Rio Violento (Elia Kazan, 1960)

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Uma informação que revela muito sobre Rio violento, do grande Elia Kazan: no ano de 2002 (quase quatro décadas após seu lançamento nos cinemas) a obra foi selecionada para preservação no Registro Nacional de Filmes da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos por ser “cultural, histórica ou esteticamente significante”.

Certamente, um dos principais motivos para essa inclusão se refere ao tratamento de um tema que todos nós sabemos ser caro aos americanos: a relação entre o homem e sua propriedade. Pois a trama do filme é basicamente a seguinte: um agente do governo americano, interpretado por Montgomery Clift, precisa convencer uma senhora (Jo Van Fleet, que viveu a inesquecível mãe de James Dean em Vidas amargas) a vender sua propriedade ao Estado, que pretende construir uma represa no local.

Na verdade, o que se intenta é resolver a situação pacificamente, pois, no fundo, a tal senhora não tem muita opção: ou sai por bem ou sai por mal. Ou vende seu terreno ou o terá desapropriado. Mas a velha, que vive no local com um bando de filhos (incluindo aí Lee Remick, sempre linda e com uns olhos azuis impressionantes) e netos, bate o pé e nega todas as ofertas oferecidas. Aos poucos, o novaiorquino Montgomery Clift começa a se envolver mais com a família, especialmente com Lee Remick, bem como com a população daquela cidadezinha do Tennessee em plenos anos 30 – ou seja, irá conhecer de perto, e na própria pele até, o racismo absurdo, o coronelismo e a desigualdade social daquelas terras.

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Desapropriação, nas palavras de Celso Antonio Bandeira de Mello, é “o procedimento através do qual o Poder Público compulsoriamente despoja alguém de uma propriedade e a adquire, mediante indenização, fundado em um interesse público”. Algumas pessoas até hoje devem considerar tal procedimento injusto, arbitrário, abusivo. De fato, ele revela a força do Estado sobre o indivíduo, do qual dele não pode se desvincular. Em outras palavras, a criação desse instituto é apenas uma das formas de se justificar ou legitimar a descomunal ascendência do poder público na sociedade.

No filme, a velha senhora, que passou sua vida inteira morando no mesmo lugar, sendo, aliás, uma das pioneiras na transformação dele em local habitável, quer se manter ali até o final da sua vida, para ser enterrada ao lado de seu marido. Sua resistência não se restringe à propriedade em si, aliás muito desgastada pelo tempo. Permanecer ali é provar que também ela tem uma história – não uma grande história, como a de um país, mas uma pequena e digna história. Ela tem esse direito? Sim, a propriedade privada é, aliás, um direito fundamental conferida a todos os cidadãos, manifestação da própria liberdade humana.

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Mas há um conflito. A propriedade dela está impossibilitando a construção de uma obra considerada relevante a um número indeterminado de pessoas. A hidrelétrica não apenas irá permitir a produção de energia, até então inexistente naquela cidadezinha e em outras ao redor, como a represa também irá evitar que o Rio Tennessee continue provocando inundações e mortes naquela região. Então, nesse choque de direitos, qual deve prevalecer? Qual situação será mais justa?

Cada espectador, ao longo do filme, vivenciando a complexidade da questão, inevitavelmente tomará uma posição. Qualquer que seja ela, será em certa medida correta, para se ter ideia de como o conflito é sensível. Felizmente, Elia Kazan e o roteirista Paul Osborn, que adaptou seu texto a partir de dois romances de autores distintos, não defendem um lado a priori, pelo contrário, expõem a abrangência de visões de mundo e, principalmente, sentimentos que envolvem essas situações da vida que os homens tentam racionalizar.

Post dedicado a Bernardo Versiani. 

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