Lincoln (Idem, 2012)

lincoln 2012

Ao contrário de John Ford, que extraiu grandeza da simplicidade em A mocidade de Lincoln, Steven Spielberg acabou fazendo do seu Lincoln um trabalho estritamente formal, quase sempre burocrático e previsível. Apesar das belas imagens fotografadas por Janusz Kaminski e enquadramentos raros no cinema atual, o grande destaque fica mesmo para o conjunto de interpretações, a ressaltar Daniel Day-Lewis, Sally Field e Tommy Lee Jones. O momento de embate entre Abraham Lincoln e Mary Todd Lincoln, marido e esposa, como qualquer outro casal, é o ápice do filme, não apenas pelo impacto das atuações, mas pela força verdadeiramente humana presente nessa cena – de todas, é a única que me impressionou, justamente aquela menos relevante para o desenrolar da trama, a saber: o processo de aprovação da décima terceira emenda da Constituição dos Estados Unidos, que extinguiu de vez a escravidão e acabou por enterrar a Guerra Civil naquele país.

O tom de solenidade acompanha todo o filme. Alguns momentos de escapismo, com aventura e humor “para toda a família” acabam, em verdade, realçando o aspecto imaculado da obra, como se sua intenção fosse mesmo a de ser “histórica” ou, pelo menos, constituir um instrumento adequado de registro para a “grande nação”. Essa impressão – de ser o filme dos cidadãos, notadamente os próprios americanos – limita Lincoln desde o princípio e indica que sua importância, ao contrário da figura que retrata, será apenas passageira, um pouco realçada no presente pelas circunstâncias que envolvem os Estados Unidos, mas só. O paralelo entre Lincoln e Obama é inevitável, seja nas características que têm em comum, especialmente a capacidade de negociar e persistir nos objetivos políticos, seja nas dificuldades internas que o primeiro enfrentou e o segundo continuar a enfrentar, tanto no Congresso dividido como na crise econômica que assola o país – não por acaso Spielberg levou o seu filme até a Casa Branca para vê-lo ao lado de Barack Obama, candidato que ele apoiou, inclusive financeiramente, nas duas últimas eleições. Ou seja, um dos objetivos do filme é analisar e inspirar os momentos do presente com a ajuda do passado.

As duas horas e meia de filme, embalado por uma trilha sonora esquecível de John Williams, são, como de se esperar, exageradas e apenas confirmam a confusão de conceito desse tipo de cinema. Ora, um grande filme não precisa ser grandioso; um épico não o é por sua metragem, mas pela amplitude com que retrata determina história. Com um corte de, no mínimo, trinta minutos, Lincoln provavelmente seria melhor. Todos aqueles momentos envolvendo estratégias políticas, números, táticas militares, nomes de parlamentares, discursos repetitivos no Congresso poderiam ser encurtados ou simplesmente excluídos. Em compensação, o momento de assassinato do presidente foi preterido pela transmissão da fatídica notícia, em outro teatro, a seu filho mais jovem, provavelmente para indicar ser outra a intenção da obra. Porém, é justamente esse tipo de concessão – na minha opinião, desperdício de cinema, tendo em vista que o assassinato em si tem grande força dramática e visual – para não contaminar o filme que o diminui, tornando-o limpo e bem intencionado demais, como escreveu Demetrius Caesar em sua crítica. Em pouco tempo, arrisco dizer, Lincoln só se prestará a ser exibido em escolas, desde que os alunos não durmam durante a sessão.

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9 comentários sobre “Lincoln (Idem, 2012)

  1. É daqueles filmes cuja reconstituição histórica é muito boa (cenografia, figurinos, essas coias), mas a história reconstituída não causa a menor empatia. Ou seja, um filme que vai ganhar a maior parte dos trofeús de premiações de início de ano.

    1. Sim, acho que o filme dialoga MESMO com os americanos, eu também senti pouca empatia com a história retratada. É isso mesmo que você falou. Lincoln vai ganhar vários Oscar e depois de dois anos as pessoas vão ter que recorrer às informações da internet para lembrar “qual filme foi o grande vitorioso no Oscar de 2012″…

  2. Parece que todo o esforço da Spielberg ficou concentrado na recriação do mito Abraham Lincoln. O filme só funciona quando Daniel Day Lewis ele está em cena.É constrangedora a tentativa de Spielberg de se aproximar de John Ford. James Spader, John Hawkes e Tim Blake Nelson se esforçam para fazer o contraponto cômico da trama, mas não saem do campo da intenção; em Ford os personagens secundários são tão memoráveis quanto os protagonistas.

    1. Caramba, só agora que você comentou que caiu a ficha: James Spader está no filme, hahaha!

      … Concordo que esse alívio cômico da trama em geral não funciona. Mas, sem ser injusto, acho que o filme tem algumas belas cenas, muito bem filmadas e enquadradas pelo senhor Spielberg, sem contar a fotografia, que é um espetáculo (apesar de um pouco escura demais).

  3. Acho que o filme esconde bem seu lado patriótico, ou tenta. Aquele discurso do soldado negro da abertura é uma clara relação com a era Obama. O filme nasce no momento certo. Um Spielberg mediano.

