Vidas amargas (East of Eden, 1955)

Com Vidas amargas, James Dean já nasceu grande. Não apenas porque esta é uma das obras-primas de Elia Kazan, mas também por deixar claro, pela primeira vez, que em cena poucos de seu tempo podiam rivalizar com o ator em termos de magnetismo – e nos seus três filmes, Dean roubou a atenção quase que exclusivamente para ele, até mesmo quando contracenou com Rock Hudson e Elizabeth Taylor.

Em sua curta carreira, James Dean trabalhou apenas com alguns dos melhores diretores (Elia Kazan, Nicholas Ray e George Stevens) e, sem dúvida, essas oportunidades foram fundamentais para transformar o ator em um ícone instantâneo e uma lenda logo após seu trágico falecimento. Hoje, mais de cinqüenta anos após sua morte, os filmes em que atuou, principalmente os dois primeiros (que o transformaram em herói de todos os jovens), continuam impactantes.

Vidas amargas é o melhor deles, embora não seja o mais emblemático. A tragédia, baseada no conto bíblico de Caim e Abel e atualizada para o começo do século 20, pouco antes do início da participação americana na primeira guerra mundial, funde o drama familiar ao espírito de rebeldia juvenil sob os contornos do “sonho americano”. James Dean, mais do que um rebelde, é um filho mal amado que deseja por tudo neste mundo conquistar o carinho do pai. Está longe de ser um exemplo de bom caráter, mas nós nos identificamos com seu dilema que vai tomando contornos trágicos até culminar com um desfecho amargo e extremamente belo.

Rivaliza com o brilho de James Dean o trabalho de câmera de Elia Kazan. Especialmente nos momentos em que provoca no espectador uma sensação de mal estar, de tontura, de instabilidade (a câmera ora está levemente inclinada, ora acompanha os movimentos de um balanço, ora filma de cima para baixo ou de baixo para cima). O diretor é extremamente eficiente nas suas intenções, mas, ao contrário do que se vê hoje em dia, não tenta se aparecer, roubar a atenção para si – faz o máximo possível para que o espectador se concentre no que está acontecendo na tela, como se aquilo fosse real.

Também o formato CinemaScope, com a extensão dos planos de fundo acompanhando a dimensão das paixões explosivas vistas em cena, assim como a expressão através das cores (e poucas vezes as cores foram tantas e tão bem escolhidas), são suficientes para transformar Vidas amargas em uma obra-prima. James Dean, ao lado de um casting competente (Julie Harris, Raymond Massey, Burt Ives, Richard Davalos, Jo Van Fleet, Albert Dekker), trouxe ao filme ainda outros contornos pela sua imagem icônica e deliciosamente anos cinqüenta. São todos esses fatores que dão ao filme de Elia Kazan aquilo que não pode ser racionalmente medido, mas que existe, disso não há dúvida, apenas nas melhores obras: chama-se alma.

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5 comentários sobre “Vidas amargas (East of Eden, 1955)

  1. Excelente filme, um dos melhores da prolífera década de 50. E bastava aquela cena da “recusa do dinheiro” para definir um grande, enormissimo actor. James Dean foi quem pior fez ao mundo do Cinema por o ter privado tão cedo da sua presença. Quem pode imaginar todos os grandes filmes que ele poderia ter feito?

  2. É o meu predileto do Dean. A sequência da cadeira de balanço é maravilhosa, como também o encontro com a mãe. Um filme que funciona do início ao fim. Você gosta de “Assim Caminha a Humanidade”?

      1. Gosto sim, mas parece inchado demais. Prefiro o Stevens em “Um Lugar ao Sol”, que acho belíssimo. Alexandre, por favor, qual o e-mail pessoal seu para entrar em contato? No aguardo.

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