Per un pugno di dollari (Sergio Leone, 1964)

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Meus dez preferidos de 2011 (primeira parte)

Da sexta à décima posição.

6) J. Edgar (Idem; Clint Eastwood)

Mesmo aqueles que desaprovaram o último trabalho de Clint Eastwood hão de admitir que, ao contrário de muitos outros filmecos biográficos que vemos por aí, merecem destaque a personalidade e coragem do diretor na criação da biografia obviamente não autorizada de uma figura emblemática como J. Edgar Hoover.

Abordar o lado humano do personagem, dando destaque a uma parte (arbitrariamente escolhida) de sua dimensão psicológica, é algo que poucos hoje saberiam fazer, porque há pouquíssimos cineastas tão sensíveis quanto Clint. Discutir ou não se a homossexualidade, a influência materna e o fascínio pelo poder necessariamente estão relacionados cabe a psicólogos ou pesquisadores – o fato é que, aqui, eles estão intricados, simplesmente porque foi essa a opção escolhida, afinal de contas, autor é também manipulador.

Manipulador. Mas não um sensacionalista. Clint Eastwood, o diretor mais clássico em atividade, não precisa disso. É triste que muitos dos detratores de J. Edgar tenham escolhido atacar a veracidade do texto – é filme ou documentário? – ou até mesmo detalhes técnicos (sim, a maquiagem é péssima, mas transformar isso numa espécie de estupro visual é um exagero tão deselegante quanto) para diminuir a obra. A verdade é que se Clint Eastwood quisesse, poderia fazer um filme muito mais “premiável” – não o quis, a começar pela escolha de um roteirista famoso por histórias de homossexuais. O resultado, porém, para desgosto de muitos, foi de um filme grande e pequeno ao mesmo tempo, se é que vocês me entendem.

7) Os descendentes (The descendants; Alexander Payne)

Confesso que foi um pouco decepcionante constatar que, em geral, as pessoas cuja opinião me importa não gostaram do filme de Alexander Payne. Dentre outros motivos, consideraram-no raso, superficial. Eu consigo entender a divergência mas, ao contrário, senti que Os descendentes só é simples na sua superfície. Também é muito mais honesto do que filmes artificiais que fizeram sucesso, como O Artista.

A leveza da imagem (os personagens, suas roupas, as localizações) e da trilha sonora permite que adentremos na história sem muitas dificuldades, como se fosse um “conto de verão” – com a diferença de as situações envolverem temas pesados, tais quais a falência familiar e a morte. George Clooney, apesar de ser o maior garanhão de Hollywood, me pareceu verossímil no seu papel – dá pra acreditar que ele, se não fosse um astro de cinema, poderia ser mais ou menos daquele jeito. E tem também uma nova musinha chamada Shailene Woodley.

8) A pele que habito (La piel que habito; Pedro Almodovar)

De todas as sessões desta lista, A pele que habito foi a mais remota. Então, não lembro de muita coisa, devo confessar. O que eu sei é que, apesar de em determinado momento ter ficado com um pé atrás no rumo que a história estava tomando (parecia um pouco forçada), o desfecho mostrou que as intenções de Pedro Almodóvar eram na verdade mais frescas e se adequaram exatamente a uma trama que mistura noir, terror e humor negro.

Antonio Banderas está ótimo como o mad doctor, assim como Elena Anaya encarnando a heroína – e Marisa Paredes como a observadora que sabe de tudo. É bem verdade que as cenas de tortura me pareceram bobas e desnecessárias (como são em geral as cenas de tortura no cinema), no entanto, apesar de certa irregularidade, é um filme que envolve e, em alguns momentos, chega mesmo a hipnotizar. Almodóvar também sabe como poucos criar uma ambientação, uma atmosfera – o fato de, assim como Hawks, utilizar performances musicais “ao vivo” contribui muito para isso e expõe uma naturalidade, um senso de vida e beleza na simplicidade rara há muito no cinema.

9) Um método perigoso (A dangerous method; David Cronenberg)

Estava imaginando que David Cronenberg teria êxito se conseguisse dialogar com aquela (maior) parcela do público cujo conhecimento de psicologia é naturalmente escasso. Do ponto de vista de um leigo, creio que Um método perigoso acabou sendo um filme bem acessível – é claro que os estudiosos da psicologia aproveitaram muito mais a sessão, porém, o que importa verdadeiramente é que o filme não pertence a eles. No entanto, não é a sua razoabilidade que faz com que ele seja bom, mas sim a capacidade de contar uma história intensa, levada adiante por personalidades diferentes com interesses em comum, porém, no final das contas, conflitantes.