  4. Filme horroroso (só não é pior que Django hahahaah).

    Sério… tem a construção dramática disso aqui e com o compromisso histórico de um livro do Hobsbawn sobre o regime soviético. Se quiser depois te passo uns textos/vídeos sobre porque o filme não deve ser usado nem em escolas.

    Mas o filme não é ruim porque é mentiroso. Nem porque é moralmente questionável – já que nas entrelinhas o que rola lá é um, digamos, “mensalão justificável”.

    É ruim porque até nas cenas deliberadamente mudas (e são bem fáceis de serem identificadas, já que parecem oasis no meio de tanto falatório) o cara consegue ser prolixo. Uma sequência de enquadramentos redundantes, um mais hierático e *belo* que o outro sem o menor impacto e função narrativa. É quando o classicismo (Ford e Griffith pra ficar em dois que também trataram do Homem e da História) vira academicismo.

    1. Pode mandar os textos e vídeos aqui mesmo, Bê! Com relação ao fato de ser moralmente questionável, muitos podem pensar, por exemplo, que o filme poderia justificar o mensalão ou algo parecido, mas antes de tudo devemos levar em conta as diferenças históricas/institucionais num possível quadro comparativo. E, de fato, nem sempre as boas leis são feitas do modo moralmente preferível; isso é um fato da vida humana. Aquela famosa frase de Otto von Bismarck – “Leis, como salsichas, deixarão de inspirar respeito na proporção em que sabemos como elas são feitas.” – por mais cínica e autoritária que seja, tem lá sua fonte de verdade. Os bastidores da política não são limpinhos, como o mais ingênuo dos cidadãos deve saber, mas esse ambiente pode gerar leis excelentes. E a lei, quando gerada, tem o potencial de se desprender da vontade daqueles que a criaram; ela passa a ter vida própria. A democracia, de fato, não é perfeita, mas é o melhor regime possível, certo?

      Com relação a esse academicismo, confesso que concordo apenas em parte com você. Algumas cenas são realmente bonitas, e têm função na narrativa, outras não – são realmente apenas puro virtuosismo. Algumas outras chegam a ser risíveis, como aquela em que Lincoln carrega o filho nas costas. Enfim, é um filme bem irregular; seria melhor sem tanto falatório e pretensão de grandeza, como você disse. Uma hora e meia estava de bom tamanho!

      1. Sobre as diferenças históricas/constitucionais, etc acho que o grande problema de todo aquele contexto é que, pelo pouco que li, a secessão era algo previsto na constituição – que era uma união voluntária de federações independentes, etc. Inclusive, a primeira crítica histórica que se pode fazer ao filme, e que fica evidente se você compara com o do Griffith é que a obsessão do Lincoln nunca foi com o fim da escravidão… e sim em “keeping the Union together” (mais textos criticando o aspecto histórico do filme http://lewrockwell.com/dilorenzo/dilorenzo245.html / http://lewrockwell.com/dilorenzo/dilorenzo242.html). Por sinal recomendo muito o filme do Griffith. É o OPOSTO do Spielberg em termos de eficiência, composição, classicismo, etc. Se bobear acho do mesmo nível do do Ford, mesmo sendo completamente diferente.

        Sobre a frase do Von Bismarck, acho ótima e concordo em parte contigo. Mas abordo por outra perspectiva – http://pjmedia.com/rogerkimball/2013/01/11/thinking-critically-about-critical-thinking/?singlepage=true. Acho que nesse caso, o meu maior receio é que a lição deixada pelo filme é a de que se você e o seu “Partido” (#gramsci) acreditam estar agindo em nome do “Bem Comum”, tudo é permitido para por em prática seu plano. E nem preciso listar o número de exemplos desastrosos desta ideia.

        E meu ceticismo me faz concordar com o Churchill, é claro hehehehe… Mas acho FUNDAMENTAL botar todos os pingos nos is da Democracia. Ultimamente tem sido usada muito mais como um fim do que como um meio, como um ideal intocável. Pra remediar isso, umas boas doses de Tocqueville e Ortega Y Gasset são fundamentais.

      2. A secessão era algo previsto, de fato. Mas o que houve foi uma guerra. E na guerra prevalece a força, e não o direito. Realmente, pelo que eu li, incluindo esses dois textos que você postou, a verdadeira intenção de Abraham Lincoln era manter a União, e não encerrar a escravidão. Mas não sei se o filme afirma ser esta a verdadeira “obsessão” de Lincoln; pelo que eu percebi, ele mesmo diz que a abolição da escravatura seria o ato mais eficaz para enfraquecer os estados sulistas. De qualquer forma, isso foi idealizado e superestimado. Lincoln era racista. O que será que Obama pensa dele?

        “Acho que nesse caso, o meu maior receio é que a lição deixada pelo filme é a de que se você e o seu “Partido” (#gramsci) acreditam estar agindo em nome do “Bem Comum”, tudo é permitido para por em prática seu plano. E nem preciso listar o número de exemplos desastrosos desta ideia.” – Concordo outra vez.

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