Sargento York (Howard Hawks, 1941)

Apesar de carregado ideologicamente, tanto do ponto de vista religioso como da exaltação militar, o que acaba por contaminar a obra, Sargento York é um dos filmes que guardam as imagens mais belas da carreira de Howard Hawks – o que não é pouco. É possível que este seja o filme mais fordiano de Hawks (lembra A mocidade de Lincoln; aliás, se Sargento York focasse apenas a vida do sargento antes do triunfo militar, ou seja, a sua mocidade como fez John Ford, seria tão bom quanto ou até melhor). Mas até mesmo nas cenas de guerra (meio repetitivas), há uma sequência incrível que lembra o ataque liderado por Kirk Douglas em Glória feita de sangue, de Stanley Kubrick (produzido quase vinte anos depois). A diferença entre a visão crítica de um Kubrick e um Hawks sobre o exército é espantosa. Bom, selecionei alguns frames que mostram como, além de qualquer visão política, Howard Hawks foi incontestavelmente um dos maiores do cinema.

Deus salve a piscina!

(…) Hollywood, como se sabe, tornou-se Hollywood apenas porque oferecia sol e tempo seco o ano inteiro – daí o cinema ter-se mudado de Nova York para lá em 1909 e só então ter-se tornado uma indústria. Os primeiros magnatas dos estúdios construíram as primeiras mansões da região (mansões, mesmo, com noventa ou cem quartos) e já as equiparam com piscinas. Mas, em pouco tempo, alguns de seus principais atores ficaram também tão ricos que seguiram o exemplo: Mary Pickford e Douglas Fairbanks, Pearl White, Charles Chaplin, Harold Lloyd. Os magnatas, longe de se incomodarem, acharam ótimo: cinema é fantasia e, se pudesse promover a idéia de que os astros levavam uma vida de sonho sob um sol que nunca se punha, tomando refresco pelo canudinho, isso seria bom para os negócios. Cinema era uma diversão barata e sua platéia eram as grandes massas que levavam vidas medíocres (ou seja, “normais”), às vezes passando frio e necessidades. O sonho lhes enchia a barriga, embora não garantisse o bronzeado.  (Ruy Castro; Glamour à beira da piscina; 31/7/1999)

O Homem do Oeste

Man of the west, 1958

Apenas um diretor muito amadurecido e em plena consciência de contexto histórico no seu trabalho poderia realizar O Homem do Oeste. Se John Ford, dois anos antes com Rastros de Ódio, apresentara uma visão mais melancólica e desiludida ao gênero, Anthony Mann acrescentou ainda mais ao que estava sucedendo na época: o declínio daquele que pode ser considerado o cinema americano por excelência, o faroeste. E, devido à sua qualidade, não nos resta outra opção além de o analisarmos no mesmo patamar da obra-prima de John Ford ou a outros gigantes como Rio Vermelho e Matar ou Morrer.

O protagonista Link Jones (Gary Cooper) é a síntese de que as coisas haviam mudado: abandou seu passado (criminoso, diga-se de passagem) para ter uma vida mais cômoda e honesta com sua esposa; anos depois, por uma fatalidade de destino, reencontra seu antigo tutor (que o tratava como filho) com outra gangue, mais jovem e também menos interessante; dadas às circunstâncias, Link Jones é forçado a acompanhar a gangue em um crime mais ambicioso – terá que encarar de maneira mais intensa do que nunca, porque agora ele tem consciência de quem realmente era, seu passado sujo e violento e, talvez, expugná-lo de uma vez por todas em sua última missão.

A semelhança com Os Imperdoáveis, a última obra-prima do faroeste, não é mera coincidência: o filme de Anthony Mann deve ter inspirado em muito Clint Eastwood para realizar, com muita propriedade, uma espécie de canto de cisne do gênero até o momento – e resta ao público que realmente ama o cinema torcer pela sua retomada, porque faz uma falta danada; e o seu esquecimento não seria a principal prova da desconfiguração que o cinema americano tem sofrido nos últimos tempos?