O choque de pontos de vista, mostra o filme, é inevitável e fundamental para o desenvolvimento do conhecimento humano. E, como há sempre um aspecto pessoal, a direção que um ou outro pesquisador vai tomar está diretamente ligada a suas experiências, pré-conceitos, intuição, etc. É sobre a impossibilidade de separar a realidade da subjetividade que, em minha opinião, trata o filme – no caso do estudo de uma ciência ainda nova, como a psicologia, isso é ainda mais verdadeiro. A relação humana também é crucial: o distanciamento entre Freud e Jung foi apenas por divergências intelectuais ou “pequenos” acontecimentos e preconceitos também os levara à ruptura?

Interessante que, ao menos aparentemente, se há um “herói” aqui, trata-se de Jung, que não aceita ficar preso aos paradigmas criados por Freud e deseja expandir a complexidade da mente humana – no entanto, o próprio Cronenberg, cujo tema da obsessão sexual é recorrente na sua filmografia, parece muito mais alinhado ao pensamento de Freud. Talvez ele simpatize com Jung, mas não consiga acreditar realmente nas suas teses. Talvez, por outro lado, a personagem de Sabina Spielrein, que ficou mais ou menos entre os dois, represente a alma do filme. Ou talvez eu não tenha compreendido mesmo muita coisa. Não importa: Um método perigoso pode não ser obra de grandes imagens, ao contrário, é típico filme de atores, quase teatral, mas nessa sua proposta é mais profundo do que pode aparentar à primeira vista, especialmente nos seus detalhes.

10)  Habemus papam (Idem; Nanni Moretti):

Tinha a sensação de que Habemus papam seria uma comédia mais escrachada sobre os rumos atuais da Igreja Católica. Não é bem assim. O sarcasmo existe, no entanto o filme de Nanni Moretti é mais sério do que parecia inicialmente. É sobre a eleição inesperada de um papa (interpretado pelo grande Michel Piccoli) que, em crise de personalidade, surta completamente e se recusa a aparecer para os fieis – a história fica centrada na sua “terapia” pessoal, de autoconhecimento, cujas lacunas ficam escancaradas diante da imensa responsabilidade do novo cargo.

É engraçado como, diante das restrições temáticas, o psicanalista interpretado pelo próprio Moretti não pode realizar a sessão pela qual é chamado no Vaticano – como resultado, a questão fica restrita à escolha do papa em ter sido um homem de Deus e não, como era sua vontade genuína, um ator de teatro. É sobre a manipulação das aparências que o filme também trata. E uma das suas críticas, talvez a principal, tem a ver com esse distanciamento da Igreja, essa não consideração do indivíduo, rico em si mesmo, tendo como resultado uma instituição presa a dogmas, cada vez mais distante da realidade e dos anseios da vida real.

Bônus:

– Guilty pleasure do ano:

– Patético do ano:

– Decepção do ano:

Where do I go from here?

If I knew the way I’d go back home
But the countryside has changed so much
I’d surely end up lost
Half remembering names and faces
So far in the past
On the other side of bridges that were burned once they were crossed

Tell me where
Where does a fool go
When there’s none left to listen
To a story without meaning
That nobody wants to hear
Tell me where
Where does a fool go
When he knows there’s something missing
Tell me where
Where do I go from here?
Where do I go from here?

To get back home
Where my childhood dreams and wishes still out number my regrets
Get back to a place where I can figure on the odds
Have a fighting chance to lose the blues
And win my share of bets

Tell me where
Where does a fool go 
When there’s none left to listen
To a story without meaning
That nobody wants to hear
Tell me where
Where does a fool go
When he knows there’s something missing
Tell me where
Where do I go from here?
Where do I go from here?

– Diga aí se essa versão não é melhor que a de Elvis?

O estilo abrange tudo

“O estilo abrange tudo. Qualquer um pode fazer planos extravagantes. Há quem julgue que o estilo consiste em mexer a câmara sem parar. Isso é muito comum. Vi um filme, uma noite destas. O realizador não parecia saber o que estava a fazer: havia planos fixos, outros que não paravam quietos. Perguntei-me o que levaria este realizador a chamar a atenção para ele, quando havia dois bons actores. Era neles que se devia concentrar. A mesma coisa com uma paisagem: se é boa, é suficiente. Tomemos o filme de John Ford, My Darling Clementine. Estou a pensar no plano de Henry Fonda, sentado na varanda, os pés no parapeito. É um plano bastante, que dura e conta imensas coisas. Há um milhão de histórias, neste plano. Hoje, fariam um zoom sobre o rosto da personagem, antes de andar à volta dele com a “dolly” até apanhar o outro perfil, antes de fechar sobre o rosto muito depressa. Perder-se-ia muito tempo, quando basta um único belo plano. É preciso ter coragem de fazer durar um plano sem mexer a câmara.”

Clint Eastwood

Retirado do blog Cine Modern Times.

