A Sétima Vítima (Mark Robson, 1943)

De acordo com Martin Scorsese, Val Lewton era uma espécie de “David Selznick benevolente” que “trabalhava intensamente em todos os roteiros que produzia, mas nunca pisava no set de filmagem, deixando os diretores agirem por conta própria”. Conseguiu seu espaço na história do cinema com filmes baratos, apostando na criatividade dos diretores com quem trabalhava e na própria imaginação do público, como é o caso deste The seventh victim.

O diretor é Mark Robson e o seu trabalho em muito lembra o de Jacques Tourneur, com quem Lewton trabalhou três vezes nos clássicos Cat people, I walked with a zombie e The leopard man. O jogo de sombras, a criação de uma atmosfera macabra em paralelo a uma realidade aparentemente promissora, isto é, com potencialidades que parecem nunca se confirmar por algum motivo – os personagens, aqui, como nos filmes de Tourneur, são solitários e dúbios – e a comunicação, fundamental em qualquer história de terror, com a escuridão (justamente para incitar a curiosidade e imaginação do público) estão presentes, pelo menos nos momentos-chaves do filme.

No entanto, não há como negar a fragilidade do roteiro. As coisas acontecem rapidamente (o filme tem pouco mais de uma hora) e por vezes os motivos não ficam claros, mas essa dimensão da obra está praticamente implícita – como se fosse mesmo uma daquelas histórias que ouvíamos na infância: o que importa são os momentos de suspense, os aspectos sombrios e o clímax dos acontecimentos; todo o resto, sem qualquer tipo de desmerecimento, é burocracia agradável, típica das novelas mais baratas.

The seventh victim é um filme de potencialidades que não podem ser subestimadas. Ficava imaginando como, em outras circunstâncias, com um roteiro melhor lapidado e com um diretor mais ousado e/ou talentoso, a obra poderia alcançar superior patamar. Quer dizer, é um filme muito bom, surpreendente dentro de suas limitações, e mesmo não sendo um Cat people, não é exagero dizer que tenha influenciado algumas obras-primas do cinema.

Por exemplo, há uma sequência em que a protagonista toma banho no chuveiro, completamente nua e vulnerável, só com uma cortina a “protegendo” do perigo externo quando o inimigo entra no quarto e a ameaça. A reunião dos integrantes da seita diabólica do filme pode lembrar Rosemary’s baby, mas não tirava da minha cabeça todo o clima de Eyes wide shut, quando a mocinha, inocente e sem ninguém para lhe dar cobertura, adentra no submundo formado por figurões da alta sociedade, capazes de sequestrar e exterminar aqueles que porventura traiam ou revelem segredos da organização.

Além da condução competente nas sequências de mistério, é o tipo de filme que interessa justamente no que se pode extrair de sua aparente superficialidade, ou seja, na possibilidade de se retirar dele princípios que norteiam todo o cinema e perceber, ainda que difusamente, como seus elementos são comuns aos grandes filmes. Isso sem contar no seu discurso filosófico central, o suicídio, sintetizado na frase eque abre e encerra a história: “Eu corro para a morte, e a morte me encontra com a mesma rapidez. E todos os meus prazeres são como ontem”.

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