A Hora da Zona Morta (The Dead Zone, 1983)

the dead zone

Embora tenha visto A Hora da Zona Morta há algumas semanas, não poderia deixar de registrar como esse filme tanto me tocou e surpreendeu. Surpreendeu não porque eu esperava menos de David Cronenberg – afinal de contas estamos falando de um dos grandes diretores de cinema ainda vivos e atuantes -, e sim porque, à primeira vista, imaginava que iria me deparar com uma obra de ficção científica mais, digamos assim, porra-louca do diretor, na linha do que ele havia feito nos seus filmes anteriores. Mas trata-se de algo consideravelmente diferente.

dead zone 1

Na verdade, embora seja essencialmente uma ficção científica, partindo da premissa de que toda a trama se desenvolve com base na paranormalidade do protagonista (interpretado por Christopher Walken), este filme apresenta camadas muitos mais profundas e belas que, enquanto o homem for homem, nunca irão envelhecer, ou seja, nunca correrão o risco de parecerem datadas para o público.

Pelo menos para mim, A Hora da Zona Morta funcionou muito mais como uma trágica estória de amor e de esperanças não concretizadas por um acaso do destino (?) que abate o “herói” logo no começo do filme. Um acidente que coloca por terra uma série de planos que pareciam tão próximos, naturais e – por que não? – justos com a mulher de sua vida (interpretada por Brooke Adams) e que irá modificar toda a trajetória do protagonista e, adiante saberemos, da própria humanidade. Seria tudo uma mera fatalidade? Algo predestinado? Ou, afinal de contas, não passa de um sonho de um homem em coma? Não seria, então, um gélido pesadelo?

the dead zone 2

Interessante que logo em seguida David Cronenberg realizaria A Mosca (The Fly, 1986), também uma estória de super-herói às avessas que guarda muitas convergências com este aqui, tendo se tornado, não por acaso, um dos filmes mais maduros e bem-sucedidos, artística e comercialmente, do diretor canadense.

Sob vários aspectos, Cronenberg realiza um trabalho excepcional (inclusive creio que seja um dos mais subestimados de sua carreira): grandioso como drama (as ilusões perdidas do jovem casal por um fato irreversível do passado), como suspense policial (quase um giallo em determinado momento), ficção científica e, até mesmo no seu aspecto político, que para muitos pode não funcionar muito bem, apresenta passagens que fogem do padrão. Sim, é um dos melhores filmes que vi neste ano. Se o leitor ainda não se convenceu com minhas palavras, recomendo começar pelo belo tema de Michael Kamen, que parece resumir exatamente a atmosfera dessa obra-prima dos anos 1980.

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