Além da Vida (Clint Eastwood, 2010)

O novo filme de Clint Eastwood trata sobre um tema pouco comum na carreira do diretor e bastante em voga nos dias atuais: a relação entre a ciência e a vida pós-morte. Tudo bem que poucas pessoas teriam a sensibilidade de, em um faroeste ou em qualquer outro gênero do cinema, resumir de forma tão simples e intensa o que representa um assassinato qualquer: “É tirar tudo o que alguém tem e tudo o que ele alguma vez terá” – palavras do seu personagem William Munny em Os Imperdoáveis [Unforgiven, 1992]. Mas a investigação do que acontece após a morte, pelo menos de forma tão explícita, é algo inédito na carreira do ícone de 80 anos – e isso não é, como imaginamos, por acaso.

É claro que o destino é incerto. Clint pode viver mais vinte anos – e eu, que tenho vinte, posso não estar aqui daqui a uma semana. Mas, considerando o fluxo natural das coisas, é certo que o mundo material do diretor está próximo de seu fim, assim como a resposta definitiva para o que vem depois finalmente chegará – mas ele já não poderá contar a ninguém. É tudo ou nada. E é isso que vem torturando as pessoas há séculos. Mas eu não quero pensar sobre isso. Vamos falar sobre o filme.

Hereafter, em linhas gerais, parte do princípio de que alguma coisa acontece após a morte. Clint Eastwood pessoalmente pode ser um grande ateu, mas neste filme ele não é. E o público também precisa acreditar nele para absorver a história, pelo menos durante a sessão. O motivo para embarcar nessa via é simples: Clint Eastwood. Há credibilidade neste nome. E foi nisso que eu me segurei depois que os créditos iniciais surgiram.

Os três personagens centrais de Hereafter são os seguintes: um médium, interpretado por Matt Dammon, que possui o dom de se comunicar com os mortos; uma jornalista francesa, vivida por Cécile De France, sobrevivente do tsunami de 2004; e um garoto que acabara de perder seu irmão gêmeo, piorando ainda mais a sua vida tão sofrida. O primeiro precisa encontrar um modo de se distanciar da sua sina, para ele mais uma maldição do que um dom; a segunda teve uma experiência de quase-morte, sentiu e viu coisas que fizeram mudar completamente sua visão de mundo e procurar respostas; o último, após a tragédia, incorpora a personalidade do irmão morto e busca de todas as formas falar com ele. As trajetórias dos três irão se cruzar, como manda Hollywood.

Há pessoas que vêem problemas nesse cruzamento do destino entre os personagens do filme. Eu não vejo dessa forma. Tudo é uma questão de narrar a história de uma maneira lúcida e verossímil, sem apelar para a pieguice que filmes desse tipo geralmente trazem. E Hereafter realmente não sucumbe porque por trás do projeto há um grande nome – ainda que o filme tenha uma ou outra cena cafona, uma ou outra hollywoodiana demais (no sentido negativo do termo) e escorregue no didatismo quando Matt Dammon tem suas visões – eu quero dizer, por que mostrar tantas vezes os mortos naquele túnel escuro? Tudo bem, muitas das pessoas que passaram por experiências de quase-morte convergem nesse ambiente espiritual, mas insistir nos flashes dessas viagens mediúnicas só deixa tudo enlatado demais, não?

Mas o filme, no final das contas, é bom. A curiosidade humana sobre sua existência é um tema que rende bastante – e a morte sempre será um enorme mistério. A grande vantagem de Hereafter é justamente aproximar essa questão com a ciência. Clint Eastwood quer dizer que, se há respostas a serem encontradas, só a ciência pode se encarregar de tal tarefa com credibilidade, investigando o cérebro humano e as pessoas que passaram por experiências incomuns mas que apresentam uma certa conformidade – que pode, sim, significar algo. Quando o garotinho decide procurar videntes para se comunicar com seu irmão, joga fora seu escasso dinheiro com charlatanismo, e só por sorte que se encontra com uma pessoa realmente especial – uma única entre várias. Muitos charlatães lucraram e continuam lucrando com isso, mas é possível que realmente existam pessoas diferenciadas que devem ser investigadas pela sociedade.

Já no final do filme, quando a personagem de Cécile De France conclui o seu livro após investigações sérias, ela termina a apresentação para a platéia dizendo que ainda há muito a se fazer e que, após centenas de páginas, pouca coisa mudou. Mas uma cientista no filme, em rápida aparição, afirma que a sociedade ainda não atentou para os indícios, além de levantar a questão da existência de interesses que uma busca desse tipo poderia atingir. Ou seja, pelo menos um passo foi sugerido por este filme.

Mas Hereafter não tem mesmo a intenção de mudar o curso da humanidade ou levantar polêmicas. Ele trata sobre questões espirituais, porém insiste no fato de que, alheio a tudo, é esta vida que temos, e que as relações com as pessoas e as nossas experiências devem ser encaradas como uma forma de crescermos individualmente através de um ângulo positivo. Sempre à procura de um futuro melhor, mesmo que ele seja, no final das contas, incerto.