Cada Um Vive Como Quer (Bob Rafelson, 1970)

Em Five easy pieces, Jack Nicholson consolidou de vez seu potencial já demonstrado em Easy rider, tornando-se, agora como protagonista, uma verdadeira pérola da BBS, produtora especializada em filmes baratos, pessoais e representativos do pensamento de sua época, que havia financiado, um ano antes, aos trancos e barrancos, o filme-símbolo e sucesso estrondoso de Dennis Hopper. Bob Rafelson, que também era um dos chefões da empresa, queria ser um autor naquele molde francês e assumiu a direção do seu filme, do seu projeto pessoal que, no entanto, teve o roteiro de Carole Eastman.

Five easy pieces é justamente isto: um filme menor, mas pretensioso, com um jeitão europeu, uma clara homenagem ao cinema de Antonioni (Nicholson, depois, estrelaria Professione: reporter, que guarda algumas semelhanças com o filme de Bob Rafelson), um pouco distante daquela linha da contracultura (há apenas um momento “datado”, não num sentido negativo, já que chega a ser engraçado, quando Jack Nicholson dá carona a duas mulheres excêntricas, meio hippies, na estrada) mas, isso não se discute, um dos exemplares mais notáveis do cinema nos anos 70.

Jack Nicholson interpreta um trabalhador suburbano. Tem uma namorada loura e burra. Seu hobby é jogar boliche com um casal de amigos alienados. Ou seja, é apenas mais um na massa, praticamente irrelevante para a sociedade e com perspectiva quase nula de progresso. Um certo dia, revolta-se com sua condição de merda, larga o emprego e vai encontrar sua irmã. Ela, tal como ele, gosta de tocar piano (apesar de não ter habilidade alguma) e tem por seu irmão grande apreço, apesar de se verem raramente; neste momento, revela que o pai deles está à beira da morte e pede para visitá-lo uma última vez. O personagem de Nicholson, apesar de ter problemas com o velho, cede e no dia seguinte pega estrada com sua namorada grávida e estúpida.

No retorno ao lar, conhecemos quem ele é realmente: um membro de um tipo de aristocracia decadente. Sua família tem dinheiro, mas não é exatamente uma família. Pouco se falam. O pai, severo e debilitado, literalmente não diz mais palavra alguma: é praticamente um vegetal. O outro irmão, boçal e desinteressante, parece uma daquelas pragas da nobreza que pensa ser superior e no fundo deve torcer pela morte do velho a fim de obter sua herança. Tem uma namorada que também quer fazer parte desse mundo, da seriedade, mas que se relacionará com o personagem de Jack Nicholson e verá seus conceitos entrarem em crise.

O protagonista, na verdade, não pertence a nenhum desses dois mundos: sabe que pode ser melhor do que um trabalhador suburbano e alienado, mas não se encaixa com a suposta fineza daquele tipo de nobreza americana que pretende ser européia. Tal qual o personagem, o filme de Bob Rafelson consegue manter a sutileza das entrelinhas até atingir o limite pelo qual pode suportar, e em determinado momento revolta-se e aponta o dedo na cara das pessoas que mais despreza: os esnobes intelectuais que, aconchegados no conforto que muitas vezes não deram causa (quase todos são simplesmente herdeiros ou apenas parasitas), querem julgar toda a sociedade como se, perto deles, as outras pessoas não passassem de seres simples que podem ser interpretados pelo psicologismo mais barato e pretensioso do mundo.

Como não se encaixa em nenhuma dessas duas realidades, Jack Nicholson está fadado a se mudar até encontrar o seu local. É como um daqueles forasteiros do oeste, eterno solitário. Um incompreendido. Trata mal sua namorada, mas não suporta que apontem pomposamente para ela como objeto de estudo de classe. Esculacha seu amigo operário, mas parte para defendê-lo quando está sendo agredido por policiais à paisana. Ama e odeia seu pai ausente. É ao mesmo tempo sensível e truculento nos modos. Muitos podem não gostar de Five easy pieces por causa desse personagem. Podem acusá-lo de machista (não deixa de ser verdade, ao seu modo) e pretensioso, da mesma forma que assim o era seu criador, Bob Rafelson, que podia se ver como um rebelde do povo, mas que jantava nos restaurantes mais caros. Mas não devemos levar aos extremos a identidade entre o criador e criatura: Five easy pieces pode não ser uma obra-prima, porém é grande dentro de sua pequenez, aconchegante e revoltoso, discretamente bem filmado e visualmente impecável, universal no estudo da natureza humana.

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2 comentários sobre “Cada Um Vive Como Quer (Bob Rafelson, 1970)

  1. Um filme maravilhoso, dentro da grande fase de Nicholson, que vai de 1969 a 1975. E o que você acha de “A Última Missão”? E o pouco lembrado “Ânsia de Amar”?

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