Meus dez preferidos de 2011 (primeira parte)

Da sexta à décima posição.

6) J. Edgar (Idem; Clint Eastwood)

Mesmo aqueles que desaprovaram o último trabalho de Clint Eastwood hão de admitir que, ao contrário de muitos outros filmecos biográficos que vemos por aí, merecem destaque a personalidade e coragem do diretor na criação da biografia obviamente não autorizada de uma figura emblemática como J. Edgar Hoover.

Abordar o lado humano do personagem, dando destaque a uma parte (arbitrariamente escolhida) de sua dimensão psicológica, é algo que poucos hoje saberiam fazer, porque há pouquíssimos cineastas tão sensíveis quanto Clint. Discutir ou não se a homossexualidade, a influência materna e o fascínio pelo poder necessariamente estão relacionados cabe a psicólogos ou pesquisadores – o fato é que, aqui, eles estão intricados, simplesmente porque foi essa a opção escolhida, afinal de contas, autor é também manipulador.

Manipulador. Mas não um sensacionalista. Clint Eastwood, o diretor mais clássico em atividade, não precisa disso. É triste que muitos dos detratores de J. Edgar tenham escolhido atacar a veracidade do texto – é filme ou documentário? – ou até mesmo detalhes técnicos (sim, a maquiagem é péssima, mas transformar isso numa espécie de estupro visual é um exagero tão deselegante quanto) para diminuir a obra. A verdade é que se Clint Eastwood quisesse, poderia fazer um filme muito mais “premiável” – não o quis, a começar pela escolha de um roteirista famoso por histórias de homossexuais. O resultado, porém, para desgosto de muitos, foi de um filme grande e pequeno ao mesmo tempo, se é que vocês me entendem.

7) Os descendentes (The descendants; Alexander Payne)

Confesso que foi um pouco decepcionante constatar que, em geral, as pessoas cuja opinião me importa não gostaram do filme de Alexander Payne. Dentre outros motivos, consideraram-no raso, superficial. Eu consigo entender a divergência mas, ao contrário, senti que Os descendentes só é simples na sua superfície. Também é muito mais honesto do que filmes artificiais que fizeram sucesso, como O Artista.

A leveza da imagem (os personagens, suas roupas, as localizações) e da trilha sonora permite que adentremos na história sem muitas dificuldades, como se fosse um “conto de verão” – com a diferença de as situações envolverem temas pesados, tais quais a falência familiar e a morte. George Clooney, apesar de ser o maior garanhão de Hollywood, me pareceu verossímil no seu papel – dá pra acreditar que ele, se não fosse um astro de cinema, poderia ser mais ou menos daquele jeito. E tem também uma nova musinha chamada Shailene Woodley.

8) A pele que habito (La piel que habito; Pedro Almodovar)

De todas as sessões desta lista, A pele que habito foi a mais remota. Então, não lembro de muita coisa, devo confessar. O que eu sei é que, apesar de em determinado momento ter ficado com um pé atrás no rumo que a história estava tomando (parecia um pouco forçada), o desfecho mostrou que as intenções de Pedro Almodóvar eram na verdade mais frescas e se adequaram exatamente a uma trama que mistura noir, terror e humor negro.

Antonio Banderas está ótimo como o mad doctor, assim como Elena Anaya encarnando a heroína – e Marisa Paredes como a observadora que sabe de tudo. É bem verdade que as cenas de tortura me pareceram bobas e desnecessárias (como são em geral as cenas de tortura no cinema), no entanto, apesar de certa irregularidade, é um filme que envolve e, em alguns momentos, chega mesmo a hipnotizar. Almodóvar também sabe como poucos criar uma ambientação, uma atmosfera – o fato de, assim como Hawks, utilizar performances musicais “ao vivo” contribui muito para isso e expõe uma naturalidade, um senso de vida e beleza na simplicidade rara há muito no cinema.

9) Um método perigoso (A dangerous method; David Cronenberg)

Estava imaginando que David Cronenberg teria êxito se conseguisse dialogar com aquela (maior) parcela do público cujo conhecimento de psicologia é naturalmente escasso. Do ponto de vista de um leigo, creio que Um método perigoso acabou sendo um filme bem acessível – é claro que os estudiosos da psicologia aproveitaram muito mais a sessão, porém, o que importa verdadeiramente é que o filme não pertence a eles. No entanto, não é a sua razoabilidade que faz com que ele seja bom, mas sim a capacidade de contar uma história intensa, levada adiante por personalidades diferentes com interesses em comum, porém, no final das contas, conflitantes.

