Marcas da Violência (David Cronenberg, 2005)

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Poucos elementos que caracterizam o cinema clássico de Cronenberg podem ser encontrados em Marcas da violência. Na verdade, esse é apenas um dos filmes da “nova fase” do diretor, que começou em 2002 com Spider – Desafie sua mente, e até hoje se mantém. Uma fase menos absurda, mais sóbria, porém não menos interessante.

Fundamental conhecer alguns de seus trabalhos pregressos (a exemplo de Videodrome, A Mosca, Gêmeos – Mórbida semelhança, Crash – Estranhos prazeres) para, depois, retornar a esse filme que conta a história de Tom Stall (Viggo Mortensen), a partir do momento em que um incidente violento em seu pequeno restaurante causa uma reviravolta completa na sua vida e nas vidas de todos os membros de sua família, revelando um passado até então enterrado. O homem pacato, trabalhador, respeitado na pequena comunidade em que vive, anos antes era um perigoso criminoso conhecido como “Crazy Joey”.

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Até onde sabemos todo ser humano tem apenas uma vida. Tom Stall pensou que pudesse ter duas. Marcas da violência, além de fazer um pequeno estudo sobre a violência na sociedade, mostra como o passado não pode ser simplesmente enterrado. Uma decisão que tomamos hoje pode afetar em tudo o que vier depois, um ato pode mudar o curso de uma vida. Tal é a complexidade dela. E o filme consegue abordar isso com uma precisão absurda. O acaso existe, mas basicamente são nossos atos racionais que tornam o que nós, de fato, somos.

Isso não significa dizer que, quando o passado retorna para acertar as contas com o presente, o ser humano deve ficar refém do que já fez. O clichê é verdadeiro: todos merecem uma segunda chance. O arrependimento, o perdão e a redenção existem, contanto que as pontas não fiquem soltas. Aliás, esse é um dos temas mais recorrentes nos faroestes, de modo que podemos afirmar que há uma tremenda influência desse gênero no filme (a todo momento me lembrava de Os imperdoáveis, de Clint Eastwood, e O homem do oeste, de Anthony Mann).

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David Cronenberg conseguiu com Marcas da violência alcançar o equilíbrio perfeito entre o apelo visual da violência e o alcance profundo de uma grande história. Ele não subestima o espectador, nem cai em soluções fáceis ou edificantes, como fez, por exemplo, Quentin Tarantino com seu Django livre. Enfim, realizou um dos melhores filmes deste século, cuja cena derradeira é provavelmente a mais bela de sua carreira. Sim, é possível questionar se o personagem de Viggo Mortensen não deveria pagar com sua liberdade pelo que fez no passado com outras pessoas, mas a verdade é que o filme não entra nesse aspecto. Não há um julgamento nesse sentido. Há apenas o retrato da imperfeita realidade. O que irá acontecer na vida de Tom Stall e de sua família dali pra frente não saberemos. Mas sabemos que nada mais será o mesmo.

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Um comentário sobre “Marcas da Violência (David Cronenberg, 2005)

  1. Adoro Cronbenberg! E este é um exemplar magnífico de sua filmografia. Destaque também para a parceria com Mortensen e o roteiro de John Olson.

    Abraços cinéfilos!.

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