Os Esquecidos (Luis Buñuel, 1950)

Em Os esquecidos Luis Buñuel trata de um problema social sem passar a mão na cabeça de ninguém. Todos os personagens retratados no filme são um pouco culpados e também um pouco vítimas – uns, porém, mais do que os outros. Acima de todos, está a questão social típica das grandes metrópoles: ela existe e só pode ser combatida através de medidas políticas. O questionamento que se faz é se, de fato, essas pessoas pobres, esquecidas, embrutecidas têm alguma representatividade democrática, se de alguma forma influenciam no rumo das decisões políticas. É evidente que não – afinal de contas, estão mais preocupadas em sobreviver.

Então, temos esse problema, que transcende todos os personagens retratados no filme, existe independente deles – até quando? O filme não oferece sugestões concretas, mas elas estão implícitas no espírito da obra, notadamente de esquerda. Obra realista, mas também com espaço para o estudo psicológico dos personagens, contando inclusive com uma bela sequência onírica. Buñuel reconhece o problema sociopolítico, mas não coloca os personagens genericamente como coitados (eles chegam até mesmo a roubar um homem sem pernas!). O meio influencia na conduta dos delinquentes, mas isso não quer dizer que todos sejam apenas vítimas. É o caso de um dos personagens, El Jaibo, cujas atitudes passam dos limites da razoabilidade e devem ser resultado de alguma patologia. Ou Don Carmelo, o velho cego: ele só não é pior por conta da cegueira.

Luis Buñuel consegue domar bem uma história que envolve vários personagens. A trama não gira em torno de nenhum deles. Um está ligado ao outro e todos estão conectados ao problema social, ponto de partida explícito já na introdução do filme. O grupo de jovens delinquentes lembra os druguinhos de Laranja mecânica. É claro que os dois filmes têm um plus que os diferenciam dos chamados “filmes-denúncia”: a sensibilidade artística de dois grandes diretores. Se em O anjo exterminador, Buñuel mostrou como as condições sub-humanas podem animalizar até mesmo as pessoas mais recatadas e elegantes, o que dizer daqueles que, já crianças, sofrem a pressão perversa do meio? Alguns conseguem seguir adiante, inclusive podem melhorar com a experiência, mas isso não anula obviamente a questão central.

O mundo retratado em Os esquecidos, diga-se, é o mundo das crianças abandonadas, inclusive por seus próprios pais (mas estes já foram crianças e passaram pelas mesmas adversidades). O problema, então, pode ser visto como desesperador, mas só o é porque não dá para confiar nos homens. A única saída possível é o fortalecimento das instituições, com boas leis, distribuição de renda, respeito aos direitos individuais – enfim, tudo aqui que só pode ser resolvido através de uma verdadeira democracia. Desde a introdução em off – … Só num futuro próximo poderão ser reivindicados os direitos da criança e do adolescente (…) Esse filme mostra a vida real. Não é otimista (…) A solução para esse problema é deixada às forças do progresso social. – Buñuel mostra que as medidas devem ser tomadas para frente, visando o futuro. Resta saber se, passadas décadas do lançamento de seu filme, a situação atual na Cidade do México pode ser considerada satisfatória.

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4 comentários sobre “Os Esquecidos (Luis Buñuel, 1950)

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