Paraíso Infernal (Howard Hawks, 1939)

Howard Hawks era o mestre em criar um clima: aquelas pessoas descontraídas, as canções, os drinques, a fumaça dos cigarros, os flertes: uma atmosfera aconchegante, despretensiosa, que nos faz sentir como se estivéssemos em casa, de alguma forma. Mas aqui as coisas acontecem com mais leveza, elas dão certo – o que nem sempre (sendo otimista) acontece na vida real. Enfim, se existe o paraíso, ele deve ser parecido com algum filme de Howard Hawks.

Only angels have wings se inicia com todos esses ingredientes. Até a história começar a ficar mais séria – mais especificamente, quando os personagens centrais são apresentados ao público – vemos um amontoado de pessoas maravilhosas aproveitando a vida com o que têm. Afinal de contas, estamos na década de 30, em um local isolado e úmido da América do Sul, sem os confortos e distrações da vida moderna. Mas há de se dizer que o povo aqui retratado sofre mais? Sem a turbulência da sociedade moderna, ao menos vivem com um peso menor nas costas – o peso do sucesso absoluto – e interagem entre si de forma mais humana, natural, humilde.

Em relação aos personagens, Howard Hawks também se destacou na criação de tipos carismáticos. Um ponto positivo é que ele não se preocupava em analisar qualquer tipo de psicologismo aprofundado – as coisas são como são. Não interessa desvirtuar o caminho da história com detalhes desse tipo, não no seu cinema. Como ele frisou certa vez: I’m a storyteller – that’s the chief function of a director. And they’re moving pictures, let’s make ’em move!

São três personagens centrais no filme: Cary Grant, o herói, usando chapéu, e duas outras mulheres, uma loura (Jean Arthur) e uma morena (Rita Hayworth, que ainda não era Gilda, mas já uma das atrizes mais deliciosas que passou por este planeta), ambas dividindo seu amor. Com relação a Jean Arthur, é uma pena que sua personagem não tenha mantido aquela característica feminina que o diretor mais prezou na sua carreira: o tipo lunática, maluquinha, independente, que não mede esforços para conseguir o que quer. Depois que ela se apaixona de vez por Cary Grant, vai ficando cada vez menos hawksiana, mais boba, chorona, dependente. Até aqui, não posso identificar o principal culpado pelo deslize – posso sugerir que Howard Hawks não foi, apenas analisando as personagens femininas que ele mais tinha apreço: sendo mais direto, prefiro culpar os produtores.

Infelizmente, Only angels have wings não conseguiu manter a atmosfera e irreverência dos momentos iniciais. Com o tempo, o filme vai ficando cada vez mais dramático e perdendo os atributos de uma boa comédia. A diminuição inesperada da personagem de Jean Arthur também contribuiu para frear o potencial do filme – além do mais, a história parece andar em círculos, com aqueles aviões velhos sendo pilotados nas situações mais perigosas (tudo bem, naquela época o público deveria roer as unhas com esse tipo de coisa, mas hoje em dia não impressiona muito, convenhamos).

No entanto, é uma obra de Howard Hawks. Pode não estar no mais alto patamar de sua carreira, mas os grandes momentos existem e fazem valer a pena. Seus filmes são únicos. Representam o que há de mais mágico no cinema. Os personagens, a música, a descontração, o humor, a habilidade em criar momentos de tensão (que não são exagerados ou apelativos), o trato com a imagem – enfim, tudo aquilo que o coloca como um dos maiores de sempre, um verdadeiro storyteller profissional.

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2 comentários sobre “Paraíso Infernal (Howard Hawks, 1939)

  1. “Calling Baranca, Calling Baranca” – ❤

    Também reconheço que o começo é bem mais atmosférico que o resto do filme. Mas é a gênese do cinema de aventura do Hawks (de todo o cinema, talvez?) e é profundo pra caralho. O lance de micro-cosmo ético é bem mais escancarado e o Cary Grant tá foda pra caralho. Filme de homem, sobre homens que tentam se passar por anjos… asas, aviões, etc.

    Enfim… entendo seu ponto, mas não consigo deixar de achar isso aqui obra-prima.

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