O pequeno rincão de Deus (God’s little acre, 1958)

Apesar de ter se baseado em um best seller nos Estados Unidos, God’s little acre foi rejeitado tanto pela crítica como pelo público quando lançado. Provavelmente esperavam dele um épico sobre a saga de uma determinada família do sul rural dos Estados Unidos. Na verdade, Anthony Mann criou um anti-épico. A “saga” da família liderada pelo patriarca Ty Ty Walden – em interpretação GIGANTE de Robert Ryan, uma das melhores de todos os tempos, sem exagero – não obedece a uma ordem clara de início-meio-fim e nem alcança um grande momento de sucesso, pelo contrário, é composta de diversos momentos patéticos e melancólicos – sem abandonar, porém, o bom humor, que acaba por tornar o filme uma comédia dramática. Nele há mais ou menos uma dezena de personagens relevantes, todos muito bem explorados por Anthony Mann e pelos roteiristas Philip Yordan e Ben Maddow, que conseguem transmitir um tom dramático realmente vivo à trama. Sim, os atores esbanjam uma naturalidade teatral impressionante. Mas o destaque mesmo fica por conta do brilhantismo de Robert Ryan ao interpretar o patriarca obcecado em encontrar ouro nas suas terras, em uma anti-saga quixotesca e, aparentemente, inútil. Por vezes patético e hilário, o personagem comove na sua tentativa de manter unida a sua família apesar de todas as desavenças e dificuldades da vida, transmitindo sua sabedoria e força de vontade em continuar seguindo em frente.

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O Homem do Oeste

Man of the west, 1958

Apenas um diretor muito amadurecido e em plena consciência de contexto histórico no seu trabalho poderia realizar O Homem do Oeste. Se John Ford, dois anos antes com Rastros de Ódio, apresentara uma visão mais melancólica e desiludida ao gênero, Anthony Mann acrescentou ainda mais ao que estava sucedendo na época: o declínio daquele que pode ser considerado o cinema americano por excelência, o faroeste. E, devido à sua qualidade, não nos resta outra opção além de o analisarmos no mesmo patamar da obra-prima de John Ford ou a outros gigantes como Rio Vermelho e Matar ou Morrer.

O protagonista Link Jones (Gary Cooper) é a síntese de que as coisas haviam mudado: abandou seu passado (criminoso, diga-se de passagem) para ter uma vida mais cômoda e honesta com sua esposa; anos depois, por uma fatalidade de destino, reencontra seu antigo tutor (que o tratava como filho) com outra gangue, mais jovem e também menos interessante; dadas às circunstâncias, Link Jones é forçado a acompanhar a gangue em um crime mais ambicioso – terá que encarar de maneira mais intensa do que nunca, porque agora ele tem consciência de quem realmente era, seu passado sujo e violento e, talvez, expugná-lo de uma vez por todas em sua última missão.

A semelhança com Os Imperdoáveis, a última obra-prima do faroeste, não é mera coincidência: o filme de Anthony Mann deve ter inspirado em muito Clint Eastwood para realizar, com muita propriedade, uma espécie de canto de cisne do gênero até o momento – e resta ao público que realmente ama o cinema torcer pela sua retomada, porque faz uma falta danada; e o seu esquecimento não seria a principal prova da desconfiguração que o cinema americano tem sofrido nos últimos tempos?

O Preço de um Homem

O Preço de um Homem/The Naked Spur é mais uma parceria James Stewart-Anthony Mann, iniciada com o espetacular western-road-movie Winchester´73 em 1950. Se neste último o protagonista seguia os rastros de um valioso rifle roubado (e daquele que pretendia há tempos se vingar), em The Naked Spur o personagem de James Stewart sai à procura do criminoso Ben Vandergroat (interpretado por Robert Ryan), que está com a cabeça à prêmio – e que cuja recompensa seria suficiente para que o protagonista pudesse comprar uma fazenda e retomar sua vida após ter ingressado na guerra. Mas o fugitivo não está sozinho, acompanhado de uma órfã perdida na vida (interpretada pela gloriosa Janet Leigh), que pretende fugir com ele para bem longe se sua cidade natal e que o trata como tutor. Nas colinas, o protagonista encontra um velho homem que procura ouro há anos (e que em muito lembra Walter Huston em O Tesouro de Sierra Madre) e um ex-combatente do Exército, que havia recebido baixa desonrosa por ser “moralmente instável”. Juntos, capturam o personagem de Robert Ryan e retornam rumo à cidade para receberam a recompensa. Durante o caminho, conflitos e tentações abalarão os três “sócios” e um processo de reconstrução moral do protagonista deixará claro o motivo de ter tornado-se um caçador de recompensas – e ele decidirá, enfim, se é realmente vendendo um homem, com ou sem moral, que espera retomar sua antiga vida.

Especial Anthony Mann

O pessoal do Multiplot! começa a divulgar hoje uma análise de quase toda a filmografia de Anthony Mann, um grande diretor meio que injustiçado com o passar do tempo – na década de 50,  o então crítico de cinema Jean-Luc Godard afirmou que o Mann era o maior inovador do cinema desde D. W. Griffith. Hoje, pelo menos no Brasil, o acervo a respeito da obra do homem é pequena. Mas as coisas irão mudar radicalmente a partir da iniciativa do Multiplot!, que irá disponiblizar um especial com críticas de 32 filmes (!!!) do diretor americano – e no Makingoff, a partir de abril, um vasto material de sua carreira estará à disposição para quem se interessar e tiver, naturalmente, uma conta no site. Eu mesmo já fiz minha parte lançando o arquivo de O Homem do Oeste por lá, que é uma obra-prima e, por enquanto, meu filme preferido de Anthony Mann – até irei escrever sobre alguns filmes do homem e postarei aqui para engrossar a lista.