O fundo do coração (One from the heart, 1982)

one from the heart

One from the heart é um daqueles filmes subestimados que serão devidamente reconhecidos em um futuro próximo. Considerada uma obra maldita na carreira de Coppola, acabou sendo responsável pela falência do seu estúdio, a Zoetrope. Nas palavras do diretor, “ (…) Com o colapso do meu estúdio, tudo caiu num buraco negro. Não tenho um presente para viver. Vivo como uma pulga entre dois blocos de concreto. Não há espaço. É horrível”.

O filme, inicialmente orçado em 12 milhões de dólares, acabou custando 27 milhões e foi um fracasso retumbante nas bilheterias, a primeira derrota do principal diretor da década de 70, um verdadeiro divisor de águas em sua carreira. Filmado completamente em estúdio, One from the heart tinha sido projetado para ser um filme menor, uma espécie de retiro espiritual após as desgastantes filmagens de Apocalypse now – no entanto, na prática aconteceu algo bem diferente, graças à conhecida megalomania de Coppola.

Pois bem, o sucesso comercial do filme era não apenas uma esperança, mas uma necessidade. Seu fracasso colaborou, ainda mais, para a decadência da geração dos jovens cineastas que mudaram completamente o cinema americano nos anos 70 e abriu as portas para a ascensão dos filmes-pipoca da década seguinte. E o fracasso não foi apenas em termos financeiros: a crítica não perdoou, caiu matando em cima do filme, também chamado por alguns de One trought the heart (“ataque do coração”). Até hoje, essa grande obra de Francis Ford Coppola permanece na periferia de sua carreira, raramente sendo lembrada como um de seus pontos altos.

Repleto de luzes hipnotizantes, com uma fotografia absolutamente genial do mestre Vittorio Storaro, maravilhosa trilha sonora, montagem precisa e o tipo de direção que transforma o filme em algo quase vivo, um organismo pulsante, One from the heart trata sobre a vida ordinária, de pessoas ordinárias, e seus sonhos, suas válvulas de escape. Não por acaso a história se passa na cidade das ilusões, Las Vegas, o deserto onde tudo se constrói. É um filme sobre separação e reconciliação, o Sunrise (Aurora, 1927) de Coppola, um gênio na sua mais absoluta extravagância.

Musical. Comédia. Drama. Ele pode se encaixar em qualquer um dos gêneros ou em todos. Trata-se, antes de tudo, de um espetáculo visual. Apesar de todas as suas imperfeições, atinge o espectador, representando tão bem o cinema e sua capacidade de dizer a verdade através de mentiras, de ilusões – afinal, a vida não é outra coisa senão uma grande ilusão. Em poucas palavras: uma obra essencialmente cinematográfica.

Obs.: A melhor forma de descrever One from the heart é exibir algumas das suas fascinantes imagens: elas dizem muito mais do que as palavras, especialmente agora que o filme foi remasterizado em alta definição. Quem sabe seja esse o primeiro passo para o seu merecido reconhecimento. Então, algumas baixo, apenas como aperitivo.

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* Informações retiradas do livro Easy Riders, Raging Bulls, de Peter Biskind.

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7 comentários sobre “O fundo do coração (One from the heart, 1982)

  1. Acho ONE FROM THE HEART lindíssimo! Breeeega, mas espetacular! Agora, mesmo com toda a lamentação do homem pelo fim da produtora, no ano seguinte ainda conseguiu fazer o melhor filme da carreira… Pelo menos pra mim: O SELVAGEM DA MOTOCICLETA. Belo post!

    1. Só as pessoas chatas não gostam de coisas bregas, hehehe.

      Eu gosto de O Selvagem da Motocicleta, mas não tanto assim. Por falar nisso, se não me engano, o seu preferido da trilogia é O Poderoso Chefão III, né? O legal dos grandes diretores é exatamente isso: quando começamos a conhecê-los de verdade, percebemos que aquilo que dizem sobre o trabalho deles não é exatamente correto. Há muitas injustiças, sem dúvidas.

      1. As cenas que estão contracenando Rourke, Dillon e Hopper em SELVAGEM são das mais belas que o Coppola filmou na vida, na minha opinião. E ainda tem o Bill Smith… Poutz!

        E sim, na última revisão da trilogia fiquei impressionado com o terceiro, em detalhes que nunca havia reparado antes, em como algumas cenas me tocam de maneira que não acontece com os outros dois primeiros. Enfim, nada garantido, daqui uns 10 anos eu posso rever de novo e gostar mais de outro… Hehe!

        Eu nem diria que o que dizem sobre o trabalho deles seja “correto” ou não, mas acho que quando passamos a conhecer melhor o trabalho de um autor, a sua obra passa a ter um efeito muito especial, bem particular e diferenciado mesmo, mas, realmente, observamos injustiças em alguns casos.

      2. Sim, você tem razão. “Correto” não seria a melhor palavra a ser utilizada, hehe. É exatamente o que você escreveu: uma aproximação maior com as carreiras dos diretores acaba por provocar esses efeitos particulares, especiais – não só no cinema, como na música, literatura, etc.

  2. Nossa, que bacana saber que você aprecia O Fundo do Coração. Não estou sozinha! Ou melhor, não estamos. Afinal, Perrone e Matheus também gostam. Obra subestimada, com certeza! Acho uma graça de filme e sempre achei desde que assisti pela primeira vez. Conceitual e visualmente belo, mesmo que brega, cafona, kitsch e piegas. Assim como muitos momentos e aspectos das relações humanas.
    Eu gosto de basicamente tudo o que ele fez na década de 80, de O fundo do Coração a Tucker. Até mesmo de Cotton Club! Infelizmente, as obras deste período são colocadas em um nível bem inferior. Eu discordo, claro!
    Abraços cinéfilos!

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