O choque de pontos de vista, mostra o filme, é inevitável e fundamental para o desenvolvimento do conhecimento humano. E, como há sempre um aspecto pessoal, a direção que um ou outro pesquisador vai tomar está diretamente ligada a suas experiências, pré-conceitos, intuição, etc. É sobre a impossibilidade de separar a realidade da subjetividade que, em minha opinião, trata o filme – no caso do estudo de uma ciência ainda nova, como a psicologia, isso é ainda mais verdadeiro. A relação humana também é crucial: o distanciamento entre Freud e Jung foi apenas por divergências intelectuais ou “pequenos” acontecimentos e preconceitos também os levara à ruptura?

Interessante que, ao menos aparentemente, se há um “herói” aqui, trata-se de Jung, que não aceita ficar preso aos paradigmas criados por Freud e deseja expandir a complexidade da mente humana – no entanto, o próprio Cronenberg, cujo tema da obsessão sexual é recorrente na sua filmografia, parece muito mais alinhado ao pensamento de Freud. Talvez ele simpatize com Jung, mas não consiga acreditar realmente nas suas teses. Talvez, por outro lado, a personagem de Sabina Spielrein, que ficou mais ou menos entre os dois, represente a alma do filme. Ou talvez eu não tenha compreendido mesmo muita coisa. Não importa: Um método perigoso pode não ser obra de grandes imagens, ao contrário, é típico filme de atores, quase teatral, mas nessa sua proposta é mais profundo do que pode aparentar à primeira vista, especialmente nos seus detalhes.

10)  Habemus papam (Idem; Nanni Moretti):

Tinha a sensação de que Habemus papam seria uma comédia mais escrachada sobre os rumos atuais da Igreja Católica. Não é bem assim. O sarcasmo existe, no entanto o filme de Nanni Moretti é mais sério do que parecia inicialmente. É sobre a eleição inesperada de um papa (interpretado pelo grande Michel Piccoli) que, em crise de personalidade, surta completamente e se recusa a aparecer para os fieis – a história fica centrada na sua “terapia” pessoal, de autoconhecimento, cujas lacunas ficam escancaradas diante da imensa responsabilidade do novo cargo.

É engraçado como, diante das restrições temáticas, o psicanalista interpretado pelo próprio Moretti não pode realizar a sessão pela qual é chamado no Vaticano – como resultado, a questão fica restrita à escolha do papa em ter sido um homem de Deus e não, como era sua vontade genuína, um ator de teatro. É sobre a manipulação das aparências que o filme também trata. E uma das suas críticas, talvez a principal, tem a ver com esse distanciamento da Igreja, essa não consideração do indivíduo, rico em si mesmo, tendo como resultado uma instituição presa a dogmas, cada vez mais distante da realidade e dos anseios da vida real.

Bônus:

– Guilty pleasure do ano:

– Patético do ano:

– Decepção do ano:

Anúncios

10 comentários sobre “Meus dez preferidos de 2011 (primeira parte)

  1. o/ Post grande do blog! Meus complementos:

    10 – Michel Piccoli é monstro.
    09 – Cara, só isso que você falou do filme abordar a questão da subjetividade dentro da formação de pensamentos ‘absolutos’ é, pra mim, fodapracaralho. E ainda tem a questão de prática, também. Mas não concordo que seja um filme essencialmente ‘falado’, de atores, etc. Acho que a encenação do Cronenberg tá perfeita no que se propõe e enriquece pra caralho os temas abordados e tudo isso que você falou: usa direto split-screens falsos com a profundidade de campo, toda a cena do teste com a esposa é um absurdo e o final… zoom apocalíptico!! Enfim… não vejo a hora de revê-lo no cinema.
    08 – Gostei do filme também, mas não achei o final mais ‘fresco’ e sim mais covarde. Muitas pessoas falaram que o filme é chocante, etc… seria muito mais chocante se tivesse terminado uns 15 minutos antes.
    07 – Xandeco, também te amo, mas esse filme não desceu. Não consegui rir de NENHUMA piada e ainda achei algumas escolhas do Payne bem duvidosas. Mas a Shailene Woodley é musa.
    06 – Filme grande e pequeno, mesmo O texto do Lazo explica bem isso. E concordo que essas críticas de veracidade histórica e maquiagem (?!) não fazem o menor sentido. É curioso como pra cada texto que leio, cada pessoa levanta um aspecto diferente do filme. Não venero, mas defendo com vontade.

    Sobre o bônus, fiquei feliz que você colocou Kevin ao invés de “Caminho para o Nada” no mico do ano. heheheh

    E essa sacada tua do pró-aborto me fez rir uma noite inteira. Escrevi dois posts imensos no meu blog pra responder à galinha lá e tu matou a pau em uma frase.

