Uma estranha passagem em Veneza (Paul Schrader, 1990)

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Uma estranha passagem em Veneza deve ser um dos filmes menos lembrados de Paul Schrader. Ter apenas dirigido (o roteiro é de Harold Pinter, adaptado de um livro de Ian McEwan) pode ser um dos motivos que levaram o filme a uma posição menos privilegiada na carreira deste que é um dos maiores símbolos da geração dos anos 1970, que tanto fez para o cinema americano. Mas creio que ele merece uma atenção especial.

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Explico. Temos aqui um dos melhores trabalhos de Schrader na direção, com um primor técnico realmente notável. A fotografia de Dante Spinotti é belíssima e muito contribui para o encantamento visual do filme, ao lado das belas e misteriosas paisagens de Veneza, com seus becos e caminhos quase labirínticos. Há ainda a trilha sonora grandiosa de Angelo Badalamenti, o eterno parceiro de David Lynch que vivia a melhor fase de sua carreira, o figurino de responsabilidade de Giorgio Armani, além da montagem de Bill Pankow, que tantas vezes trabalhou ao lado do mestre Brian De Palma.

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Uma estranha passagem em Veneza é um suspense elegante, perfeito para ser visto à noite, quase de madrugada, com sua trama de obsessões e mistérios: um jovem casal em crise (Rupert Everett e a bela Natasha Richardson) retorna para Veneza, local em que o relacionamento começou, para tentar reanimar o vínculo; tudo muda quando conhecem o personagem interpretado por Christopher Walken (um dos rostos mais impressionantes do cinema), um veneziano conservador, rígido e violento, embora elegante e sedutor, que os leva para a sua residência, onde conhecem a esposa interpretada por Helen Mirren. A partir daí, a tensão sexual será uma crescente no filme.

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[Observação: Se você, leitor, não assistiu ao filme, aconselho que pule este parágrafo e passe ao próximo]. Como escrevi acima, o filme funciona muito bem visualmente, mas os momentos finais da estória deixam a desejar, criando uma sensação de incompletude. É como se alguma peça tivesse sido colocada às pressas. Basta pensar que o segundo encontro, definitivo, entre os personagens acontece por mero acaso, embora a trama dê a entender que toda a cena estava já planejada. Seria “o conforto dos estranhos” (utilizando o título original) que tanto atraiu os personagens para que retornassem à casa, a despeito dos embaraços do primeiro encontro e do sonho, provavelmente fatalista, de Natasha Richardson na noite anterior?

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Algumas hipóteses do roteiro possivelmente ficarão em aberto quando surgirem na tela os créditos finais, podendo criar a sensação de que a obra não concretiza o potencial que demonstrava. Mas que o leitor não se engane: Uma estranha passagem em Veneza apresenta muito mais méritos do que defeitos e merece ser visto (e revisto), especialmente em alta qualidade (facilmente encontrável na internet) para que se possa melhor admirar as belas imagens desse esquecido trabalho de Paul Schrader.

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6 comentários sobre “Uma estranha passagem em Veneza (Paul Schrader, 1990)

  1. Que delícia de texto… e engraçado você indicar um horário para assistir esse filme. No meu caso, assisti de madrugada, numa dessas exibições da Globo. Vou confessar que assisti mais pela Helen Mirren e pela Natasha … e que fiquei bem surpresa com alguns acontecimentos (e não tanto surpresa com outros, rs). A Helen está tão linda e sensual, meu Deus… Mas, não sei se você concorda, achei a personagem da Natasha “bobinha” demais,.

    1. Sim, Helen Mirren está uma beleza nesse filme. Linda mesmo. Sobre a Natasha, gostei mais dela do que do namorado, especialmente quando ela decide não casar com ele, haha. É uma mulher que fica mais independente ao longo do filme, não? Bastante bonita também, por sinal.

  2. Li um tratado sobre o roteiro em total sintonia com a história de Caravaggio e passei a achar o filme bem
    mais interessante.

      1. Este foi o clímax da ambiguidade erótica que Robert e Caroline mantinham em relação ao belo Colin; o assassínio brutal deste, de forma virtualmente idêntica a que “Michele” Caravaggio utilizara para assassinar Ranuccio; um corte preciso na jugular. Tal como Ranuccio – que também mantinha relação afetiva ambígua com Caravaggio e Lena – Colin tomba ao chão, leva a mão ao pescoço e morre. O local dos excessivamente belos não é nesse mundo! Robert não poderia consumar a sua paixão por Colin, pois tem que manter a imagem de “machão’ herdada do pai, conhecido pelo espectador através da anedota repetida monótonamente ao longo do filme. Ao mesmo tempo, não pode deixar que ele viva sem possuí-lo; a solução é evidente. Uma vez que Colin foi morto, Robert se transforma em “Roberto” e Caroline em “Carolina”. São dadas claras indicações de que eles fazem amor: haviam consumado os seus anseios necrófilos em relação ao seu objeto de desejo, eros e tanatos estão enfim reconciliados.

        O texto interpretativo sobre o filme é de Luiz Carlos Cappellano.

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