfica. Observamos a realização da refilmagem do clássico mudo de 1915, Les vampires, levado adiante por um diretor decadente e neurótico (Jean-Pierre Léaud) e que conta com a estrela chinesa de filmes de ação, Maggie Cheung (que se auto-interpreta) no papel principal. Mas não é bem o making of que interessa aqui. São os bastidores, fora do set de filmagem, que recebem maior atenção – os personagens, como eles se relacionam entre si e a interferência disso na produção do filme.

O diretor quer fazer seu Irma Vep exatamente igual ao original – com exceção da escolha feminina no papel da heroína, por motivo que só ele sabe – oitenta anos depois. Não seria essa escolha a mais difícil? Como desconsiderar a realidade completamente diferente do presente (a indústria cinematográfica, o gosto do público, o modo de se fazer cinema na França contemporânea, os debates na sociedade mais heterogênea, etc) em relação ao passado? E a parte autoral, como fica?

Todas essas perguntas têm suas respostas no decorrer do filme, mas nenhuma delas parece ser lá muito importante. Até mesmo a figura do diretor parece perder a relevância com o tempo – o que, para mim, foi um aspecto negativo – e o foco se desvia para o relacionamento entre Maggie Cheung e a figurinista do filme Zoé, interpretada por Nathalie Richard. São essas duas personagens que mais cativam. Ambas são rebeldes, independentes, modernas, mas também frágeis e inseguras. Surge uma tensão amarosa entre as duas – e esse relacionamento acaba sendo, ao lado da produção do filme, o principal ângulo da história, assumidamente ordinária, quase uma comédia romântica.

Olivier Assayas não se preocupa em contar uma história, mas algumas histórias, todas curtas e descompromissadas. O mais importante – e nesse ponto o diretor alcança grande êxito – é criar um clima, uma atmosfera própria, que faz com que a experiência de acompanhar o filme seja extremamente prazerosa e visualmente instigante, ainda que, no final das contas, não se saiba exatamente o que foi extraído de tudo isso. E é justamente esse o provável motivo que explique o culto criado em torno de Irma Vep desde o seu lançamento.

Anúncios

Um comentário sobre “Irma Vep (Olivier Assayas, 1996)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s