    1. 09 – Eu também achei o uso da profundidade de campo foda: nós nunca sabemos a reação de quem está atrás exatamente (estou pensando mais na cena em que Keira Knightley está surtada revelando coisas pro Fassbender). Mas, no geral, é um filme mais comportadinho – apesar da exploração desses detalhes nos planos, como você disse. Não vejo a hora de rever no cinema também.
      08 – Sobre o final, seria o apocalipse se a moça (ou moço) perdoasse Antonio Banderas e ficasse com ele. Pensei que isso podia acontecer – tipo, o cara conheceu sua verdadeira identidade gay, mesmo que inicialmente doloroso, etc. Ocorreu o contrário, por isso gostei. Se tivesse terminado 15 minutos antes, aí sim eu acho que não teria gostado do filme, hehehe.
      07 – Pois é, você é uma das pessoas cuja opinião me importa que não gostou. Mas o Inácio Araújo disse que o filme é “significativo”, tá? hehe
      06 – Aquele negócio de que seria interessante se J. Edgar fosse uma minissérie faz todo o sentido do mundo.

      Nota: Eu não botei Caminho para o nada porque ele é de 2010, hahahaha! – ok, Caminho para o nada é melhor do que Kevin, na verdade eu até gostei do começo, mas depois desandou completamente…

      E sobre a galinha, realmente é o tipo de usuário que irrita, pqp… Ainda bem que nunca teve uma dessa por aqui. O que mais me irrita é a arrogância. Enfim, mas eu concordo com tudo que você escreveu ali… O filme é uma tragédia.

      1. … continuando hehehe

        09 – Claro que tá mais comportadinho se compararmos com Videodrome, Crash, A Mosca, etc… Até com Senhores do Crime e Marcas da Violência. Mas é claro o processo de economização da estética do cara…e nesse filme a eficiência é impressionante. Depois da sessão na mostra do Rio, a gente até comentou que a coisa tá ficando tão enxuta que daqui a pouco ele tá fazendo um filme só com 3 planos, que se repetiriam no filme inteiro.

        08 – Não sei se com o filme acabando na hora que penso, essa interpretação de “gay enrustido que sai do armário na base da porrada” (que, de fato, é bem escrota) seria possível, ou óbvia. Pensei em algo mais na linha de ‘ausência de identidade’, sei lá… nem lembro direito. Mas de qualquer forma, o final do jeito que foi quase que anula o filme… deixa uma sensação de “tá, e daí?”.

        07 – Inácio Araújo tá ficando gagá, velhinho bonzinho que gosta de tudo. 😛

      2. 09 – Entendo sua opinião, Bê. É verdade que toda a “filosofia” estética do filme é baseada nessa eficiência, numa suposta imparcialidade, etc. Só não sei se isso é uma tendência ou não. É claro que o Cronenberg dificilmente irá fazer filmes como aqueles dos anos 80 e 90, mas creio que um pouco mais de pulsação vai sair daí…
        08 – Bom, enfim… Pelo menos dá pra achar o filme engraçado, né? 😀
        07 – O Inácio Araújo tá bonzinho é? Hahahaha. Não leio muito o que ele escreve, mas talvez tenha um pouco disso mesmo, pelo menos neste ano… se bem que O Artista não desceu pra ele, hehe.

  2. Adorei “Um Método Perigoso”, mas ainda prefiro “Habemus Papam” pela inteligência do texto, da crítica, ainda sem perder a suavidade e todo o humanismo por trás dos bons velhinhos do Vaticano. Realmente – e também, para mim – “A Árvore da Vida” é uma decepção. Abraços. Ótimo post.

    1. Rafael, como disse o Bernardo (este daí de cima), Habemus papam é muito bom, mas tanto o lado dramático como o lado cômico não me agradaram completamente. Sobre A árvore da vida, quase todas as pessoas legais que conheço não gostaram, o filme realmente só tem potencial… e o melhor trailer de todos os tempos, hehehe.

  3. Post tardio, mas necessário. Ousado a seleção de J.Edgar (muito bom). Guardei “Um Método Perigoso” e ” Habemus Papam” para a tela grande. Sou dos que não se empolgou muito com ” Os Descendentes”, prejudicado por uma sessão de “A Comilança”, do Marco Ferreri, no mesmo dia. Abraço.

    1. Ah, acabei de ler seu texto sobre J. Edgar. Muito bom, por sinal. Como havia escrito, eu fui um dos poucos que gostou de Os descendentes, mas em geral as pessoas que não gostaram só não acharam “muito bom”, ao contrário de Melancolia, que é o típico filme “ame-o ou odeio-o”, hehe.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s