Tudo pelo poder (The ides of march, 2011)

The ides of march teve seu lançamento no período certo. George Clooney disse que concebeu a história do filme ainda em 2008, antes da eleição de Barack Obama, mas preferiu adiar a produção. A decisão não poderia ser melhor: o cinismo, a desilusão e as provocações fazem muito mais sentido agora (já há algum tempo, aliás) que a euforia com as promessas de mudanças do presidente eleito já passou – e para muitos com decepção. Mas The ides of march não ataca diretamente Obama. Seu alvo é maior: trata-se de todo o processo das grandes campanhas políticas, especialmente no trabalho dos assessores e os acordos de bastidores.

Com tanta assessoria, com tantos textos e discursos prontos produzidos pelos chefes de campanhas, com os debates meticulosamente calculados, com as propagandas de alto orçamento, com todos aqueles passos estudados de acordo com a expectativa dos potenciais eleitores (como fazem com lançamento de produtos) – enfim, com tanto photoshop político, tem sido cada vez mais difícil ter certeza em quem se está votando. Às vezes são as pessoas que estão por trás do presidente, atuando nos bastidores, que definem vitórias apertadas. O pôster do filme é claro na provocação: uma metade do rosto é do assessor, a outra do candidato, e a pergunta na capa da revista: É este homem o nosso próximo presidente?

O problema, na verdade, é global. Está em todas as democracias contemporâneas. Nisso não há nenhuma novidade. E se The ides of march se prendesse a esse fato, como uma crítica, cairia no lugar-comum, seria uma obra opaca. Não é mesmo o discurso que vale a pena – o que mais importa é a ação. Porque, não se deve esquecer, estamos diante de um thriller político. É uma ficção, cujas reviravoltas podem causar desconforto para aqueles que esperam seriedade demais ou pode ser dado como ingênuo por outros, diante da complexidade que envolve o processo político, por tratar os candidatos como farsantes, governantes como porcos e assessores como pessoas interessadas apenas em poder e dinheiro.

O escritor fantasma (The ghost writer, o melhor filme do ano passado) recebeu críticas semelhantes. Considerado maniqueísta e infantil no tratamento de uma questão “de adultos”, simplista na sua tendência em incentivar teorias de conspiração, teve seu lado mais importante diminuído: a brilhante, praticamente extinta nos dias atuais, capacidade de envolver o espectador, contar uma história sinistra que não se acomoda em se manter em apenas um plano – as coisas acontecem e nós simplesmente somos convencidos (talvez hipnotizados) a não desviar a atenção delas. Não há dúvida: tudo aquilo é real – pelo menos enquanto se está na sala de cinema.

The ides of march (esqueçam o título óbvio que fizeram o favor de escolher aqui no Brasil) não está, como era de se esperar, no mesmo nível do filme de Polanski, mas também tem essa qualidade central. A história simplesmente não para. Ela é sólida e não perde a direção, mesmo com tanta coisa acontecendo. A principal causa desse êxito foi ter fixado um protagonista cujos olhos irão guiar o espectador: em muitos filmes “sérios”, complexos demais para o “cidadão médio”, a quantidade exagerada de personagens e de reviravoltas na trama é um artifício que apenas atrapalha a absorção (acabamos pensando demais na sessão). Felizmente, isso aqui não acontece.

George Clooney, com sua direção discreta mas eficiente, tem plena consciência de que, muitas vezes, os elementos mais básicos são os que mais importam: um bom elenco (Ryan Gosling, George Clooney, Philip Seymour Hoffman, Paul Giamatti, Evan Rachel Wood, Marisa Tomei…) e uma boa história. Tamanha simplicidade – o entretenimento adulto na sua forma mais clássica – refresca os olhos, especialmente quando olhamos ao redor e não vemos nada além de produtos feitos por programas de computador.

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