Caminho sem volta (James Gray, 2000)

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Embora tenha apenas cinco filmes em seu currículo, James Gray é, sem sombra de dúvidas, um dos melhores diretores em atividade, certamente o maior surgido nos anos 90. Seu estilo clássico, sem piruetas cinematográficas, verdadeiramente focado nos personagens e nas relações que travam entre si (e com o espectador), bem como na construção da trama, revela um cineasta consciente de suas qualidades e se deu papel, sem precisar apelar para truques baratos com a intenção de chamar a atenção do público e da crítica.

Sem muitas dificuldades podemos definir qual o tema central, recorrente, na filmografia de James Gray: a família. Em todos os seus filmes, o aspecto familiar é a base de sustentação. Mesmo os personagens perdidos almejam reencontrar alguma dimensão familiar que apenas lembram remotamente. Ou construir novas relações que possam chamar de duradouras. Assim, o fator tempo possui também crucial importância, como não poderia deixar de ser, em seu cinema.

Sobre Caminho sem volta [The Yards], trata-se de um grande filme, merecedor do elenco de primeira linha que possui, contando com atores inesquecíveis do quilate de Faye Dunaway, James Caan, Ellen Burstyn, além dos então jovens Charlize Theron, Mark Wahlberg e, claro, Joaquin Phoenix. Em muito lembra O Delator [The Informer, 1935] na pequena odisseia moral do protagonista, com uma diferença importante: enquanto que na obra de John Ford a delação é o ponto de partida para a busca pela redenção do personagem de Victor McLaglen, no filme de Gray acontece exatamente o inverso: a recuperação moral de Wahlberg significa exatamente a coragem para denunciar algumas das pessoas que antes faziam parte daquilo que ele podia chamar de família.

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Grandes filmes de verão #3

Mulheres bonitas, praias, piscinas, pôker, bares, cruzeiros, viagens em trens, essas coisas.

Crown, o Magnífico (The Thomas Crown Affair, 1968)
A Princesa e o Plebeu (Roman Holiday, 1953)
Boogie Nights - Prazer Sem Limites (Boogie Nights, 1997)
O Pecado Mora ao Lado (The Seven Year Itch, 1955)
Era Uma Vez no Oeste (C'era una Volta il West, 1968)
Os Caçadores da Arca Perdida (Raiders of the Lost Ark, 1981)
Charada (Charade, 1963)

Musa do dia: Faye Dunaway

“Never have I felt so close to a character as I felt to Bonnie. She was a yearning, edgy, ambitious southern girl who wanted to get out of wherever she was. I knew everything about wanting to get out, and getting out doesn’t come easy. But with Bonnie there was real tragic irony. She got out only to see that she was heading nowhere and the end was death.

There was a real kind of fierceness I’d seen in Bonnie that I recognized in myself as well. You look at photos of her and see it in her eyes, the set of her jaw. It takes fierceness in life to get ahead. I already knew that. Bonnie was Tennessee Williams, Cat on a Hot Tin Roof time. She knew the only way to get what she wanted was through her own sheer force of will. She was driven by her own desire. I know that territory – you do whatever it takes. She wanted to be something special, something out of the ordinary.”

– Faye Dunaway, in her autobiography Looking for Gatsby.

Crown, o Magnífico (Norman Jewison, 1968)

The Thomas Crown Affair é um êxtase cinematográfico, uma obra que consegue assimilar o entretenimento com o requinte estético comparável a filmes como North by northwest [Intriga Internacional, 1959] e Charade [Charada, 1963]. A direção pop de Norman Jewison, também este um grande realizador, trabalha paralelamente com outros brilhantes quesitos, como a trilha sonora, o figurino (as moças vão adorar as roupas de Faye Dunaway) e as cores vibrantes, para inserir o público ao ambiente único dos anos 60 – este é um daqueles filmes que captam o que há de melhor no cinema de sua época; parece emergir das telas o otimismo sessentista, naquela explosão cultural que soube valorizar a diversão, o entretenimento, de uma forma atrevida, ousada, intensa, mas nunca vulgar.

Em The Thomas Crown Affair, Steve McQueen é um empresário de sucesso, um bon vivant que lidera grandes roubos não por necessidade, mas por prazer, é a aventura e os seus subseqüentes riscos que o atraem. Ele orquestra um grupo que envolve pessoas diversas e desconhecidas: nenhuma peça conhece a verdadeira identidade do líder, nem ao menos a sua face.

Após assaltar de uma banco a quantia de quase 3 milhões de dólares, Thomas Crown passa a ser investigado pela provocante, inteligente e eficaz “detetive” de uma seguradora que aposta nela para reaver a quantia furtada. Interpretada por Faye Dunaway, a investigadora costuma fazer uso de práticas inescrupulosas e até ilegais para se aproximar dos golpistas. Inicia um affair com Thomas Crown ao admitir para ele que está lidando com o principal suspeito do crime: sabe ela que os riscos fazem parte da personalidade dele, e administrá-los pode ser sua principal arma na sedução.

O público, então, se deliciará com uma espécie de jogo de gato e rato, ou melhor, de gata e gato: os dois são espertos o suficiente para trapacearem entre si sem que isso os ofenda; sabem eles que, no fundo, são parecidíssimos, apenas estão em lados opostos. Estão mesmo? É o que saberemos no decorrer deste filme, que possui, dentre todas as qualidades citadas, a segunda melhor cena de xadrez da história, sem dúvidas a mais excitante.